As fronteiras modernas são frequentemente apresentadas como corredores com paredes de concreto, tetos baixos e iluminação artificial, onde o observador está atrás de vidro blindado. Lugares como Calais, El Paso ou Lampedusa criam uma atmosfera de anonimato, mas ao mesmo tempo transmitem claramente a ideia de que a passagem não é um direito, mas sim uma concessão.
A linguagem arquitetônica das fronteiras
Esta imagem de corredor não é uma exceção, mas um reflexo da linguagem arquitetônica que se repete nas fronteiras modernas. Aeroportos labirínticos, estações de triagem e muros são arquiteturas que tornam a hostilidade um elemento inerente ao espaço, mostrando que ela vai além de um simples espaço fechado do outro lado do vidro.
Em 1975, Michel Foucault popularizou o conceito de panóptico em seu livro 'Vigiar e Punir', descrevendo uma prisão em forma circular com uma torre de observação no centro. Como os detentos nunca sabem quando estão sendo observados, eles internalizam a vigilância e autocontrolam seu comportamento, garantindo uma disciplina ideal. A eficácia do panóptico reside precisamente na despersonalização do poder ou sua transformação em uma figura geométrica, na arquitetura.
Projetos conceituais e muros
Que arquitetura é capaz de controlar, observar e restringir? O projeto 'Exodus, or The Voluntary Prisoners of Architecture', desenvolvido por Rem Koolhaas em colaboração com Elias Zenghelis, Madelon Vriesendorp e Zoe Zenghelis, foi apresentado em 1972. Inspirado pela viagem de Koolhaas ao Muro de Berlim, o projeto transforma o 'muro' em uma condição espacial conceitual, tornando-o um elemento estrutural da própria ideia de arquitetura.
Usando uma linguagem intencionalmente exagerada, semelhante à Superstudio, o sistema de paredes paralelas cruzava o centro de Londres, isolando uma faixa que funcionava como território e estabelecendo uma dicotomia entre bem e mal, inclusão e exclusão. A ideia era transformar uma condição fronteiriça específica na base de uma visão que considera a arquitetura como 'ciência hedonista do projeto de objetos coletivos capazes de satisfazer completamente os desejos individuais'. A suposta ausência de programa no muro, segundo Koolhaas, lhe conferia maior estabilidade do que qualquer outro edifício, o que também contradizia as visões predominantes sobre o papel social da disciplina naquele período.
No entanto, o muro considerado isoladamente pode ser entendido como uma obra-prima em termos retóricos, mas sua função é realizada graças à cidade que o cerca, e é essa interação urbana que permite que ele manifeste seu poder arquitetônico — a capacidade de criar uma fronteira.
A fronteira como entidade estratificada
Na memória coletiva, a fronteira é frequentemente reduzida a um vetor imaginário no mapa — uma linha preta. No entanto, essa linha contém muitas camadas, representando um rastro capaz de demarcar 'aqui e lá', 'nós e eles', refletindo a experiência psicossocial vivenciada pelas pessoas. A fronteira é uma entidade relacional, formada tanto pelos meios e dispositivos de controle de fronteira quanto pelos processos que ela mesma gera. Portanto, é um conceito elástico: para alguns é distante e inalcançável, para outros é facilmente transponível.
O controle territorial inclui instituições, leis e medidas administrativas, mas também está intrinsecamente ligado à criação de espaço físico. A fronteira existe não apenas no mapa; ela está presente em um metro quadrado, na altura do muro, na largura do corredor, no ângulo das câmeras.
Do concreto ao arame farpado
A altura da conhecida barreira entre os EUA e o México é de nove metros, descrita como altura suficiente para garantir a morte de qualquer pessoa que caísse ao tentar ultrapassá-la. Esta é uma das fronteiras mais icônicas do mundo, pois sua função divisória é reforçada pelo objeto arquitetônico. Aqui, a fronteira não é apenas política ou social — ela é visivelmente aberta a olho nu.
Mas além do muro fatal, as arquiteturas de fronteira são encontradas em vários tipos. Alexander Stanichic, em seu livro 'Architectures of Resistance: Negotiating Borders Through Spatial Practices', descreve a história do posto de fronteira de Gevgelija na fronteira entre Grécia e Macedônia do Norte, e como suas mudanças arquitetônicas refletem o contexto político de cada momento.
