Um novo estudo piloto aponta que o momento em que as refeições são consumidas pode ser um fator crucial para a saúde, sugerindo que restringir os horários de alimentação pode auxiliar na prevenção do declínio cognitivo na terceira idade.
Resultados do Ensaio Clínico
Mulheres idosas com sobrepeso que limitaram suas refeições a um intervalo de tempo específico demonstraram um desempenho superior em avaliações cognitivas quando comparadas àquelas que se alimentavam ao longo de todo o dia. Especificamente, aquelas que consumiram suas refeições entre 10h e 18h apresentaram melhores resultados nos testes cognitivos.
Durante o ensaio clínico, 47 participantes, com idades variando entre 50 e 79 anos e apresentando sobrepeso, foram incentivadas a reduzir 500 calorias da dieta diária por seis meses. Deste grupo, 26 voluntárias seguiram a orientação de se alimentar apenas em uma janela de nove horas, enquanto as restantes distribuíram suas refeições ao longo de 12 horas. Ao término do estudo, ambos os grupos alcançaram uma perda de peso similar, em média de cerca de 7 kg. Contudo, as mulheres que mantiveram o consumo de refeições em tempo limitado cometeram menos equívocos nos testes de memória e aprendizado.
Implicações e Perspectivas Científicas
Embora a perda de peso por si só possa retardar o declínio cognitivo, os pesquisadores defendem que a diferença observada entre os grupos indica que prestar atenção ao horário de alimentação oferece um benefício adicional à redução de peso. A professora Wendy Hall, do King’s College London, considera o estudo promissor, mas enfatiza que os achados são preliminares e aguardam a versão completa e revisada por pares para confirmar significância clínica.
Hall explica que a alimentação com restrição de horário é uma estratégia viável para promover a saúde cognitiva em adultos de meia-idade e idosos com excesso de peso. Isso ocorre não apenas pelo auxílio no controle de peso, mas também porque evitar grandes refeições tardias pode otimizar o controle glicêmico, a função vascular e os níveis de inflamação.
Contexto Global do Declínio Cognitivo
Pesquisadores têm investigado a ligação entre o estilo de vida e o risco de demência. Um levantamento realizado em 2024 pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) apontou que 54% dos casos de demência na América Latina podem ser atribuídos a fatores de risco modificáveis, como o estilo de vida ou tratamentos médicos. Globalmente, a projeção é de quase 57 milhões de pessoas afetadas, concentradas majoritariamente em nações de renda baixa e média. Fatores como idade e genética são inevitáveis, mas condições como obesidade na meia-idade podem elevar em 30% o risco de desenvolver demência ao longo da vida.
Outra autora da pesquisa, a professora Sue Shapses, da Universidade Rutgers, em Nova Jersey (EUA), classificou os resultados como «modestos». Ela e seus colegas pretendem investigar a razão da importância do horário das refeições, teorizando que a resposta reside em uma interação complexa envolvendo ritmos circadianos, metabolismo e inflamação.



