De acordo com a análise, a economia da África do Sul evitou um colapso, no entanto, as taxas de crescimento foram insuficientes para criar um nível de bem-estar adequado. Este desequilíbrio representa tanto um problema quanto uma oportunidade para o país.
Diferença entre sintomas e causas
Os habitantes da África do Sul frequentemente avaliam o estado da economia prestando atenção ao nível de desemprego, pobreza e desigualdade. Embora esses fatores reflitam a realidade diária, eles são consequências da situação econômica, e não sua medida. A confusão desses sintomas com as causas primárias pode levar a uma compreensão incorreta tanto do problema quanto dos caminhos para resolvê-lo.
Indicadores de estabilidade econômica
O relatório do Instituto da Sociedade Inclusiva apresenta um quadro mais complexo do que os otimistas ou pessimistas extremos sugerem. A economia sul-africana não está passando por um colapso. No entanto, também não demonstra um crescimento rápido o suficiente para fornecer empregos, rendimentos e oportunidades que os cidadãos esperam. Essa diferença é significativamente importante.
Dados históricos mostram que desde 1994, o produto interno bruto real aumentou em cerca de 85%, atingindo mais de 4,6 trilhões de randes em preços constantes, o que refuta o cenário de uma economia em colapso. Além disso, a inflação permanece sob controle dentro de um sistema monetário sólido, o sistema financeiro funciona eficientemente e o rand mantém o status de uma das moedas mais negociadas dos mercados emergentes. Esses sinais indicam uma alta resiliência da economia diante de choques internos e globais.
O problema do crescimento per capita
Apesar da estabilidade geral, muitos se perguntam por que a economia parece estagnada. A resposta reside no indicador de PIB per capita, que é menos destacado do que o PIB total. Enquanto o PIB mede o tamanho da economia, o PIB per capita mostra qual parte dessa economia está disponível para cada pessoa.
O período de 1995 a 2014 foi caracterizado pelo crescimento do PIB real per capita de cerca de 62.000 para quase 80.000 randes (em preços constantes), refletindo um período em que o crescimento econômico superava o crescimento populacional, melhorando o padrão de vida. No entanto, esse impulso não foi sustentado. No mesmo período, a população da África do Sul aumentou mais de 50%, e o crescimento econômico moderado tornou-se insuficiente para sustentar o aumento do padrão de vida do cidadão médio.
Na última década, o PIB real per capita estagnou e depois caiu para cerca de 75.548 randes em 2023. Isso significa que os habitantes da África do Sul estão materialmente melhor do que há três décadas, mas o progresso sustentável dos primeiros dois decênios da democracia foi em grande parte concluído. Essa perda de ritmo explica por que muitos sentem que a economia parou de funcionar para eles, mesmo que não tenha colapsado.
O conceito de «compressão per capita»
A ideia central do relatório é que a economia pode crescer enquanto as pessoas experimentam estagnação. Isso acontece quando o crescimento econômico mal acompanha o crescimento populacional. A economia fica maior, mas não o suficiente para que cada cidadão receba uma parcela significativamente maior de sua produção. O crescimento é distribuído continuamente entre uma população em expansão, levando os economistas a chamá-lo de «compressão per capita».
Uma economia que cresce em cerca de 2% ao ano não consegue absorver novos participantes do mercado de trabalho na velocidade necessária. Os empregos são criados, mas não rápido o suficiente. Novas oportunidades surgem, mas em número insuficiente. A economia continua avançando, mas o desemprego permanece dolorosamente alto, pois o crescimento não corresponde constantemente às necessidades do mercado de trabalho.
Contexto internacional e conclusões
A modelagem do próprio Instituto confirma este ponto de vista: assumindo que as taxas de criação de empregos sejam mantidas, se a população da África do Sul crescesse de acordo com a média dos países de renda média-alta, o nível atual de desemprego seria alguns pontos percentuais menor. Assim, a demografia por si só não resolveria a crise do desemprego, mas mostra que o problema não é apenas a falta de empregos, mas também que muitas pessoas competem por eles porque o crescimento econômico não conseguiu superar o crescimento populacional.
Sob esta ótica, o desemprego é um testemunho de que a economia não conseguiu crescer o suficiente, e não uma prova de que parou de funcionar. Dados internacionais reforçam essa conclusão. A África do Sul realmente fica atrás entre as economias de renda média-alta, mas não é um exemplo exclusivo, como frequentemente sugerido nos debates públicos. A economia sul-africana cresceu em cerca de 2% ao ano desde 2000, em comparação com cerca de 3,2% nos países de renda média-alta. Essa diferença, embora pareça modesta, representa uma perda significativa de renda nacional, investimentos e oportunidades de emprego ao longo de duas décadas. É uma lacuna de subdesempenho, e não um colapso econômico sistêmico.
Consequências sociais e perspectivas
Reconhecer essa diferença vai além de um exercício acadêmico. Ao diagnosticar um colapso onde há estagnação, podem ser prescritos tratamentos incorretos. Inversamente, se se celebra o crescimento contínuo, existe o risco de negligenciar as profundas consequências sociais de um crescimento que permanece muito fraco. Prevenir uma crise não equivale a alcançar a prosperidade.
Este nuance tem implicações de longo alcance, que vão além da economia. O desemprego crônico, os rendimentos estagnados e as oportunidades limitadas não apenas restringem o crescimento, mas também minam a confiança, enfraquecem a coesão social e diminuem a confiança nas instituições com o tempo. Nenhuma economia, por mais sólida que seja sua base macroeconômica, pode sustentar indefinidamente um alto nível de exclusão sem consequências. Se a África do Sul não conseguir transformar a resiliência econômica em uma prosperidade mais ampla, a pressão social de hoje pode se tornar as restrições econômicas de amanhã, impedindo investimentos, enfraquecendo a confiança e desacelerando ainda mais o crescimento. Portanto, a resiliência econômica e a coesão social não são objetivos concorrentes; elas se reforçam mutuamente e dependem uma da outra.
Uma das descobertas mais importantes do relatório é que o principal problema econômico da África do Sul não é a instabilidade macroeconômica. A inflação está sob controle, o sistema financeiro é resiliente, e o setor externo continua a se ajustar. A restrição real está em outro lugar: a África do Sul não atraiu investimentos suficientes, não cresceu rápido o suficiente e não expandiu suas capacidades produtivas em grau suficiente para elevar o nível de vida e reduzir o desemprego na escala necessária.
Assim, descrever a África do Sul como uma economia próspera ou falida perde completamente o cerne da questão. O país está preso em uma armadilha de insuficiência econômica. O crescimento foi suficiente para manter a estabilidade macroeconômica, mas insuficiente para gerar o emprego, os rendimentos e as oportunidades necessários para sustentar uma prosperidade crescente. A África do Sul não precisa salvar uma economia quebrada; ela precisa acelerar uma economia de crescimento mais rápido. Somente um crescimento sustentável, baseado em investimentos, pode criar os empregos, rendimentos e oportunidades necessários para transformar a resiliência econômica em melhoria do nível de vida. Esta é a verdadeira história econômica da África do Sul: não um colapso, mas um crescimento insuficiente.