Ele cita que em 1960, o posto estava no auge de seu desenvolvimento, sendo a principal entrada para a Federação Socialista da Iugoslávia a partir da Grécia. A demolição de sua arquitetura modernista em 1990 marcou o colapso do estado federal e precedeu projetos nacionalistas, como o controverso Skopje 2014. Atualmente, Gevgelija estabeleceu-se como um espaço de conflito, onde uma cerca de arame farpado ao longo da fronteira serve como uma barreira intransponível para milhares de refugiados deslocados que se dirigem à Europa Ocidental.
Entre o ponto de passagem modernista amigável e a cerca de arame farpado existe um abismo político e cultural que mostra o que muito pode dizer a arquitetura das fronteiras. No entanto, embora possa ser usada como ferramenta de controle, ela também possui o potencial de resistir a essas fronteiras devido à sua capacidade especulativa e proposta.
É possível fazer diferente?
Existem possibilidades de projetar postos de fronteira levando em conta a dignidade humana, áreas de espera com luz natural, navegação clara e espaços para crianças. São possíveis centros de recepção que renunciam à lógica de detenção. No entanto, são exceções, frágeis diante de qualquer mudança política. Isso indica que a arquitetura, por mais significativa que seja, está subordinada ao programa. Enquanto a fronteira for vista como uma ferramenta de exclusão seletiva, qualquer arquitetura que a sirva participa dessa exclusão.
Diante dessa complexidade, vale mencionar várias iniciativas. Por exemplo, Teddy Cruz e Fonna Forman combinam ativismo, pesquisa e produção criativa para reimaginar como as fronteiras e as comunidades ao seu redor são construídas e funcionam. Para eles, a região entre Tijuana e San Diego é um laboratório global para os principais problemas da urbanização moderna. Enquanto o ICE continua suas operações desumanas, milhares de migrantes mexicanos esperam no muro por um refúgio que nunca chega. Deste análise nasceram os UCSD Community Stations — uma rede de pontos em bairros marginalizados de ambos os lados do muro, onde o ensino e a pesquisa são combinados entre universidades estatais e comunidades migrantes.
Na mesma fronteira, destaca-se uma intervenção realizada em 2019 pelos arquitetos Ronald Rael e Virginia San-Fratello, que instalaram balanços conectando crianças e adultos de ambos os lados do muro através de um simples ato de brincadeira. Essa intervenção foi breve, mas suficiente para expor a interdependência de dois territórios, tornando-se uma crítica simbólica à política de exclusão e uma prova de que a ação de um lado da fronteira afeta inevitavelmente o outro.
Finalmente, deve-se notar a publicação 'Two sides of the border. Reimagining the Region', na qual treze escritórios e grupos estudantis dos EUA e do México, sob a curadoria de Titania Bilbao, usam design e arquitetura para resolver questões sociais, políticas e ambientais ao longo da fronteira comum. Entre os projetos estudantis que representam o futuro da região, há o plano de Marilyn Reyes para ajudar borboletas monarcas em sua migração, fornecendo a esses seres migratórios não humanos um local de descanso na região de fronteira entre o México e os EUA, bem como o edifício flutuante de Holly Black — pertencente a ambos os países simultaneamente — que leva o neoliberalismo ao extremo.
Além do muro
Embora esses exemplos não apaguem a fronteira no mapa, eles mostram que essa 'linha' pode ser habitada de outras maneiras. Os balanços não destroem o muro, mas momentaneamente transformam o concreto em uma superfície de encontro, e não apenas de separação.
No entanto, talvez este seja o limite da arquitetura. Ela pode tornar a espera menos cruel, criar espaços mais dignos e revelar outras formas de coexistência, mas dificilmente conseguirá mudar sozinha a lógica que gera esses lugares. A hostilidade das fronteiras decorre não apenas das cercas ou corredores, mas do programa político que lhes dá forma. A questão, talvez, não seja como projetar uma fronteira mais humana, mas por que as fronteiras modernas são concebidas primariamente para a exclusão, e não para a aceitação. A arquitetura apenas materializa essa escolha, atuando como um espelho construído da sociedade.



