Oitenta e um anos atrás, Vannevar Bush entregou ao então presidente dos EUA, Harry S. Truman, um relatório que definiria a ciência americana por muitas gerações. O documento 'Ciência: Fronteira Infinita' justificou a necessidade de financiamento federal para pesquisas fundamentais e criou a base institucional que ajudou a vencer a Segunda Guerra Mundial, realizar o voo humano à Lua e dar origem à era digital.
Sucessor do Modelo Antigo
Agora, a Casa Branca divulgou seu sucessor. O relatório 'Ciência: Novo Século Dourado', apresentado ao presidente Donald Trump por Michael Kracius, diretor do Gabinete de Ciência e Política Tecnológica da Casa Branca em 21 de julho, representa a revisão mais abrangente da política científica dos EUA em oito décadas. Ele afirma que o modelo pós-guerra — o chamado 'modelo linear' de pesquisa fundamental que transiciona para trabalhos aplicados e depois para a indústria — não corresponde mais à realidade atual. De acordo com o novo relatório, as descobertas modernas constituem um ciclo iterativo, e as instituições criadas para a ciência do meio do século estão se tornando cada vez mais gargalos.
Reformas Institucionais e Novas Ferramentas
O primeiro grande foco do relatório é na reforma institucional. Ele critica um sistema onde os pesquisadores gastam quase metade do tempo preenchendo papelada, os subsídios levam cerca de um ano desde a submissão até a concessão, e os comitês de especialistas tendem a recompensar o consenso em vez de ideias ousadas. A solução proposta é devolver o cientista individual ao centro das atenções. É necessário expandir bolsas móveis para doutorandos e conceder subsídios de longo prazo, análogos ao Prêmio Distintivo do Diretor do NIH. Também se propõe diversificar os mecanismos de financiamento além da avaliação de especialistas, incluindo 'bilhetes dourados' que permitem a revisores individuais apoiar propostas ambiciosas, subsídios rápidos para tomada de decisões operacionais e concursos com prêmios por resultados alcançados. Além disso, o relatório pede a criação de novas formas organizacionais: Laboratórios X, equipes temporárias flexíveis para resolver problemas específicos e Agências de Projetos de Pesquisa Avançada (ARPA), onde gerentes de programas fazem apostas ousadas. A mensagem é clara: o governo dos EUA gasta cerca de US$ 200 bilhões anualmente em P&D, e os autores do relatório acreditam que uma parcela muito grande desses fundos vai para a burocracia, e não para inovações.
Inteligência Artificial como Motor da Ciência
A seção mais futurista dedica-se ao que o relatório chama de 'revolução na ciência', impulsionada pela inteligência artificial (IA). O elemento central é a Missão 'Genesis' — uma iniciativa de IA para a ciência cujo objetivo é dobrar a produtividade e o impacto da pesquisa dos EUA em dez anos. O 'Genesis' integrará supercomputadores, modelos de IA, instrumentos científicos e conjuntos de dados em toda a rede laboratorial nacional, criando um ciclo fechado no qual a IA gera hipóteses, laboratórios automatizados as testam e os resultados obtidos são devolvidos ao modelo. O relatório contém um apelo à construção de infraestrutura de verificação em larga escala, observando que 'embora o custo de geração tenha diminuído exponencialmente, o custo de verificação não o fez'. Também é apoiado o experimento autônomo — laboratórios móveis capazes de reduzir os prazos de descoberta em ordens de magnitude. As ambições desta iniciativa são semelhantes às que a China está construindo em ciência gerenciada por IA, desde o PaddlePaddle da Baidu em biologia computacional até os modelos climáticos Pangu da Huawei. No entanto, a versão americana tem um complemento político: o relatório prescreve simultaneamente a 'Ciência de Padrão Ouro' através de um decreto executivo, garantindo a reprodutibilidade e o compartilhamento de dados como base para descobertas baseadas em IA.
Concorrência e Ecossistema de Inovação
A China raramente é mencionada pelo nome no relatório, mas sua presença é sentida em cada capítulo. Nele, afirma-se que 'nossos concorrentes direcionam recursos sem precedentes para ciência e engenharia, usando uma abordagem de sociedade inteira para conquistar alturas em tecnologias estratégicas'. O relatório insiste que o mero liderança científica não é suficiente para garantir soberania econômica ou nacional — os avanços devem ser prototipados, produzidos e escalados dentro do país. Isso explica a busca do relatório por fortalecer a parceria público-privada, abrir laboratórios federais para a indústria e criar clusters regionais de inovação densos, ligados à manufatura avançada. Essa mudança estratégica é notável: enquanto a primeira administração Trump focava em tarifas e guerras comerciais, e a administração Biden em controle de exportação e Lei dos Chips, este relatório apresenta algo diferente — uma tentativa sistemática de reconstruir todo o ecossistema de inovação dos EUA do zero. O foco não está tanto em bloquear concorrentes, mas em eliminar os gargalos que retardavam a própria ciência americana.
Perspectivas de Implementação do Plano
As ambições do relatório são inegáveis, mas sua implementação permanece incerta. Muitas das medidas propostas — redução da burocracia, otimização da avaliação de especialistas e abertura de instalações federais — exigem ações legislativas ou mudanças institucionais profundas que resistiram às reformas por décadas. Além disso, o portfólio de P&D federal de US$ 200 bilhões está distribuído entre agências com culturas e interesses estabelecidos. O que está claro é a direção: após 81 anos, os EUA declaram seu modelo científico pós-guerra obsoleto e apostam em um novo, baseado em talento individual impulsionado por IA e integração industrial. Para o resto do mundo, incluindo a China, que o relatório implicitamente considera um padrão de concorrência, a questão não é apenas se a América conseguirá restaurar seu próprio motor, mas como serão as novas regras da corrida científica global quando isso acontecer.

