As gigantes de tecnologia Amazon, Microsoft e Meta enfrentam a semana de divulgação de resultados financeiros sob intensa pressão do mercado. Isso ocorre após a Alphabet, controladora do Google, anunciar o aumento de seus investimentos em infraestrutura dedicada à inteligência artificial (IA), o que resultou em uma forte desvalorização de suas ações e gerou dúvidas entre os investidores sobre o retorno desses gastos bilionários.
Reação do Mercado e Investimentos
Na quarta-feira (22), durante a apresentação dos resultados do segundo trimestre, a Alphabet comunicou a elevação de sua projeção de despesas de capital (capex) para 2026, visando acelerar a construção de novos centros de dados focados em IA. A resposta do mercado foi imediata: as ações da Alphabet despencaram 7% na quinta-feira (23), e os papéis de Amazon, Microsoft e Meta também sofreram quedas, refletindo o crescente ceticismo dos investidores quanto aos altos investimentos em infraestrutura, que estão diminuindo as reservas de caixa das empresas sem garantia de lucro no curto prazo.
As três companhias aguardam a publicação de seus balanços financeiros nesta semana. A Microsoft e a Meta apresentarão seus resultados após o encerramento do mercado na quarta-feira (29), enquanto a Amazon divulgará seus números na quinta-feira (30).
Mudança na Percepção de Investimentos
Nos trimestres anteriores, Wall Street interpretava o aumento dos aportes em infraestrutura como um indicativo positivo de alta demanda por IA e crescimento futuro de receitas. A Alphabet era vista como preferida pelos investidores devido à sua habilidade em converter grandes investimentos em aumento de faturamento. Suas ações haviam valorizado cerca de 70% nos últimos doze meses, impulsionadas pela expansão da computação em nuvem e pela adoção dos modelos Gemini em um mercado competitivo com OpenAI e Anthropic.
Contudo, a reação negativa ao último balanço sugere que o mercado agora exige provas mais concretas de retorno financeiro antes de aceitar novos incrementos nos gastos. Mark Mahaney, chefe de pesquisa de internet da Evercore ISI, observou em relatório divulgado na quarta que o aumento do capex da Alphabet "aumenta as chances de comportamento semelhante" por parte da Amazon e da Microsoft.
Pressões Potenciais sobre Microsoft e Amazon
Em abril, a Microsoft havia previsto cerca de US$ 190 bilhões (R$ 975,6 bilhões) em investimentos de capital e contratos de arrendamento financeiro para o ano corrente, incluindo aproximadamente US$ 25 bilhões (R$ 128,4 bilhões) relacionados ao aumento de preços de componentes motivado pela alta procura por chips de IA. Derrick Wood, analista da Cowen, alertou que se a empresa aumentar esses investimentos novamente, o mercado pode reagir negativamente. Wood declarou em entrevista à CNBC que "se eles aumentarem o capex novamente, com base no que vimos na reação ao Google na semana passada, isso provavelmente levará a uma pressão de venda sobre as ações". Analistas consultados pela Visible Alpha estimam que os investimentos da Microsoft sejam de cerca de US$ 190,1 bilhões (R$ 976,1 bilhões).
Após o balanço da Alphabet, a estimativa de consenso para os investimentos da Amazon subiu quase US$ 2 bilhões (R$ 10,3 bilhões), atingindo US$ 207,4 bilhões (R$ 1,06 trilhão), conforme dados da Visible Alpha. Em fevereiro, a empresa planejava investir cerca de US$ 200 bilhões (R$ 1,02 trilhão) em 2026, o maior orçamento entre as gigantes de tecnologia até que a Alphabet elevou seu limite de previsão para US$ 205 bilhões (R$ 1,05 bilhão). Embora a Amazon tenha mantido essa estimativa na divulgação de resultados de abril, o CEO Andy Jassy informou aos investidores que o plano estava praticamente inalterado. Apesar disso, vários analistas previram um novo aumento, impulsionado pela expansão de projetos de IA, desenvolvimento de chips próprios, aumento de preços de memória e o avanço da iniciativa de internet via satélite da companhia.
