As recém-inauguradas David Geffen Galleries no LACMA representam o ápice de mais de dez anos de esforço conjunto envolvendo a cidade, o condado, o público, a equipe de arquitetura, engenharia, a construtora principal e diversos especialistas. Este projeto ambicioso e visionário enfrentou um escrutínio intenso, recebendo tanto elogios pela sua execução minuciosa e ousadia arquitetônica quanto críticas relacionadas à sua dimensão, custo, uso de concreto e complexidade estrutural em uma área sujeita a terremotos em Los Angeles.
Perspectiva da Clark Construction
A Clark Construction, atuando como construtora principal, ajudou a materializar o projeto concebido por Peter Zumthor. Carlos Gonzalez, presidente de grupo na Clark Construction, supervisionou a obra e compartilhou com o ArchDaily os obstáculos técnicos, logísticos e materiais inerentes ao edifício. Entre os desafios citados estão a estrutura monolítica de concreto, o extenso sistema de pós-tensão, os 56 isoladores sísmicos que permitem o movimento durante tremores, as condições imprevisíveis do solo próximo aos La Brea Tar Pits, a fabricação de montantes de bronze maciço e a integração de sistemas mecânicos dentro da estrutura de laje dupla de concreto.
Construção como Autoria Arquitetônica
A entrevista revela que o projeto transcende a mera complexidade de engenharia, configurando-se como uma manifestação da construção como forma de autoria arquitetônica. Gonzalez discute o desenvolvimento de centenas de protótipos, a necessidade de precisão extrema nas formas de concreto, a sensibilidade material do bronze e do concreto aparente, e o delicado equilíbrio entre a perfeição técnica e a autenticidade artesanal exigida por Zumthor. Dessa forma, as David Geffen Galleries são vistas não só como um museu finalizado, mas como o resultado de um longo ciclo de testes, ajustes, colaboração e profundo conhecimento técnico de construção.
Desafios Técnicos Inéditos
Ao ser questionado sobre a dificuldade do projeto, Carlos Gonzalez afirmou que ele não se assemelhava a nada construído anteriormente pela empresa, diferentemente de hospitais, instalações de segurança ou edifícios altos, onde geralmente se adapta modelos existentes. No LACMA, foi necessário desenvolver e aprender novas técnicas durante o processo. Devido à travessia da Wilshire Boulevard, foi preciso combinar tecnologias de construção de pontes rodoviárias com a construção civil, com balanços que se projetam consideravelmente das paredes. O vidro emprega amortecedores, utilizando o isolador sísmico como elemento técnico aplicado às janelas para permitir seu movimento independente da estrutura.
Controle Climático e Estrutural
Um aspecto singular é que toda a estrutura é exposta. Internamente, não há forros ocultos, mas o edifício mantém um controle climático rigoroso para preservar as obras de arte. Todos os sistemas de ar-condicionado estão disfarçados na própria estrutura de concreto, com o ar entrando por fendas estreitas e estrategicamente localizadas, garantindo controle de temperatura e umidade sem ser audível ou perceptível.
Sistema de Pós-Tensão Exigente
Gonzalez explicou que o volume de pós-tensão é superior ao usual, pois, em vez de cabos seguindo uma única direção como em estruturas comuns, eles se distribuem em múltiplas direções. A ausência de pilares obriga o apoio por paredes internas, enquanto as lajes se projetam em balanços de 18 a 24 metros, dependendo da tensão gerada pelos cabos. A complexidade aumentou porque cada laje era formada por duas superfícies e uma viga, em duplicação (laje de exposição e laje de cobertura). A precisão na instalação e tensionamento era crucial, visto que painéis de vidro seriam instalados entre essas lajes de concreto. A variação do módulo de elasticidade do concreto, material natural, impõe riscos de deformação, exigindo o encaixe de um painel de vidro de 6 metros de altura entre duas superfícies de concreto distintas.
