Durante o Congresso Mundial de Arquitetos da UIA em Barcelona, as conversas sobre o futuro da moradia ultrapassaram os aspectos de projeto, abordando temas cruciais como governança, gestão de longo prazo e propriedade. Cristina Gamboa, cofundadora da Lacol, cooperativa sediada em Barcelona, participou desses debates, apresentando uma prática que integra arquitetura, ativismo habitacional, gestão de construções e investigação ambiental sob um formato cooperativo.
O Modelo Cooperativo da Lacol
Em entrevista ao ArchDaily, Gamboa detalhou como a abordagem cooperativa transforma o papel do arquiteto. Ela enfatizou que a participação nas decisões vai muito além de uma simples consulta. Projetos como La Borda e La Morada servem como exemplos centrais para debater conceitos de cuidado e vida coletiva.
Para Gamboa, a estrutura organizacional da Lacol está intrinsecamente ligada à sua produção arquitetônica. Como cooperativa de trabalho, o escritório foi deliberadamente concebido para operar com base na tomada de decisão coletiva, afastando-se das hierarquias convencionais. Atualmente, suas atividades abrangem desde o suporte a cooperativas habitacionais e o desenho de edificações até o gerenciamento de obras e a busca por estratégias para a mudança ecológica, reforçando a ideia de que a arquitetura opera em diversas escalas, desde as políticas públicas até o uso diário.
Alternativa à Especulação Imobiliária
Essa função expandida influencia diretamente a maneira como a Lacol responde às necessidades habitacionais em Barcelona. Diante da escassez de moradia social e de um mercado dominado pela posse privada, Gamboa defende que a habitação cooperativa oferece um caminho alternativo, retirando os imóveis do ciclo de especulação através da propriedade compartilhada. Além de focar na viabilidade financeira, ela descreve este modelo como um meio de fortalecer a estabilidade dos bairros e manter as conexões sociais essenciais à vida urbana.
Lições de Projetos Emblemáticos
La Borda consolidou-se como um dos mais notórios exemplos de moradia cooperativa na Europa. Ao observar essa projeção internacional, Gamboa pondera sobre o impacto de um projeto experimental começar a influenciar outras regiões. Embora reconheça que cada localidade possui requisitos políticos, econômicos e sociais singulares, ela considera que uma grande contribuição de La Borda foi demonstrar a praticidade de modelos habitacionais alternativos e, igualmente importante, documentar esse processo para que outros grupos possam adaptá-lo.
A colaboração se estende ao próprio processo de concepção. Trabalhar com comunidades autogeridas significa aceitar que os futuros residentes trazem conhecimentos e experiências que os arquitetos sozinhos não conseguiriam antecipar. Segundo ela, a participação não se resume a audiências públicas, mas sim a criar as condições para que as comunidades entendam, moldem e gerenciem seus próprios projetos a longo prazo após a conclusão da obra. Tais conceitos ganharam destaque no desenvolvimento de La Morada, um empreendimento cooperativo idealizado por uma comunidade feminista e queer. Este projeto priorizou o cuidado como princípio arquitetônico, influenciando desde a tomada de decisões e a acessibilidade até a interação com o ambiente circundante. Gamboa ressalta que diferentes comunidades exigem processos distintos, e a arquitetura deve ser capaz de atender a essas especificidades.
Habitação como Transição Ecossocial
Voltando ao tema do Congresso, Gamboa enquadra a habitação cooperativa como parte de uma transição ecossocial mais vasta, e não como uma categoria arquitetônica isolada. Paralelamente às pesquisas atuais sobre suficiência, a Lacol investiga como a arquitetura pode responder aos limites planetários enquanto possibilita novas formas de convivência coletiva. Neste sentido, os edifícios são encarados não apenas como estruturas físicas, mas como plataformas para o desenvolvimento conjunto da responsabilidade ambiental e da vida comunitária.