Pesquisadores descobriram que grupos que disseminam informações falsas deixaram de simplesmente negar conhecimentos científicos e passaram a usar estratégias mais sofisticadas para dar legitimidade às suas alegações.
Análise do fenômeno no Brasil
Este fenômeno foi estudado durante o 78º Encontro Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), realizado em Niterói (Rio de Janeiro) em julho de 2026. A pesquisa foi conduzida por membros do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia das Comunicações Científicas e Tecnológicas (INCT-CPCT).
De acordo com os resultados, o conteúdo relacionado a sentimentos antivacina, teorias da conspiração e falsas contradições utiliza referências científicas, especialistas alternativos e mecanismos das plataformas digitais para conquistar confiança, expandir o alcance e obter lucro financeiro.
A ciência como ferramenta de persuasão
Ao estudar as atividades de grupos antivacina no WhatsApp durante a pandemia de COVID-19, os pesquisadores notaram que muitas mensagens contraditórias aos imunizantes apresentavam artigos científicos como suposta prova de seus teses. Parte dessas publicações foi retirada de periódicos de baixa qualidade, enquanto outras usaram cientistas reconhecidos, mas os tiraram de contexto para apoiar conclusões falsas.
Marcelo Alves dos Santos Júnior, professor da PUC-Rio e um dos coordenadores da pesquisa, explicou em mesa redonda sobre a economia da desinformação científica na SBPC que essa prática exige novos conceitos para entender o comportamento desses grupos. Ele observou: «Antes partíamos da premissa de que pessoas contra vacinas eram negacionistas, mas estabelecemos que os conceitos de negação ou anticientificismo são insuficientes para abranger esse fenômeno».
Na visão do cientista, a estratégia moderna não é necessariamente negar a ciência, mas sim selecionar partes do conhecimento científico e reconstruí-las para defender certas visões de mundo. Essa apropriação do discurso científico transforma elementos típicos da produção de conhecimento, como debates e incerteza, em ferramentas para induzir o público ao erro. A dúvida, que faz parte do processo científico, começa a ser usada como mecanismo para enfraquecer consensos e criar disputas artificiais.
Exploração de contradições
Tayane Moreira de Oliveira, professora da UFF e membro do INCT-CPCT, afirmou em reunião que grupos organizados utilizam contradições para fabricar discussões sem base científica e promover interesses específicos. Ela enfatizou: «Uma das estratégias usadas hoje para disseminar desinformação científica é o uso de elementos inerentes à própria natureza científica, como as contradições».
Segundo a pesquisadora, a disseminação de tais narrativas não implica necessariamente uma perda de confiança da população brasileira na ciência. O problema está mais ligado à luta por autoridade e legitimidade, o espaço ocupado por pessoas que se apresentam como especialistas sem o devido suporte.
Descobertas falsas e comércio
Durante os debates, foi apresentado o exemplo do chamado «síndrome pós-spike» — uma condição supostamente atribuída às vacinas de mRNA contra a COVID-19. De acordo com a investigação apresentada pelo jornalista Bernardo Costa do Estadão Verifica, esse narrativo foi criado por médicos antivacina. Ele alegava, sem qualquer evidência, que os imunizantes forçariam o organismo a produzir proteína spike infinitamente.
Essa alegação foi utilizada por médicos e grupos antivacina para promover consultas pagas e cursos. Os envolvidos até publicaram um relato de caso em revista científica para reforçar a aparência de fundamentação da hipótese, mas o estudo foi posteriormente retirado pela publicação devido à falta de provas. Costa explicou que a aparência científica do narrativo contribuiu para convencer pessoas não familiarizadas com o método científico. Ele observou: «Como parece uma pesquisa científica, a população, especialmente a menos instruída, pensa que esses médicos descobriram uma nova doença causada pelas vacinas».
Na opinião do jornalista, este caso demonstrou como a informação falsa pode se tornar fonte de renda. Eram oferecidas consultas de alto custo e cursos online prometendo revelar a «verdade oculta» sobre os imunizantes.
O papel das plataformas digitais
Para os pesquisadores, o modelo econômico das plataformas digitais favorece a disseminação de desinformação científica. A mudança no modelo de publicidade transferiu parte do controle sobre a distribuição de anúncios para sistemas automatizados gerenciados por grandes empresas de tecnologia.
Marcelo Alves dos Santos Júnior avaliou que esse modelo deixou de priorizar a reputação dos veículos de notícias e passou a considerar primariamente o comportamento do usuário, utilizando publicidade segmentada através de mecanismos de rastreamento. Segundo ele, essa lógica cria vantagens para o conteúdo de baixa qualidade, visto que materiais sensacionalistas ou enganosos podem alcançar públicos-alvo com menor custo.
Outro problema apontado nos debates foi o chamado «efeito zero clique», relacionado ao desenvolvimento da inteligência artificial generativa em mecanismos de busca. A exibição de resumos diretamente nas páginas de busca reduz o acesso aos sites de notícias originais e coloca em risco modelos baseados em audiência. O pesquisador afirmou que essa mudança ameaça ainda mais a sustentabilidade do jornalismo profissional, enquanto as redes de desinformação podem ocupar o espaço digital de forma mais rápida e barata.
Nina Fernandes dos Santos, professora da UFBA, ressaltou que a implementação de sistemas baseados em recomendações algorítmicas intensificou o poder das plataformas sobre a disseminação de informações. Em sua opinião, o desafio reside em criar novas formas de uso do ambiente digital, propondo alternativas ao modelo que atualmente domina as grandes plataformas.



