Por muitas décadas, a visão científica dominante defendia que a extinção dos dinossauros, ocorrida há 66 milhões de anos, foi primariamente resultado de um longo período de frio intenso após a colisão de um asteroide. Contudo, uma investigação recente aponta para um evento muito mais rápido e destrutivo: tempestades de fogo globais capazes de matar grandes répteis em questão de horas.
O impacto do asteroide, que tinha cerca de 10 quilômetros de diâmetro e atingiu a Península de Yucatán, no México, resultou na formação da cratera de Chicxulub e na vaporização de enormes quantidades de rocha. Parte desse material se transformou em pequenas gotículas rochosas, chamadas esferulitos, que se dispersaram pelo planeta e retornaram à atmosfera a velocidades altíssimas.
Modelos computacionais anteriores previam que o atrito dessas partículas durante a queda geraria um forte pulso de radiação térmica, letal para animais sensíveis, mas insuficiente para iniciar incêndios generalizados na vegetação mundial. Entretanto, a análise de um novo estudo revelou que esses cálculos negligenciavam um fator essencial: uma densa camada de poeira fina de silicato, proveniente do vapor de rocha que não se condensou imediatamente em esferulitos.
Evidências dessa poeira foram detectadas em 2023 no local fóssil de Tanis, na Dakota do Norte (EUA), e posteriormente confirmadas na Bacia de Raton, localizada na fronteira entre Colorado e Novo México, uma área chave para o marcador geológico que demarca a transição da Era dos Répteis para a Era dos Mamíferos.
Um efeito estufa fatal em minutos
De acordo com os cientistas, essa poeira atuou como um isolante térmico, funcionando como um cobertor que impedia a radiação de escapar para o espaço e, consequentemente, devolvendo o calor para a superfície terrestre. Estima-se que a intensidade do calor na superfície foi 3,5 vezes maior do que seria calculado considerando apenas a queda dos esferulitos.
O estudo chegou à conclusão de que os animais terrestres expostos a essa tempestade térmica sofreram uma exposição ao calor cerca de 17 vezes superior ao nível considerado fatal para seres humanos. Brandon Johnson, autor principal do estudo, declarou ao Space.com: «Estamos em um cenário no qual podemos ter matado essencialmente quase tudo na superfície no intervalo da primeira ou segunda hora.»
Embora a radiação pudesse não ser suficiente para inflamar troncos de árvores grossos diretamente, ela superou facilmente o ponto de ignição de gramíneas, líquens e folhas secas, fornecendo o material inflamável necessário para incêndios florestais catastróficos.
Sobrevivência e falhas na teoria
Os organismos que conseguiram se proteger sob o solo ou dentro d'água tiveram melhores chances de sobreviver à onda de calor inicial. Mais tarde, a mesma poeira que causou a queima da superfície permaneceu suspensa, bloqueando a luz solar por vários anos e iniciando o prolongado «inverno de impacto» tradicionalmente associado à extinção em massa.
Apesar da coerência do modelo apresentado, ainda existe um ponto que precisa ser verificado: até o momento, os registros diretos de incêndios florestais provocados por essa camada de poeira foram encontrados somente na América do Norte. O paleontólogo Alfio Alessandro Chiarenza, do University College London, que não integrou a pesquisa, observou: «É possível que eventualmente encontremos o registro dessas queimadas em escala verdadeiramente global, mas simplesmente não o temos até agora».


