Os abalos administrativos e executivos que atingiram a Corporation for Public Investment (PIC) são ao mesmo tempo lamentáveis e profundamente preocupantes. A suspensão preventiva das atividades do seu diretor executivo principal, Patrick Dlamini, expôs novamente a fragilidade da governança em uma das estruturas estatais mais estratégicas da África do Sul.
A importância da PIC na economia
Os eventos atuais não podem ser vistos apenas como uma disputa isolada de governança. Eles abordam uma questão mais ampla de economia política que se apresenta a um estado democrático. A PIC ocupa uma posição única na estrutura financeira sul-africana, pois gere ativos de cerca de 3 trilhões de randes, principalmente em nome do Fundo de Pensões dos Funcionários Públicos.
A corporação é guardiã das economias de aposentadoria de milhões de funcionários públicos e é um dos maiores investidores institucionais na Bolsa de Valores de Joanesburgo. Suas decisões de investimento influenciam o desenvolvimento de infraestrutura, financiamento industrial, habitação, capital privado e a direção geral da formação de capital na economia.
As consequências da instabilidade
Portanto, a instabilidade na PIC tem ramificações que vão além do seu conselho de administração. Ela mina a confiança na capacidade do Estado de proteger a riqueza pública e enfraquece a fé nas instituições que devem garantir o desenvolvimento econômico de longo prazo. Esta crise deve levar os sul-africanos a refletir sobre uma questão mais ampla: qual é o objetivo estratégico das nossas empresas estatais dentro de um estado democrático em desenvolvimento?
Comparação com experiências passadas
Esta questão transcende a PIC e inclui estruturas como Eskom, Transnet, Denel, Correios da África do Sul e Instituições de Financiamento de Desenvolvimento (DFIs). De forma mais fundamental, questiona se o estado democrático desenvolveu uma compreensão clara do que essas instituições devem alcançar na economia política sul-africana. Ironicamente, o Estado do Apartheid respondeu a essa pergunta com notável clareza, embora para um projeto desmoralizado e exclusivo. As empresas estatais foram intencionalmente posicionadas como instrumentos de transformação econômica para os sul-africanos brancos.
Instituições como South African Railways, Correios, Eskom, ISCOR e SASOL fizeram parte de uma estratégia estatal deliberada para resolver problemas socioeconômicos dos brancos. Através do emprego público, expansão industrial, desenvolvimento de habilidades e acesso prioritário às oportunidades econômicas, essas instituições consolidaram e expandiram a classe média branca, excluindo sistematicamente a maioria dos negros da participação econômica significativa. As massas negras, por outro lado, foram limitadas ao fornecimento de mão de obra barata, na qual esta economia política racial foi construída.
Desafios da democracia
O estado democrático herdou essas instituições juntamente com seu significativo potencial produtivo, mas herdou com menos sucesso a coerência estratégica com que foram usadas anteriormente. Trinta anos após a democracia, milhões de negros permanecem presos na pobreza estrutural, no desemprego e no isolamento econômico. Essa realidade deve forçar a fazer uma pergunta incômoda: por que o estado democrático não conseguiu usar essas mesmas instituições com igual determinação para erradicar a pobreza, criar empregos produtivos, estimular o desenvolvimento industrial inclusivo e resolver sem concessões o problema dos negros pobres?
A resposta não pode ser reduzida apenas à corrupção ou má administração, embora ambos os fatores tenham contribuído inegavelmente. O problema mais profundo reside na intersecção entre política e economia. É neste cruzamento que os mandatos das instituições se diluem, os interesses políticos competem com as prioridades de desenvolvimento e as estruturas de governança gradualmente perdem sua orientação estratégica.
A necessidade de implementação de reformas
A comissão judicial de investigação das acusações de captura do Estado, sob a presidência do Juiz-Chefe Raymond Zondo, revelou como este cruzamento se tornou um terreno fértil para o clientelismo e a captura institucional. Os conselhos de administração, que deveriam garantir a liderança estratégica, tornaram-se cada vez mais um palco de disputas faccionais. A supervisão enfraqueceu, a responsabilidade diminuiu e o poder executivo tornou-se vulnerável à interferência política. As instituições criadas para promover o desenvolvimento nacional foram, em vez disso, absorvidas pela instabilidade interna e, em alguns casos, pelo enriquecimento privado.
A África do Sul não pode ignorar essas fraquezas de governança. Administrações sucessivas encomendaram inúmeras revisões da governança das empresas estatais, e o problema do país não é a falta de relatórios de diagnóstico, mas sim a escassez de sua implementação. O Presidente Cyril Ramaphosa deve usar a atual crise na PIC como um momento para implementar totalmente as recomendações do Comitê Presidencial de Revisão de Empresas Estatais, estabelecido em 10 de maio de 2010 e liderado por Ria Fiege.
O comitê apresentou um dos planos mais abrangentes para a reforma das empresas estatais sul-africanas, abordando governança, supervisão acionária, modelos de financiamento, nomeação de membros do conselho e responsabilidade institucional. Suas recomendações permanecem relevantes hoje, assim como quando foram apresentadas. Deve-se notar a continuidade histórica: o Presidente Ramaphosa ocupava o cargo de vice-presidente quando o Comitê concluiu seu trabalho e recebeu o relatório. Assim, o país não precisa de outra comissão de inquérito ou outro estudo de diagnóstico; o relatório já existe e só precisa da vontade política para ser implementado.
O futuro estratégico das empresas estatais
As crises recorrentes na PIC, Eskom, Transnet, Denel e outras empresas estatais demonstram que a simples substituição de conselhos de administração, demissões de executivos ou mudanças de gestão não pode resolver problemas sistêmicos de governança. Tais intervenções podem eliminar dificuldades administrativas imediatas, mas não corrigem as deficiências estruturais que continuam a minar o potencial dessas instituições para o desenvolvimento. As empresas estatais sul-africanas devem ser fundamentalmente reorientadas para serem verdadeiros motores do desenvolvimento do estado democrático. Elas devem mobilizar o capital social, estimular a industrialização, financiar infraestrutura estratégica, apoiar setores produtivos da economia, criar emprego sustentável e expandir a participação econômica. Esta foi a visão estratégica que definiu o trabalho do Comitê de Revisão Presidencial, e permanece um assunto inacabado da África do Sul democrática. Nada mais restaurará o caráter desenvolvimentista das empresas estatais sul-africanas senão a vontade política de implementar as reformas designadas pelo próprio governo.