Especialistas recomendam enfaticamente à África do Sul expandir seu círculo de parceiros comerciais para reduzir a dependência dos Estados Unidos. Este apelo surgiu após os EUA imporem novas tarifas sob a Seção 301 de sua Lei Comercial de 1974 contra vários países, acusando-os de não cumprir adequadamente as proibições de importação produzida por trabalho forçado.
Consequências da imposição das tarifas
Como resultado dessas medidas, a África do Sul enfrentou uma tarifa de 12,5% sobre bens exportados, pois foi classificada na categoria tarifária superior junto com grandes economias como China, Japão e Coreia do Sul. O Professor Adrian Saville, especialista em economia, finanças e estratégia da Universidade de Pretória, observou que a África do Sul está em uma posição vulnerável, visto que os EUA compram cerca de 7% de todo o volume de exportação sul-africano.
Problemas de comércio e regulamentação
Saville enfatizou que, com um comprador tão grande quanto os EUA, um país pequeno não tem poder para ditar preços. Ele também alertou que os minerais não são uma ferramenta de pressão, já que os platinoídeos e minerais críticos já estão isentos de restrições. Segundo Saville, a África do Sul é obrigada a adotar e garantir a implementação da lei que proíbe a importação produzida por trabalho forçado, o que Pretória já declarou ter a intenção de fazer.
Apesar disso, espera-se um aumento de obstáculos burocráticos, como filas e formulários, entre os vizinhos que dependem da África do Sul para uma parte significativa de suas receitas governamentais. Saville considera improvável que a África em geral comece a comprar produtos da África do Sul, apontando que o volume total de comércio entre países africanos no ano passado foi de cerca de US$ 210 bilhões, e os mercados locais não estão dispostos a pagar os preços americanos por frutas cítricas, vinho, frutos do mar e catamarãs.
Instituições internacionais e geopolítica
Os especialistas chamaram a atenção para a necessidade de monitorar a Lei de Crescimento e Oportunidades da África (AGOA), cujo prazo expira em 31 de dezembro de 2026, já que o status da África do Sul nela está sendo contestado no Senado. Saville comparou a situação ao modo como os EUA atuam como juiz, júri e executor, observando que a Organização Mundial do Comércio (OMC) existe para prevenir tais ações. Ele mencionou que a OMC havia reconhecido anteriormente essa tática como ilegal no caso do uso pelos EUA contra a China em 2020, mas o recurso subsequente estagnou devido à ausência de juízes no Tribunal de Apelação desde 2019.
Além disso, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) também não pode ajudar, pois não tem poder de multar, e os EUA nunca assinaram o tratado sobre trabalho forçado. A Dra. Nolutando Pungula, especialista em relações internacionais, afirmou que a política comercial está sendo usada estrategicamente pelos EUA para promover sua agenda geopolítica, e a África do Sul não está escapando dessa pressão. Ela observou que, apesar das tensões nas relações entre Pretória e Washington, ambas as partes permanecem comprometidas com o diálogo, e manter o acesso preferencial beneficia ambas as partes.
Apelos à reestruturação econômica
Pungula também salientou que a aplicação unilateral de tarifas é um sério obstáculo para instituições multilaterais, como a OMC e a OIT, minando os mecanismos de resolução de disputas. Ela indicou que a crescente divergência entre a posição da África do Sul e as preferências de Washington — incluindo questões sobre a Corte Internacional de Justiça, a expansão do BRICS, exercícios militares conjuntos com Rússia e China e neutralidade na guerra da Ucrânia — sublinha a importância de abandonar a dependência unilateral.
A Dra. Sanelé Gumede, professora na Escola de Contabilidade, Economia e Finanças da Universidade do KwaZulu-Natal, pediu aos políticos que considerassem a reestruturação da economia sul-africana para aproveitar o crescimento de outros países em desenvolvimento. Ele observou que a economia do país é limitada pelo fato de negociar principalmente com países de língua inglesa, e não com outros países em desenvolvimento. Gumede insiste que a África do Sul precisa de sua própria estratégia de desenvolvimento para a África, especialmente para países que não falam inglês, e também para países da Europa Oriental.
Ele aconselhou as empresas a procurar novos mercados, utilizando acordos comerciais bilaterais firmados pelo governo, e a aplicar plataformas online. Gumede também apontou que a África do Sul não está utilizando plenamente seu status BRICS+, observando que receber empréstimos do Banco Mundial em vez de usar o Banco BRICS demonstra falta de intenção de ser totalmente independente dos EUA. Ele concluiu que o baixo ritmo de crescimento da África do Sul (1,1%) reflete a forte dependência de sua estrutura econômica de grandes economias desenvolvidas, o que exige mudanças estruturais, incluindo participação ativa na Zona de Comércio Livre Continental Africana (AfCFTA) e adesão consciente ao BRICS.