Sinais de Fadiga da IA
Jake Dollarhide, CEO da gestora Longbow Asset Management, cuja maior posição é na Amazon, comentou que a empresa pode ter dificuldades em agradar investidores no cenário atual. Ele apontou que o mercado está vivenciando um ambiente de "fadiga crescente com a inteligência artificial", marcado pelo questionamento dos aumentos acelerados nos orçamentos de IA e pelo aumento do endividamento das "Sete Magníficas" para financiar vastos centros de dados.
Esses números confirmam essa tendência: a dívida de longo prazo da Amazon cresceu 81%, alcançando US$ 119 bilhões (R$ 611 bilhões) entre 31 de dezembro e 31 de março. Já na Alphabet, a dívida saltou 111% nos primeiros seis meses de 2026, totalizando US$ 98 bilhões (R$ 503,2 bilhões). Adicionalmente, a empresa registrou fluxo de caixa livre negativo no segundo trimestre pela primeira vez, mesmo sendo tradicionalmente uma geradora robusta de caixa.
Visão Otimista de Alguns Analistas
Apesar das apreensões dos investidores, analistas da Wedbush acreditam que o aumento dos investimentos reflete uma demanda extremamente forte por serviços de computação em nuvem, ainda limitada pela capacidade existente. Para essa instituição, um possível aumento do capex da Amazon não seria inerentemente negativo. Os analistas argumentaram que o custo extra se justifica diante da recuperação da Amazon Web Services (AWS) e das vantagens competitivas da empresa em plataformas como Bedrock, Alexa e sua rede logística, mantendo a recomendação de compra para as ações.
Panorama do Mercado de Nuvem
Embora o Google Cloud esteja crescendo em ritmo mais acelerado, a Amazon Web Services permanece como a maior provedora global de infraestrutura em nuvem, seguida pela Microsoft. Em 2020, o Google Cloud representava cerca de 30% do volume da AWS, mas no primeiro trimestre de 2026, essa fatia já se aproximou de 50%. A divisão de nuvem da Alphabet registrou um crescimento de 82% no segundo trimestre, o maior desde pelo menos 2020, após crescer 63% no trimestre anterior.
Para a AWS, analistas da FactSet preveem um crescimento de receita próximo a 32% no segundo trimestre, superando os 28% registrados nos primeiros três meses do ano. Paralelamente, a receita da plataforma Azure e outros serviços de nuvem da Microsoft cresceu 40% no primeiro trimestre, e o consenso da FactSet aponta para uma expansão de 39% no segundo trimestre. Mesmo com o forte desempenho da Alphabet, Mark Mahaney ressaltou que a demanda por serviços em nuvem permanece "implacável", mas considera improvável que os concorrentes consigam igualar o ritmo de crescimento do Google no período.
Investimentos e Estratégia da Meta
A Meta é a única entre as grandes empresas do grupo que ainda não possui um negócio estabelecido de computação em nuvem. Não obstante, a companhia deve investir cerca de US$ 138,9 bilhões (R$ 713,2 bilhões) neste ano, podendo chegar a US$ 145 bilhões (R$ 744,6 bilhões), conforme informado em abril. Além disso, a Meta iniciou estudos para buscar novas fontes de receita através da venda de capacidade computacional para terceiros, mantendo, por enquanto, uma forte geração de caixa.
As situações são distintas para Microsoft e Amazon. Segundo analistas da FactSet, a Microsoft pode registrar fluxo de caixa livre negativo no quarto trimestre pela primeira vez desde, pelo menos, 2001. A Amazon já entrou no vermelho nesse indicador no primeiro trimestre, e a expectativa é que persista durante todo o ano. Isso ocorreu pela última vez em 2021 e 2022, quando a empresa duplicou sua capacidade logística para suprir a demanda gerada pela pandemia.
Apesar das preocupações de curto prazo, alguns investidores mantêm otimismo. Tiffany Wade, gestora de fundos da Columbia Threadneedle, que possuía posições na Alphabet, Amazon e Microsoft no final de junho, afirmou: "Eu acho que é preciso ter paciência com essas empresas porque acredito que elas serão vencedoras na inteligência artificial no médio e no longo prazo". Durante a teleconferência de resultados da Alphabet, o CEO Sundar Pichai defendeu a estratégia da empresa de alugar capacidade computacional de fornecedores externos para atender ao crescimento da demanda por serviços de nuvem. Ele justificou que essa abordagem deve gerar margens atraentes nos próximos anos, apesar do aumento de custos, concluindo: "Acho que essa provavelmente é a decisão correta".


