Pesquisadores observaram um padrão comportamental incomum ao longo de mais de duas décadas entre duas espécies de cetáceos: as orcas (Orcinus orca) tendem a evitar encontros com as baleias-piloto-de-barbatana-longa (Globicephala melas), mesmo sem haver registros de ataques diretos entre elas.
Estudo aponta influência sonora
Esta descoberta foi examinada por cientistas de diversas instituições, incluindo uma equipe liderada pela bióloga marinha Anna Selbmann, que trabalha no Centro de Ciência e Aprendizado de Sudurnes, localizado na Islândia. Um estudo divulgado em janeiro deste ano na revista Science Reports sugeriu que os ruídos produzidos pelas baleias-piloto são suficientes para modificar o comportamento das orcas.
Os dados foram compilados em áreas da Islândia e em outros locais onde ambas as espécies foram avistadas. A razão pela qual um predador geralmente dominante recua diante de um animal de porte menor ainda carece de uma explicação final, embora os pesquisadores tenham formulado várias hipóteses.
Histórico de observações
A interação entre as duas espécies começou a despertar interesse científico após observações iniciadas em 2012. Nessa época, notou-se que os sons de orcas reproduzidos no ambiente natural atraíam as baleias-piloto, sinalizando uma forte reação aos estímulos acústicos de outro cetáceo.
Dois anos depois, uma análise realizada por cientistas vinculados ao Conselho Nacional de Pesquisa da Espanha revelou um dado surpreendente. Ao revisar encontros ocorridos entre 2004 e aquele período, a equipe verificou que as orcas se afastavam da região assim que as baleias-piloto surgiam.
Análise detalhada do comportamento
Este fenômeno gerou curiosidade entre os especialistas, visto que não havia uma justificativa ecológica clara para tal distanciamento. As espécies não compartilhavam a mesma dieta, não havia relatos de caça mútua, e as baleias-piloto eram significativamente menores que as orcas.
Uma teoria levantada pelos cientistas era a possibilidade de conflitos passados terem estabelecido uma resposta defensiva transmitida através das gerações, contudo, essa visão não possui provas robustas para confirmação.
Para investigar o comportamento com maior rigor, os pesquisadores analisaram informações coletadas entre 2007 e 2020 em seis localidades da Islândia, utilizando dados de plataformas científicas e passeios de observação de baleias.
Os resultados demonstraram que, em 24 encontros registrados, as orcas evitavam o contato em 68% das vezes, afastando-se antes da aproximação das baleias-piloto. Nos restantes 28% dos casos, as duas espécies envolviam-se em perseguições rápidas, alcançando velocidades de até 13,5 nós, o que equivale a cerca de 25 km/h.
Resposta direta aos chamados
Posteriormente, os cientistas tentaram determinar se a reação das orcas era motivada pela presença física das baleias-piloto ou por outros elementos associados aos encontros. Para isso, eles reproduziram gravações dos sons desses animais para orcas que estavam sendo monitoradas por equipamentos de rastreamento.
A resposta obtida indicou uma reação direta aos chamados das baleias-piloto. As orcas alteraram sua formação em grupo, modificaram seus padrões vocais, mudaram de direção e aumentaram a velocidade de locomoção.
Segundo os pesquisadores, os sinais sonoros desempenham um papel crucial na interação entre as espécies. A equipe responsável pelo estudo afirmou que as respostas acústicas funcionam em ambos os sentidos: as baleias-piloto se aproximam ao escutar orcas, enquanto estas exibem comportamento de esquiva diante dos chamados das primeiras.
Hipóteses finais sobre o receio
Ainda não há um consenso definitivo sobre o motivo desse temor. Entre as explicações consideradas está o comportamento conhecido como «mobbing», no qual animais menores se unem para perturbar ou afastar um predador potencial. Este mecanismo é comum em aves, mas pode ocorrer em outros grupos.
Outras possibilidades permanecem sob análise, como a competição indireta por recursos ou a proteção de filhotes. Apesar da falta de uma conclusão final, este caso ilustra que o tamanho e a posição na cadeia alimentar nem sempre definem quem dita a dinâmica de uma interação entre animais selvagens.



