Durante os combates urbanos na capital do Sudão, Cartum, em 2023, uma alcateia inteira de leões mantidos foi exposta ao fogo cruzado de concreto. Eles estavam confinados em um local de detenção enquanto o fogo de artilharia destruía os arredores, ficando sem comida ou cuidados humanos regulares.
Operação de Resgate FOUR PAWS
A organização global de proteção animal FOUR PAWS liderou uma operação logística em grande escala para remover 11 predadores do conflito militar ativo. No entanto, a extração da zona de combate foi apenas o começo. Seguiu-se um programa de dois anos de reabilitação médica e psicológica, focado na recuperação dos corpos esgotados pela fome e das mentes traumatizadas pelo fogo de artilharia.
Condição dos Leões e Avaliação de Riscos
Na avaliação inicial dos sobreviventes na zona de combate ativa em 2023, o veterinário da FOUR PAWS e o líder da missão, Dr. Amir Khalil, descobriu um grave descuido. A integridade estrutural do local havia sido destruída pelos projéteis. Os leões estavam extremamente magros, seus corpos consumindo sua própria massa muscular apenas para sobreviver sob cerco.
O Dr. Khalil observou que o nível de cuidado e a disponibilidade de comida eram piores do que ele esperava. A evacuação exigiu manobras administrativas e logísticas extremamente complexas. O comboio de resgate deveria tirar os animais da capital, superando postos de controle militares e perigo constante, para evitar a morte da alcateia devido à violência crescente.
Transporte e Chegada à África do Sul
A equipe FOUR PAWS Rescue and Response interveio para encontrar o mais rápido possível um local adequado para os animais. Após uma missão longa e perigosa, que incluiu pontos temporários no Sudão, os 11 leões foram carregados em um voo de carga, removendo-os completamente do fogo cruzado urbano. Eles pousaram com segurança no Santuário de Grandes Felinos LIONSROCK, na África do Sul.
O impacto físico do confinamento no Sudão foi extenso. Os leões chegaram feridos, fracos e muito suscetíveis a infecções. A equipe veterinária do LIONSROCK começou a triagem, descobrindo feridas profundas escondidas na sujeira e na pelagem emaranhada. A consultora de comportamento Jessica Buckhart relatou que eles estavam cobertos de cortes e cicatrizes por todo o corpo, focinho e coxas devido ao longo tempo em condições apertadas.
Programa de Reabilitação no Santuário
A administração do santuário colocou intencionalmente a alcateia em um Bloco de Cuidados Especial (SCU), composto por quatro recintos conectados. Este design especializado limitava seus movimentos, o que era crucial para os animais que não tinham massa muscular suficiente para longas caminhadas, ao mesmo tempo que permitia à equipe controlar sua dieta diária e realizar tratamentos médicos com segurança.
A reabilitação durou 24 meses. Os cuidadores monitoraram cuidadosamente a dieta, introduzindo gradualmente proteínas complexas para evitar a síndrome de realimentação — uma reação metabólica fatal que ocorre quando animais famintos comem muito rapidamente. Os leões recuperaram a massa muscular perdida e curaram os cortes.
Transferência para Casa Permanente
À medida que os leões cresceram fora do SCU, eles precisaram ser transferidos para um recinto permanente de 6 hectares. Mover 11 felinos adultos geralmente requer fortes tranquilizantes, mas a administração desses medicamentos acarretava o risco de regressão psicológica grave. Em vez disso, a equipe dedicou seis semanas à implementação bem-sucedida de uma estratégia de modificação comportamental conhecida como treinamento em gaiola, baseado em reforço positivo.
O treinamento em gaiola exigiu uma compreensão profunda das interações sociais e traumas individuais da alcateia. Alguns leões, como Alfie e Mergi, necessitavam de silêncio absoluto e paciência extrema para se aproximar das gaiolas metálicas, associando o confinamento aos bombardeios em Cartum. A consultora de comportamento Evianne Dubois observou que ela teve que trabalhar com '11 personalidades diferentes', exigindo a alteração do plano de treinamento para cada indivíduo.
No dia da mudança, a preparação comportamental intensiva compensou-se. O processo de carregamento dependeu inteiramente do quanto os animais confiavam nos cuidadores para entrar voluntariamente. A equipe moveu metodicamente os veículos, carregando-os em lotes. A equipe veterinária confirmou que, graças a seis semanas de treinamento direcionado em gaiola, toda a mudança foi realizada sem o uso de anestesia.
Novo Lar e Adaptação
Os caminhões levaram as gaiolas carregadas através do santuário até os portões do novo lar. A liberação ocorreu sem problemas. O amplo espaço permanente acomoda a dinâmica social estabelecida da alcateia, separando os jovens energéticos dos mais velhos. A gerente do santuário, Hildegard Pirker, explicou que o maior recinto, com cerca de 6 hectares, é dividido ao meio por uma cerca: sete leões jovens ocupam um lado, e o outro lado é destinado ao grupo sênior.
Para os membros mais velhos da alcateia, a grama aberta inicialmente representou uma incerteza assustadora. A cura de suas feridas psicológicas levou muito mais tempo do que a cicatrização dos danos físicos. Graças ao projeto cuidadoso do ambiente e à intervenção paciente, os leões mais velhos acabaram por entender que não estavam mais ameaçados. Pirker observou que 'Mudi estava muito inseguro por tudo o que passou. Portanto, primeiro precisávamos fazê-lo se acostumar ao seu ambiente para que ele não tivesse medo e começasse a se sentir mais confiante e corajoso.'
Os leões do Sudão encontraram oficialmente seu lar permanente nas terras altas da África do Sul.

