Um ensaio clínico randomizado, conduzido por cientistas da University of Colorado Anschutz Medical Campus, aponta que a semaglutida oral tem potencial para ajudar indivíduos com Transtorno por Uso de Álcool (AUD) a diminuir os episódios de consumo excessivo de álcool. Os achados foram divulgados no American Journal of Psychiatry e envolveram adultos que procuravam tratamento para essa condição.
O estudo acompanhou 50 participantes com transtorno moderado ou grave por uso de álcool ao longo de oito semanas. Embora o medicamento não tenha alcançado seu desfecho primário, que era a redução do desejo por álcool medida em laboratório, os pesquisadores notaram melhorias em vários indicadores de consumo e nas consequências ligadas ao alcoolismo, o que fortalece a perspectiva da semaglutida como uma futura alternativa terapêutica.
Como o estudo foi realizado
Os pesquisadores dividiram os 50 voluntários em dois grupos: um recebeu semaglutida oral e o outro recebeu placebo, sendo o estudo duplo-cego, ou seja, nem os pacientes nem os pesquisadores sabiam quem pertencia a qual grupo. O tratamento teve duração de oito semanas. Durante as quatro primeiras semanas, os voluntários tomaram uma dose diária de 3 mg de semaglutida, e nas quatro semanas subsequentes, a dose foi aumentada para 7 mg diariamente.
Todos os participantes possuíam Índice de Massa Corporal (IMC) igual ou superior a 25, apresentavam transtorno por uso de álcool de intensidade moderada ou grave e estavam buscando ajuda para reduzir ou cessar o consumo de bebidas alcoólicas. Antes do início da investigação, esses participantes consumiam, em média, cerca de seis doses de bebida alcoólica por dia e registravam aproximadamente cinco dias de consumo excessivo semanalmente. Adicionalmente, 98% deles eram classificados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como estando em níveis alto ou muito alto de risco para consumo de álcool.
Redução do consumo excessivo de álcool
Ao término das oito semanas, os participantes que utilizaram semaglutida demonstraram menos dias de consumo exagerado de álcool, consumiram menor quantidade de bebidas por vez e apresentaram uma diminuição no desejo diário por álcool quando comparados ao grupo placebo. O tratamento também esteve ligado à redução de problemas associados ao álcool e à queda nos dias de uso de cannabis entre aqueles que já faziam uso dessa substância.
Joseph P. Schacht, professor associado da University of Colorado Anschutz School of Medicine e autor principal do estudo, comentou ao Newsweek que os resultados sugerem que o fármaco pode ser benéfico para pessoas que não obtiveram boa resposta com as terapias atuais. Schacht declarou: «Este estudo sugere que a semaglutida oral pode ajudar a reduzir o consumo pesado e prejudicial de álcool, mesmo em pessoas que não estão tentando parar completamente de beber».
Apesar dos resultados positivos, o objetivo principal do estudo — mensurar a intensidade da vontade de beber após exposição a estímulos relacionados ao álcool em ambiente controlado — não mostrou diferença estatisticamente relevante entre os grupos. Da mesma forma, a redução na média de doses consumidas diariamente ao longo de todo o estudo não atingiu significância estatística.
Perda de peso não explicou os resultados
A semaglutida, conhecida por seu uso no tratamento de obesidade e diabetes tipo 2, geralmente está associada à perda de peso. Contudo, neste estudo específico, tal fenômeno não ocorreu. Os pesquisadores não identificaram diferença significativa na perda de peso entre os grupos, o que indica que a diminuição do consumo de álcool parece ter acontecido independentemente de alterações no peso corporal ou nos hábitos alimentares.
De acordo com os autores, este achado corrobora a hipótese de que o medicamento pode estar atuando em mecanismos cerebrais ligados à recompensa e ao desejo por álcool, e não meramente através da supressão do apetite.
Resultados ainda precisam ser confirmados
Os efeitos colaterais registrados durante a pesquisa foram, em sua maioria, leves e ocorreram com frequência similar em ambos os grupos. Apenas um participante precisou suspender o tratamento após desenvolver uma erupção cutânea que foi considerada provavelmente relacionada ao medicamento. A adesão ao tratamento manteve-se alta.
No entanto, os próprios investigadores ressaltam que os resultados devem ser analisados com cautela. O estudo limitou-se a 50 participantes, foi conduzido em um único centro de pesquisa e incluiu majoritariamente pessoas brancas com sobrepeso ou obesidade. Por essa razão, os autores defendem a realização de ensaios clínicos maiores e mais extensos para verificar se os benefícios observados persistem em populações mais variadas.
O transtorno por uso de álcool possui atualmente apenas três medicamentos aprovados pela Food and Drug Administration (FDA) para tratamento, e nenhuma nova terapia havia sido aprovada para essa finalidade desde 2006. Diante desse cenário, os pesquisadores veem a semaglutida como uma candidata promissora para futuras investigações clínicas.


