O psicólogo evolucionista Adriano Lemeira conduziu um estudo para testar duas hipóteses sobre o volume do repertório vocal dos primatas. O resultado da análise mostrou que o número de animais no grupo não influencia a riqueza do seu repertório vocal.
A análise abrangeu os repertórios vocais de 77 espécies de primatas e demonstrou que seu estoque vocal depende de vários fatores: onde a espécie vive predominantemente (no chão ou nas árvores), sua massa corporal e a interação dessas duas características.
Foi estabelecido que em primatas que vivem em árvores, o volume do repertório vocal aumentava proporcionalmente ao aumento do seu tamanho corporal. Em outras espécies, a dependência do tamanho corporal não existia, mas o fator determinante era o ambiente de habitação: o estilo de vida terrestre estava associado a um repertório menor do que se supunha, e o estilo de vida misto — a um maior.
Anteriormente, segundo a hipótese do cérebro social, acreditava-se que o tamanho do cérebro de uma espécie correlaciona-se com sua complexidade social, ou seja, com o tamanho do grupo. Essa ligação foi observada em primatas, alguns cetáceos, aves e mamíferos predadores. Em 2005, cientistas demonstraram que em 42 espécies de primatas o tamanho do grupo está relacionado ao repertório vocal: quanto maior o grupo, mais variados são os sons emitidos pela espécie. Isso era explicado pela necessidade de comunicação mais precisa para manter laços sociais complexos, o que, por sua vez, lembrava o processo de surgimento da fala humana.
No entanto, revisões modernas de dicionários de muitas espécies de primatas mostram que a ligação direta com o tamanho do grupo nem sempre é óbvia. Além disso, existem outros fatores potenciais que influenciam o tamanho do repertório vocal, como a constituição física do animal e seu ambiente de habitação.
Adriano Lemeira, da Universidade de Warwick, analisou os repertórios vocais de 77 espécies de primatas, incluindo o ser humano, estudando sua relação com o tamanho do grupo, cérebro, massa corporal e tipo de estilo de vida (arbóreo, terrestre ou misto), levando em consideração as relações filogenéticas entre as espécies.
Durante o estudo, foi estabelecido que nem o tamanho do grupo nem o tamanho do cérebro eram preditores do tamanho do repertório vocal (p > 0,05). Em vez disso, o ambiente de habitação desempenhou um papel decisivo. Em espécies arbóreas, o ambiente de habitação interagiu com o tamanho corporal: cada duplicação da massa corporal aumentava o repertório em aproximadamente 28% (p = 0,027), enquanto em espécies terrestres e mistas tal dependência não foi observada.
O ambiente de habitação também teve um impacto independente: os repertórios das espécies com estilo de vida misto foram 17% maiores do que o previsto pelo modelo baseado apenas no tamanho do grupo, cérebro e corpo. Os repertórios das espécies arbóreas excederam a previsão em 8%, e os terrestres ficaram aquém em 6%.
Na opinião de Lemeira, os dados obtidos refutam a ideia de que a diversidade vocal dos primatas é determinada pela complexidade social. Os principais fatores parecem ser parâmetros físicos — tamanho corporal e ambiente. O pesquisador sugeriu que o surgimento da linguagem no ser humano poderia ter sido consequência do estilo de vida arbóreo de nossos ancestrais, e não um resultado da estrutura social.
Anteriormente, antropólogos notaram que os chimpanzés do Vale do Issa, que vivem em um ambiente mosaico, onde florestas densas estão adjacentes a áreas abertas, frequentemente se movem sobre dois membros, mas o fazem nos galhos, e não no chão. Essa observação permitiu aos cientistas supor que o desenvolvimento da bipedismo nos ancestrais do ser humano moderno não esteve diretamente ligado à transição para um estilo de vida terrestre.