Especialistas chineses em ciência dos materiais desenvolveram um tecido vivo funcional criado a partir de micélio. Este material possui propriedades de autorregeneração e autolimpeza. Graças ao uso de leveduras geneticamente modificadas, o tecido pode ser tingido em várias cores, e hifas de outro fungo fornecem proteção contra radiação ultravioleta. Estes resultados foram relatados na revista Science Advances.
Desenvolvimento de materiais de micélio
Embora os materiais de micélio já sejam usados na última década para criar móveis, embalagens, calçados, roupas e até caixões ecológicos, o micélio é geralmente submetido a tratamento térmico ou secagem prolongada. O resultado é um material semelhante à pele, que embora seja biodegradável, é significativamente menos resistente. Embora os materiais e dispositivos de micélio vivo sejam mais difíceis de produzir e menos comuns, esta área de pesquisa não é algo totalmente novo.
Criação do tecido programável
Sob a liderança de Chao Zhun, do Instituto de Tecnologia Avançada de Shenzhen, cientistas chineses de materiais combinaram duas abordagens diferentes para criar um tecido programável vestível a partir de micélio vivo. Os autores primeiro cultivaram grânulos de micélio do fungo Cordyceps militaris e depois formaram finas lâminas a partir deles. Inicialmente, o material era muito frágil, então glicerol foi adicionado à composição antes do laminamento. Após testar várias composições, a equipe optou por uma concentração de glicerol de dez por cento em massa, o que aumentou a plasticidade em cerca de uma vez e meia, sem reduzir praticamente a resistência.
Funcionalidade do material vivo
Como as células do fungo na fina lâmina permaneceram viáveis, o tecido manteve o potencial para crescimento adicional. Ao aplicar meio nutritivo em certas áreas, novos hifas aéreos começaram a se desenvolver. Além disso, o tecido tem capacidade de reparo: buracos podem ser fechados adicionando grânulos frescos de micélio, que após secarem fixam-se firmemente ao material original através de ligações de hidrogênio. Pequenos danos são capazes de cicatrizar sozinhos, bastando pulverizar levemente o material com água. Os autores também observaram que os hifas aéreos formados conferem propriedades hidrofóbicas à superfície, fazendo com que as gotas de água formem esferas e escorram facilmente, levando consigo a poluição.
Coloração e proteção UV
Para mudar de cor, os pesquisadores aplicaram leveduras geneticamente modificadas Saccharomyces cerevisiae. Estas leveduras aderem à superfície do micélio e produzem pigmentos de vários tons. Diferentes cepas de leveduras sintetizam pigmentos vermelhos, azuis, violetas ou laranjas, permitindo que o tecido assuma a cor desejada sem o uso de corantes tradicionais. A proteção contra ultravioleta foi fornecida por outro fungo, Aspergillus niger. Suas hifas, ricas em melanina, formam uma camada viva adicional na superfície do tecido que absorve eficientemente a radiação ultravioleta.
Aplicação e economia
Os pesquisadores fizeram um vestido com as lâminas obtidas, cujas peças eram conectadas sem usar fios ou cola; após serem umedecidas, elas se fundiram firmemente graças às ligações de hidrogênio. O vestido, tingido por leveduras e sem elementos metálicos ou plásticos, é totalmente biodegradável e se decompõe completamente na compostagem em apenas quarenta dias. Os autores avaliaram o potencial de implementação industrial do material. Segundo suas projeções, com a produção anual de milhares de toneladas de tecido, o custo será de cerca de 13 dólares por metro quadrado, sendo que quase 40% dos custos corresponderão ao meio nutritivo para o cultivo dos fungos. Os pesquisadores acreditam que este indicador pode ser reduzido substituindo parte dos ingredientes por resíduos agrícolas baratos.