Solução do Sistema de Vidro
A equipe de engenharia estrutural da SOM, liderada por Eric Long e Mark Sarkisian, foi fundamental no projeto, previsão e ajuste da estrutura. Eles precisaram tensionar os cabos individualmente para definir a força exata requerida em cada um. Paralelamente, foi necessário um sistema de envidraçamento com tolerância adequada. Na base, os montantes de bronze maciço extrudado ficam nivelados ao chão para permitir microajustes. No topo, os montantes possuem um espaçamento em relação à laje de concreto, preenchido por uma junta de dilatação de borracha. O topo de cada montante de vidro é fixado a um isolador sísmico vertical, funcionando como amortecedor, permitindo que os montantes de bronze e as superfícies de concreto se movam separadamente, tanto após a construção quanto durante um sismo, prevenindo que o concreto danifique o vidro.
Exigências de Peter Zumthor
Sobre o estilo de Peter Zumthor, Gonzalez descreveu-o como extremamente exigente, com padrões altíssimos focados em precisão, autenticidade e respeito ao processo de manipulação do espaço, luz e sombra. A equipe teve a chance de visitar seu ateliê na Suíça, onde ele inicia projetos construindo maquetes extensas, por vezes de 12 a 15 metros, posicionando luminárias e usando um relógio solar para testar relações espaciais. Esse método gera desafios construtivos, como o espaçamento entre concreto e bronze, que deve ser mantido dentro de limites para preservar a percepção estética.
Autenticidade Material e Concreto
Zumthor insistia que o bronze deveria ser maciço, rejeitando alternativas como alumínio ou aço revestido, pois acreditava que o toque revelaria a diferença. Isso forçou a contratação de uma empresa de extrusão com maquinário robusto para criar perfis exclusivos. O concreto, com suas veias e texturas, também era aceito integralmente, incluindo as marcas de precisas e estreitas juntas das formas. A exigência de autenticidade impediu correções posteriores, forçando um planejamento minucioso. Houve um grande investimento na preparação antes da concretagem: dezenas de tipos de compensado foram testados para as formas, e cada concretagem de teste era realizada até a escolha correta de Peter. As formas usavam compensado duplo, quase como marcenaria fina, e os painéis triangulares eram fabricados sob encomenda. A proteção das formas era rigorosa, com limpeza de botas e painéis antes de cada aplicação de concreto.
Protótipos e Aprovações Regulatórias
Os protótipos foram cruciais, com estimativas de cerca de 100 protótipos de concreto e centenas no total, cobrindo múltiplas opções para quase todas as superfícies. A contribuição da Clark Construction era traduzir a visão de Peter ou da SOM em soluções executáveis no canteiro de obras. Em relação às aprovações, os órgãos reguladores lidaram com algo inédito, sendo o Condado de Los Angeles um parceiro valioso, designando profissionais para análises. O processo foi longo e repleto de questionamentos, especialmente sobre cálculos estruturais e isolamento sísmico.
Estrutura Monolítica e Fundações
O edifício se apoia em 56 isoladores sísmicos, reduzindo as forças durante um terremoto e possibilitando que a estrutura funcione como uma massa sólida sem juntas de dilatação na ponte ou laje. A única fresta existe no nível do solo, permitindo o movimento independente em relação à terra. Embora a estrutura final seja monolítica, ela foi concretada em fases, com concretagens chegando a 450 a 530 metros cúbicos. O desafio era garantir que as emendas entre concretagens adjacentes fossem invisíveis, exigindo tratamento cuidadoso das bordas e coordenação com a concreteira para manter cor e textura uniformes.
Impacto do Terreno
O fator que mais impactou o cronograma foram as fundações. Apesar das previsões, a realidade superou as expectativas devido à localização na região dos La Brea Tar Pits, onde o piche aflora. Um sistema de fundação foi projetado e testado, mas em certas áreas, o piche interagiu com o concreto fresco das estacas, alterando sua composição química e comprometendo sua resistência, o que foi detectado pelo controle de qualidade.


