Os jovens de 14 a 17 anos, que se identificam como residentes de 'centros de menores', revelaram à Lusa que falam espanhol ou outro idioma além do árabe. Estes adolescentes foram atraídos para a travessia ilegal da fronteira a partir de Marrocos através do Instagram, utilizando publicações que continham mapas e instruções detalhadas sobre como cruzar e o que fazer ao entrar na cidade espanhola.
Um rapaz de 15 anos, oriundo de Tânger, confessou à Lusa que foi ludibriado, pois o conteúdo do Instagram era falso. Ele fez parte da multidão de mais de 50 mil pessoas que invadiram repentinamente o enclave espanhol no Norte de África em 24 horas, seja a pé ou nadando.
Na zona industrial de EL Tarajal, próxima à passagem fronteiriça entre Ceuta e a cidade marroquina de Fnideq, existe um centro de acolhimento gerido pela Fundação Samur. Este centro encontra-se aberto, mas isolado por barreiras metálicas, impedindo o acesso de jornalistas ou dos centenas de jovens que vagueiam nas proximidades ou que estão sentados nos passeios. No domingo, os armazéns do recinto, que operam em capacidade reduzida, estavam completamente fechados e trancados.
As autoridades de Ceuta haviam alertado repetidamente, antes da chegada maciça de dezenas de milhares de pessoas na quinta e sexta-feira, sobre o excesso de capacidade nos centros de acolhimento de menores migrantes que não estavam acompanhados por adultos locais, solicitando apoio de outras regiões autónomas da Espanha.
Fontes do executivo de Ceuta, citadas pelos jornais El Periodico e El Pais, relataram que o número de menores nos centros saltou de 180 para 800 em dez dias. As mesmas fontes admitiram que, devido à dimensão da situação, deixou de ser possível contabilizar os chegados a partir da quinta-feira, afirmando que 'chegaram milhares e ninguém sabe quantos'.
Em Espanha, a responsabilidade pela gestão do acolhimento de menores não acompanhados que chegam ao país e que não podem ser sujeitos a ordens de repatriação recai sobre os governos regionais, seguindo normas de leis nacionais e tratados internacionais. Regiões como Canárias, Ceuta e Melilla têm solicitado solidariedade de outros governos autónomos para lidar com este problema.
Após os acontecimentos recentes em Ceuta, o Governo central reconheceu que se instalou 'uma situação extremamente complexa' na cidade. Miguel Ángel Pérez, delegado do Governo de Espanha em Ceuta, declarou numa conferência de imprensa que o Estado iria apoiar a cidade autónoma, especialmente na área dos menores, caso houvesse uma situação complexa que necessitasse de resposta.
De acordo com o governo espanhol, mais de 48.000 pessoas que entraram em Ceuta durante 24 horas deixaram a cidade na sexta-feira. Entre aqueles que permaneceram encontram-se os centenas de menores que agora ocupam o recinto industrial de El Tarajal, num cenário distinto da normalidade recuperada nas ruas do centro ou na área fronteiriça com Marrocos.
Apesar de terem sido enganados pelo Instagram, de enfrentarem a carência de alimentação e abrigo, os menores informaram à Lusa que irão 'aguentar até poder', sendo o regresso a Marrocos a última alternativa, visto que 'não há nada para fazer' lá. Todos os entrevistados garantiram não estudar; muitos mencionaram trabalhar 'desde pequenos', seja na agricultura ou como barbeiros. Alguns alegaram que seus pais sabem onde estão, enquanto outros não responderam a essa questão.
Um grupo relatou ter vindo de Meknes, a cerca de 300 quilómetros de Ceuta, enquanto outros afirmaram ser de cidades mais próximas, como Tânger. O objetivo comum destes jovens é 'ficar em Espanha' ou 'ter um futuro em Espanha'.
Dados de abril deste ano da Organização Internacional do Trabalho (OIT) indicam que um em cada cinco marroquinos entre 15 e 29 anos, totalizando 2,9 milhões de jovens, não está empregado nem estudando. A OIT salientou que estes números duplicam os registados há três anos e que a situação dos jovens sem estudo ou trabalho 'continua a ser um desafio estrutural' em Marrocos.
A Associação Marroquina de Direitos Humanos afirmou no sábado que 'a desesperança deixou de ser um sentimento individual para se transformar na identidade de toda uma geração'. Esta associação interpreta a emigração ou o desejo de emigrar dos jovens marroquinos como a concretização dessa desesperança e uma condenação à 'corrupção, autoritarismo e abuso de poder'.
O descontentamento também se manifestou em protestos do movimento GENZ212, que marchou em setembro exigindo melhores serviços públicos e criticando os gastos milionários do Governo marroquino em infraestruturas desportivas, como o novo estádio de Casablanca, planeado para a Copa do Mundo de 2030. Após a repressão desses protestos, prisões e condenações, o movimento GENZ212 encontra-se atualmente disperso.



