Um macho de jaguar de oito anos que vivia no Brasil e foi equipado com um transmissor GPS percorreu uma distância reta de 2122 quilômetros em menos de um ano. Esta rota, que abrange florestas, savanas, pastagens e plantações, é sem precedentes em termos de distância e duração para este predador, visto que anteriormente se supunha que sua dispersão era limitada a 60–100 quilômetros.
As razões da migração permanecem um mistério
Os motivos exatos que levaram o macho, nomeado Gaspar, a empreender uma viagem tão perigosa ainda são desconhecidos. As possíveis versões incluem o deslocamento de seu território anterior por um competidor, a busca por oportunidades de acasalamento ou a descoberta de áreas com abundante presa. Os resultados deste estudo foram publicados na revista científica Ecology.
Redução do habitat dos jaguares
Historicamente, os jaguares (Panthera onca) ocupavam vastas áreas na América do Sul, Central e Sul da América do Norte, incluindo florestas tropicais úmidas, semi-desertos e zonas costeiras. No entanto, devido ao aumento da perseguição humana, à diminuição das populações de presas e à destruição de habitats, o alcance desses predadores diminuiu significativamente e foi dividido em manchas isoladas de diferentes tamanhos. A sobrevivência dos jaguares depende criticamente de sua capacidade de se mover entre esses focos remanescentes, que muitas vezes estão a grandes distâncias uns dos outros.
Estudo das capacidades migratórias
Uma equipe de zoólogos, liderada por John Morant da Universidade Basca, demonstrou a capacidade dos jaguares de cobrir grandes distâncias. Em 11 de novembro de 2024, os pesquisadores colocaram um colar com transmissor GPS em um macho adulto do rio Araguaia, no Brasil. Esta área é considerada um corredor potencial para o movimento de jaguares entre as florestas tropicais úmidas da Amazônia e as savanas do Cerrado.
O transmissor funcionou por 381 dias, até 27 de novembro de 2025, transmitindo dados de mais de 5000 pontos. Nos primeiros três meses após o início da observação, o jaguar permaneceu dentro de seu território original ao longo do rio Araguaia, com uma área de 697 quilômetros quadrados. Depois disso, Gaspar iniciou uma longa jornada para o interior do Cerrado, movendo-se primeiro para sudeste e depois para sudoeste. Com uma velocidade média de 0,407 quilômetros por hora, ele percorria em média 9,76 quilômetros diariamente. No momento em que o transmissor parou de funcionar, o jaguar estava a 2122 quilômetros do ponto de partida (em linha reta).
Comparação com outras espécies
Com base na trajetória de movimento, Gaspar provavelmente não estava seguindo um objetivo específico, mas sim escolhendo direções com base nas condições do terreno. Morant e seus colegas observam que jaguares do Cerrado, da Mata Atlântica e do Gran Chaco são capazes de percorrer grandes distâncias — de 14 a 28,8 quilômetros por dia. No entanto, a rota geral de Gaspar em extensão e duração permanece um recorde para a espécie, excedendo significativamente os casos de dispersão registrados anteriormente de 60–100 quilômetros. Para comparação, esta viagem é comparável a dois casos de migração de machos e fêmeas de puma (Puma concolor), que percorreram mais de 2700 e 1341 quilômetros, respectivamente.
Impacto dos fatores antropogênicos
Na fase inicial de permanência ao longo do rio Araguaia, Gaspar passou tempo em florestas, savana e áreas alagadas. Durante a migração, ele tentou permanecer na vegetação natural, mas cada vez mais foi forçado a visitar áreas alteradas pelo homem, como plantações e pastagens. Os autores do estudo enfatizam que esta viagem demonstra a alta adaptabilidade ecológica dos jaguares e sua capacidade de superar barreiras artificiais entre os locais de habitação habituais. No entanto, nessas paisagens transformadas, os predadores correm maior risco de serem baleados ou envenenados. Portanto, para garantir a preservação dos jaguares, é necessário não apenas preservar corredores naturais, mas também manter a permeabilidade dos ecossistemas antropogênicos.
O destino de Gaspar permanece incerto
As razões desta jornada tão longa e perigosa de Gaspar permanecem obscuras. No momento da instalação do transmissor, ele tinha cerca de oito anos, o que exclui a fase de dispersão precoce (idade de um a três anos). As causas mais prováveis são o deslocamento por um competidor ou a busca por um parceiro ou por pastagens mais ricas. O destino final do macho também é desconhecido; há uma alta probabilidade de que ele tenha morrido por ação humana, embora não se possa excluir completamente a falha do transmissor.
Vale ressaltar que os jaguares são capazes de se mover não apenas em terra, mas também na água. No ano passado, foi registrado um caso em que um macho desta espécie nadou pelo menos 1,27 quilômetros e alcançou uma ilha no reservatório Serra da Mesa, no centro do Brasil.