Dois novos exemplos de indivíduos considerados curados ou em remissão prolongada da infecção pelo HIV, após submeterem-se a transplantes de células-tronco, serão expostos em uma conferência internacional sobre AIDS realizada no Rio de Janeiro.
Total de Casos e Apresentação
Com a inclusão desses novos registros, o número global de pacientes classificados como curados da infecção viral atinge 13. Os casos, denominados pacientes Ascent e Kansas City, serão detalhados na quarta-feira (29) durante uma sessão focada em pesquisas sobre a erradicação do HIV.
Christian Gaebler, imunologista da Charité Universitätsmedizin Berlin, antecipou esta notícia durante a pré-conferência HIV Cure Without Borders: Science, Community and the Latin America and Caribbean Perspective. Gaebler declarou que o paciente Ascent seria o número 12 e o paciente de Kansas City o número 13, descrevendo os achados como 'realmente fascinantes'.
Limitações e Contexto Clínico
Informações clínicas específicas sobre o paciente de Kansas City não foram divulgadas pelo pesquisador. Os dois novos casos fazem parte de um grupo muito limitado de pessoas que conseguiram eliminar ou controlar o HIV sem medicação contínua, graças ao transplante de células-tronco.
É importante notar, contudo, que, apesar dos progressos científicos, especialistas alertam que este procedimento não constitui uma alternativa terapêutica para a maioria da população vivendo com HIV. Isso ocorre porque todos os pacientes considerados curados ou em remissão prolongada necessitaram de um transplante de medula óssea devido ao desenvolvimento de leucemia ou outro câncer hematológico, um procedimento complexo e de alto risco reservado a doenças potencialmente fatais.
Gaebler enfatizou a importância de 'aprender com todos esses casos'.
Perspectiva Global da Epidemia
Desde o início da epidemia, estima-se que cerca de 90 milhões de pessoas já conviveram ou convivem com o HIV. Os 13 casos ligados a transplantes representam apenas uma pequena fração desse montante, mas fornecem dados cruciais para o desenvolvimento de métodos que permitam o controle do vírus sem necessidade de tratamento constante.
O primeiro caso de cura reconhecido foi o de Timothy Ray Brown, apelidado de 'paciente de Berlim', apresentado em 2009. Naquela época, Brown recebeu um transplante de um doador portador de duas cópias da mutação CCR5-delta32, uma alteração genética que bloqueia a função do correceptor CCR5, uma porta de entrada primária do HIV nas células do sistema imune. Por anos, a comunidade científica acreditou que essa mutação era essencial para alcançar a cura.
Novos Mecanismos de Controle Viral
Os casos mais recentes, porém, sugerem que outros fatores além da mutação genética podem estar envolvidos no controle da infecção. Gaebler mencionou o caso do paciente de Genebra, que entrou em remissão mesmo recebendo células de um doador sem a mutação CCR5-delta32. Ele também citou um segundo paciente de Berlim cujo doador possuía apenas uma cópia dessa alteração genética.
Segundo o especialista, estes resultados apontam para a contribuição de mecanismos imunológicos, além da genética, no controle do HIV. No segundo paciente de Berlim, os pesquisadores detectaram anticorpos capazes de neutralizar o vírus e estimular as células NK, componentes vitais do sistema imune responsáveis pela destruição de células infectadas. De acordo com Gaebler, essa resposta imunológica pode ter auxiliado na redução gradual dos reservatórios virais, que são células onde o HIV se esconde e representam o maior entrave para uma cura definitiva.
Pesquisas em Terapias Alternativas
Adicionalmente aos transplantes de células-tronco, diversas equipes de pesquisa estão trabalhando no desenvolvimento de tratamentos que possam beneficiar um número muito maior de pessoas com HIV. Estratégias em estudo incluem anticorpos amplamente neutralizantes (bNAbs), terapias com células CAR-T, edição genética do gene CCR5 e novas abordagens de imunoterapia.
Gaebler relatou que vários ensaios clínicos com bNAbs mostram resultados similares: entre 10% e 20% dos participantes conseguem manter o controle parcial ou total do vírus após suspenderem, sob supervisão, a terapia antirretroviral.
O imunologista também apresentou dados preliminares de uma terapia experimental utilizando células CAR-T modificadas para reconhecer o HIV e editadas no gene CCR5. Em um grupo de dez participantes, um conseguiu manter o vírus controlado por cerca de 90 semanas sem tratamento, enquanto outros cinco tiveram um aumento viral menor do que o previsto. Embora os achados ainda sejam iniciais e provenientes de estudos pequenos, os cientistas consideram que estas pesquisas guiarão o desenvolvimento de futuros tratamentos que permitam aos indivíduos com HIV manterem o vírus sob controle sem dependência contínua de medicamentos.