A recente repatriação de milhares de fósseis inclui o crustáceo Cicero spectabilis, que ajuda a estudar a história da evolução da vida e a separação dos continentes.
História Geológica da Região
Há cerca de 120 milhões de anos, o território atual do Ceará, na bacia do Araripe, tinha uma aparência completamente diferente. O clima era quente e úmido, e pterossauros voavam sobre inúmeros lagos. Naquela época, os seres humanos ainda não existiam, e as massas terrestres faziam parte do supercontinente Gondwana. Durante o período Gondwana, o mar começou a separar terras que mais tarde se tornariam América do Sul e África, e águas salgadas inundaram os lagos do Ceará.
Descoberta Científica e Significado
A paleontologia, ciência que estuda vestígios de animais antigos, descobriu um novo achado importante: um crustáceo Cicero spectabilis perfeitamente preservado. Trata-se de um isópode, um animal invertebrado que vivia no fundo dos lagos da bacia do Araripe. Este é o primeiro caso de descoberta de um isópode livre dessa época em terras que faziam parte de Gondwana. Um parente mais antigo desta espécie era conhecido na distante Laurásia, que abrangia a América do Norte, Europa e Ásia.
Migração e Explicação Científica
Esta descoberta permite supor que esses animais migraram ao longo de milhões de anos através do Mar Tethys, que separava Gondwana e Laurásia. Daniel Lima, professor da Universidade Regional de Cariri (Urca) e autor principal do estudo publicado na revista Nature Communications, explicou que o achado não apenas registra a espécie de isópode, mas também carrega toda a história evolutiva para a compreensão da distribuição do grupo de isópodes.
Homenagem e Singularidade da Amostra
Ao descrever novas espécies, os pesquisadores frequentemente escolhem pessoas, instituições ou locais para homenagear. Allison Pinheiro, diretor do Museu de Paleontologia Plácido Sidade Nuvens (MPPCN) da Urca, relatou que o nome Cicero spectabilis foi dado em homenagem a Padre Cícero, uma figura importante e carismática para os moradores do Nordeste brasileiro. O prefixo «spectabilis» reflete a natureza impressionante do fóssil, visto que este organismo é extremamente raro nos registros paleontológicos e está preservado em um estado único.
Problema de Preservação do Patrimônio
A região do Cariri, parte da bacia do Araripe, é rica em fósseis de qualidade excepcional. As mudanças no planeta transformaram os lagos em espécie de cápsulas do tempo. No entanto, devido a décadas de falta de supervisão e subestimação do patrimônio fóssil, toneladas de fósseis brasileiros acabaram em museus e coleções ao redor do mundo. No Brasil, todos os fósseis são propriedade da União e não podem ser vendidos, e os holótipos usados para descrever espécies não podem deixar o país.
Movimento pela Repatriação
Desde 2020, cientistas brasileiros lideram um movimento global que condena as relações neocoloniais neste campo e exige o retorno dos fósseis brasileiros. Este movimento alcançou sucessos significativos, incluindo o retorno do dinossauro Ubirajara jubatus em 2023. Cicero spectabilis é um dos últimos exemplos desses feitos. A amostra estava guardada no Illinois Center for Paleontology, nos EUA, mas nunca foi devidamente estudada e descrita.
Cooperação Internacional e Futuro
O retorno começou depois que Lima soube de um estudante sobre a existência do isópode em Cariri em uma instituição americana. Como especialista em crustáceos, ele decidiu investigar o assunto. O resultado foi uma colaboração acadêmica e diplomática. Pesquisadores de instituições estrangeiras participaram do estudo junto com colegas brasileiros, e o fóssil será devolvido ao MPPCN, onde poderá ser visitado, assim como o Ubirajara, apelidado de «Mona Lisa» do museu.
Expansão da Coleção do Museu
O museu também receberá em breve mais de dez espécies de borboletas que viveram na bacia do Araripe há cerca de 120 milhões de anos. Estas amostras estavam no Museu de História Natural Estadual de Karlsruhe, Alemanha, onde também estavam o Ubirajara e outros fósseis brasileiros. Os cientistas observam que, graças às campanhas de conscientização e repatriação, muitas instituições estrangeiras estão mais dispostas a devolver fósseis mantidos ilegalmente.
Nova Abordagem à Troca Científica
O diretor do MPPCN, Pinheiro, mencionou o recebimento de cinco caixas com mais de 70 fósseis da Suíça e duas toneladas da França, além de fósseis do Reino Unido e Irlanda do Norte. Ele enfatizou que as negociações se tornaram mais políticas e governamentais do que puramente científicas. Em Ceará, o sucesso do Ubirajara e do MPPCN contribui para o desenvolvimento do turismo e da cultura regionais, atraindo investimentos políticos em pesquisa científica.
Digitalização e Novos Nomes
O museu recebeu recentemente um microtomógrafo de última geração, que permite criar cópias digitais tridimensionais de fósseis. Este formato permite que pesquisadores de todo o mundo analisem os detalhes da amostra sem a necessidade de sua presença física. Pinheiro explica que agora é possível propor uma alternativa: «Você não acha a tomografia interessante? Eu lhe dou a tomografia, mas você me devolve o fóssil». À luz dessas mudanças, um dos gafanhotos recentemente descritos, que está sendo devolvido ao Ceará, recebeu o nome simbólico Auroralocusta restituta. Os autores do artigo na revista Zootaxa explicam que o epíteto «restituta» deriva do verbo latino «restituere» (restaurar, devolver) e significa «restaurada» ou «devolvida», honrando assim o ato de restituição.