Uma descoberta inédita revelou o primeiro tipo de câncer contagioso em peixes, afetando bagres-cabeçudos-marrom em um lago localizado na fronteira entre os Estados Unidos e o Canadá.
Histórico da condição no lago Memphremagog
No lago Memphremagog, situado na divisa entre Canadá e Estados Unidos, bagres da espécie Ameiurus nebulosus vinham exibindo sinais anormais há mais de dez anos. Pescadores locais observaram a presença de tumores escuros nos peixes anos antes, e posteriormente, biólogos confirmaram que se tratava de um caso atípico de câncer de pele.
Um artigo divulgado na revista Nature classifica esta condição como o primeiro câncer transmissível documentado em peixes globalmente. Inicialmente, as investigações focaram em possíveis causas como contaminação ambiental ou infecções virais, mas essas hipóteses não forneceram explicações satisfatórias.
Metodologia e natureza do tumor
Os biólogos responsáveis pelo estudo expandiram o foco da pesquisa, procedendo ao sequenciamento dos genomas individuais dos peixes na tentativa de identificar mutações de DNA responsáveis pelo câncer. Foi nesse processo que foram detectados indicadores de um tumor com capacidade de transmissão.
A característica principal é que os tumores possuíam um DNA distinto daquele dos bagres que os portavam. As células cancerosas de diferentes indivíduos de peixes compartilhavam milhares de variações genéticas, constituindo uma linhagem genética própria, separada das células saudáveis dos hospedeiros. Isso indicava que todas as células tinham uma origem comum e estavam sendo transferidas de um animal para outro.
Manifestação clínica e implicações
Embora melanomas sejam considerados raros em bagres, no lago Memphremagog, mais de um terço dos exemplares apresentaram tais tumores desde 2012. Estes se manifestaram como lesões cutâneas de coloração preta intensa, frequentemente acompanhadas de crostas na pele. Em alguns casos registrados pelos biólogos, os tumores progrediram de lesões superficiais para atingir o cérebro, o fígado e outros órgãos internos.
Julie Dragon, cientista de dados da Universidade de Vermont, EUA, e coautora da pesquisa, afirmou que os efeitos desse câncer na saúde dos bagres ainda não são totalmente compreendidos. Ela ressaltou que os tumores apareceram tanto em peixes jovens quanto em mais velhos, adicionando que «não temos evidências de uma mudança drástica relacionada à idade que sugira que isso esteja matando os peixes» em entrevista à Nature.
Contexto global e hipóteses de transmissão
Com este achado, o número de casos conhecidos onde células tumorais se transmitem naturalmente entre animais é reduzido a quatro. Os demais exemplos incluem um tumor sexualmente transmissível em cães, dois tipos distintos de câncer em diabos-da-tasmânia (Sarcophilus harrisii) e tumores que acometem bivalves, como mexilhões e ostras.
Michael Metzger, biólogo do Pacific Northwest Research Institute em Seattle, Washington, propõe a teoria de que a transmissão dos tumores nos bagres ocorre por contato direto, seguindo o padrão observado em cães e diabos-da-tasmânia. Dragon mencionou que sua equipe confirmou, em um estudo ainda não publicado, a existência do melanoma transmissível em Ameiurus nebulosus em outras localidades. Além disso, ela iniciou uma busca em plataformas de pesca esportiva por indícios, citando que «há pescadores postando fotos que mostram características muito semelhantes a essa condição».
Enquanto isso, a comunidade científica debate se o surgimento desses cânceres transmissíveis está ligado a alterações ecológicas mais amplas ou se o avanço tecnológico tem facilitado sua identificação. É relevante notar que, embora o tipo de tumor que afeta cães tenha surgido há mais de 6.000 anos, outros tipos podem ter aparecido muito mais recentemente.