De acordo com as primeiras estimativas do Governo de Espanha, mais de 50.000 indivíduos entraram ilegalmente em Ceuta, com um grande fluxo ocorrido na quinta-feira. No entanto, pelo menos 48.300 pessoas retornaram voluntariamente a Marrocos na sexta-feira.
Apesar da saída de muitos, centenas, ou até milhares, de migrantes continuam presentes em Ceuta. Estes indivíduos estão agrupados em áreas mais distantes dos postos de controlo militar e policial, cujas patrulhas foram intensificadas na cidade. Eles se encontram em praias ou nas proximidades do Centro de Acolhimento Temporário a Migrantes (CETI), conforme apurou a agência Lusa.
Relatos de outras fontes de comunicação indicam que centenas de pessoas estão escondidas ou refugiadas nas serras da cidade. Quase todos os migrantes que permanecem são oriundos de países subsarianos, enquanto aqueles que decidiram sair por conta própria desde sexta-feira eram cidadãos marroquinos.
Entre os centenas que persistem perto do CETI, sem acesso ao centro de acolhimento – que as autoridades de Ceuta afirmam estar superlotado –, há pessoas de nações como Senegal, Gâmbia, Iémen ou Sudão. Muitos desses indivíduos já residiam em Marrocos, em cidades como Tânger ou Casablanca, e dirigiram-se à fronteira de Ceuta após obterem informações, seja por ouvir dizer ou através da Internet, de que era possível atravessar para o lado espanhol, conforme relataram diversos migrantes à Lusa.
Todos os entrevistados pela Lusa mencionaram ter feito a travessia nadando na quinta-feira, aproveitando o grande volume de pessoas e a maré baixa, o que lhes permitiu contornar o pontão de El Tarajal, localizado na fronteira entre Ceuta e Marrocos.
Atualmente, esses migrantes estão nas ruas, amontoados em calçadas e na via de acesso ao CETI, relatando não terem acesso a alimentação, bebida ou higiene, mas manifestam o desejo de permanecer em Ceuta, Espanha, e na Europa. Florence, de 32 anos, do Senegal, declarou: «Quero viver bem, como todos. E a liberdade». Ali, também senegalês e com 32 anos, que trabalhava com pequeno comércio há quatro anos em Marrocos, afirmou à Lusa: «Quero viver bem, como todos. E a liberdade». Fátima, de 28 anos, do Sudão, acrescentou: «Há guerra no nosso país».
A Espanha mobilizou militares em Ceuta e reforçou a presença das forças de segurança na cidade. O Governo anunciou na sexta-feira um acordo com Marrocos visando a rápida repatriação das pessoas que haviam entrado ilegalmente na semana anterior. Segundo relatos dos próprios migrantes aos meios de comunicação, o fechamento de lojas e outros serviços na cidade durante dois dias, o que impossibilitou a compra de alimentos, levou dezenas de milhares a deixar a cidade pouco tempo após a entrada.
A fronteira junto ao pontão de El Tarajal foi reforçada com a instalação de uma nova barreira pneumática de meio quilómetro sobre o mar no sábado. Desde quinta-feira, a polícia espanhola contabilizou a remoção de 71 corpos deste local. Em 2025, este ponto registou 46 óbitos por afogamento em tentativas de entrada ilegal em Ceuta.
Fontes na cidade citadas pelo jornal El Pais asseguram que estão sendo preparados espaços com câmaras frigoríficas para receber até 200 cadáveres, reconhecendo a possibilidade de haver mais vítimas nas águas. Até o momento, o número de corpos retirados do lado de Marrocos é desconhecido.
Em contraste, as autoridades locais informaram que cerca de 1.150 das pessoas que entraram em Ceuta desde quinta-feira receberam atendimento médico. A cidade de Ceuta está voltando gradualmente à normalidade, com lojas e restaurantes reabertos desde sábado, turistas preenchendo as esplanadas do centro e o tráfego de veículos retomado.
Contudo, essa recuperação ocorre sob forte vigilância policial e militar nas ruas, e houve o cancelamento das grandes festividades anuais da cidade, que culminam com a celebração do Dia da Virgem de África, prevista para 05 de agosto e que deveria começar no sábado.