Especialistas alertam que uma das disparidades de gênero menos notadas na África do Sul mina silenciosamente a segurança financeira das mulheres — a crescente expectativa de que as filhas se tornem simultaneamente cuidadoras e patrocinadoras financeiras para os pais idosos.
No mundo, mulheres e meninas realizam diariamente cerca de 16 bilhões de horas de cuidados não remunerados, de acordo com dados da ONU Mulheres. Embora a maior parte desse trabalho seja motivada pelo amor e dever familiar, especialistas observam que as consequências financeiras desse trabalho invisível são frequentemente ignoradas.
Pesquisas realizadas na África do Sul mostram que esse fardo permanece predominantemente de gênero. Uma revisão da Comissão de Igualdade de Gênero em 2024 revelou que as mulheres continuam a suportar o peso principal dos cuidados não remunerados, incluindo o cuidado de parentes idosos. Para muitas famílias, essa obrigação recai por padrão sobre as filhas adultas, que frequentemente atuam como coordenadoras de cuidados, assistentes financeiros e pessoas de resposta a emergências, na ausência de planejamento formal ou garantias financeiras.
Estudos internacionais também ligam os cuidados não remunerados a rendimentos mais baixos ao longo da vida, redução das economias de aposentadoria e interrupção da carreira para as mulheres. Pesquisas de organizações como OCDE e Organização Internacional do Trabalho (OIT) mostraram que as mulheres que assumem responsabilidades significativas de cuidado tendem a reduzir suas horas de trabalho, recusar promoções ou deixar completamente o mercado de trabalho, o que acarreta consequências de longo prazo para seu bem-estar financeiro.
Farzana Bota, gerente sênior de comunicação na Sanlam Risk and Savings, chama esse fenômeno de 'penalidade da filha', ou seja, os custos econômicos de ser o pilar financeiro da família, gerenciando as exigências emocionais e práticas do cuidado dos pais idosos.
Bota explica: 'A penalidade da filha é, essencialmente, um imposto à empatia. As mulheres são frequentemente socializadas como cuidadoras, portanto, podem não ter limites financeiros fortes, ou podem não acreditar que limites devem existir quando a família precisa de apoio. Essa responsabilidade também pode surgir cedo, antes que a mulher consiga estabelecer sua própria base financeira.'
Cuidado exige mais do que apenas despesas financeiras
Apoiar um pai idoso envolve muito mais do que apenas transferências de dinheiro mensais. Madri Jacobs CFP®, planejadora financeira da Sanlam e diretora autorizada da Brilliance BlueStar, observa que as filhas frequentemente assumem a gestão de consultas médicas, acompanhamento dos pais em clínicas, resolução de questões bancárias e coordenação de ajuda doméstica. Além dessas tarefas práticas, existe uma carga emocional associada à previsão de problemas, tomada de decisões familiares e disponibilidade constante em caso de crises.
Segundo Jacobs, 'apoiar pais idosos não é mais uma situação incomum. O melhor ponto de partida é reconhecer que você pode ter que ajudar seus pais em algum momento e começar a planejar isso como parte do seu orçamento e provisões de emergência.'
Preparação antes da crise
Bota afirma que proteger o próprio bem-estar financeiro não é um ato de egoísmo, mas uma necessidade para as mulheres que podem sustentar várias gerações. Ela recomenda uma combinação de reservas, seguro de renda, cobertura de invalidez ou incapacidade, proteção contra doenças graves e planejamento de aposentadoria, chamando isso de 'capital de sobrevivência'.
'Juntas, essas proteções criam uma base financeira que ajuda a mulher a superar circunstâncias pessoais difíceis, continuando ao mesmo tempo a apoiar as pessoas que dependem dela.'
No entanto, persistem lacunas significativas na proteção. Pesquisas internas da Sanlam mostram que, em média, apenas 16% das mulheres na África do Sul têm seguro de renda, e 45% não possuem seguro de vida. Sem proteção financeira adequada, a filha que cuida dos pais idosos pode colocar em risco tanto o seu futuro quanto a estabilidade financeira da sua família em caso de doença, deficiência ou perda de renda.
Jacobs aconselha que o planejamento financeiro deve levar em conta essas possibilidades. 'As pessoas não morrem necessariamente em ordem cronológica. Se seus pais dependem da sua renda, seu plano financeiro deve considerar como as necessidades básicas deles serão atendidas se você não puder mais fornecê-las.'
Ela recomenda que as mulheres trabalhem com um consultor financeiro qualificado para identificar riscos imediatos, entender qual proteção já pode existir através de benefícios do empregador e desenvolver um plano que reflita tanto a capacidade de pagamento atual quanto as obrigações futuras.
Transformando o cuidado em um plano sustentável
Especialistas acreditam que um dos maiores erros cometidos pelas famílias é presumir que a filha mais confiável absorverá toda a responsabilidade. Em vez disso, Bota e Jacobs aconselham um planejamento prático que inclui:
Elaborar uma lista de todos os custos regulares e únicos associados ao apoio aos pais idosos, incluindo despesas médicas, de transporte, domésticas e administrativas.
Acordar uma contribuição mensal sustentável que não dependa de empréstimos nem de economias pessoais.
Separar os custos de cuidado dos fundos de emergência e despesas diárias.
Continuar as contribuições para a aposentadoria, mesmo que sejam modestas e regulares.
Distribuir as responsabilidades financeiras e administrativas entre irmãos e membros estendidos da família, em vez de depender de uma única pessoa.
Manter políticas importantes, informações médicas, registros financeiros e testamentos organizados e facilmente acessíveis.
Limites fazem parte do cuidado responsável
Bota enfatiza que limites financeiros não devem ser confundidos com falta de compaixão. Em vez de concordar com cada pedido, as mulheres podem estabelecer limites sustentáveis, como cobrir contribuições médicas, não assumir a responsabilidade pelos pagamentos de veículos ou comprometer-se a fazer um pagamento mensal fixo em vez de depender constantemente de cartões de crédito para cobrir despesas imprevistas.
À medida que a África do Sul reflete sobre os progressos e desafios enfrentados pelas mulheres neste Mês da Mulher, Bota acredita que a conversa deve ir além do cuidado em si e abranger os sistemas financeiros que o sustentam.
Bota conclui: 'A mensagem deste Mês da Mulher não é que as mulheres devem se afastar de suas famílias. É que precisamos de sistemas regulamentados e estruturados que permitam uma ajuda sustentável. A filha que garante sua própria base financeira pode continuar a desempenhar um papel fundamental em sua família, mostrando à próxima geração que cuidado e autoproteção financeira podem coexistir.'

