Pesquisadores descobriram evidências geológicas em Marte com idade superior a 3,9 bilhões de anos. Essas rochas foram encontradas nas proximidades da cratera Jezero pelo rover Perseverance da NASA. Esta descoberta pode ajudar os cientistas a entender o período da história do Sistema Solar que praticamente desapareceu na Terra devido à tectônica de placas e erosão.
A seção mais antiga estudada
As rochas foram encontradas na borda da cratera Jezero, uma área que já atraía a comunidade científica por sinais de um lago no passado. No entanto, de acordo com o estudo, essas formações são mais antigas que a própria cratera, tornando esta seção a mais antiga que o rover já estudou em Marte.
Estrutura e origem das rochas
A estrutura estudada é conhecida como membro Broom Point. Ela consiste em uma sequência de cerca de 75 metros de espessura, composta por múltiplas camadas de rochas acumuladas ao longo de um longo período. Segundo os pesquisadores, essas camadas não se formaram em um único evento geológico, mas sim gradualmente a partir de detritos causados por impactos de asteroides sucessivos durante um dos períodos mais turbulentos na história do Sistema Solar.
Ken Farley, do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech) em Pasadena (EUA), declarou ao Earth.com: «Desde que saiu da cratera, o Perseverance está explorando uma fronteira completamente nova, tanto geográfica quanto geologicamente — um capítulo do tempo marciano anterior à própria cratera». Ele enfatizou que Marte preservou registros que desapareceram na Terra. «Na Terra, nossa história geológica mais antiga foi fundamentalmente fragmentada, deformada e apagada pela tectônica de placas. Como Marte não possui tectônica de placas para reciclar sua crosta, esse registro antigo permanece intacto, oferecendo-nos um vislumbre raro de um período geológico que não existe em nosso próprio planeta».
Seis tipos de rochas descobertos
Após pousar na margem oeste da cratera Jezero no início de 2025, o Perseverance usou seus instrumentos científicos para estudar a formação Broom Point. Durante o estudo, o rover identificou seis tipos diferentes de rochas. Entre elas estavam brechas, compostas por fragmentos de rochas quebradas misturados com finas camadas de poeira rochosa.
Alguns desses fragmentos contêm pequenas cavidades deixadas por bolhas de gás antigas, indicando que estiveram em estado fundido em algum momento. Os cientistas também encontraram uma grande quantidade de pequenos grãos escuros com aparência vítrea distribuídos por toda a formação. Embora vulcões também possam produzir materiais semelhantes, os pesquisadores afirmam que isso geralmente não ocorre em volumes tão grandes, tornando a hipótese de impactos de asteroides a mais provável. De acordo com o estudo, as maiores partículas têm tamanhos comparáveis ao material ejetado na atmosfera pelo impacto do asteroide Chicxulub, ocorrido há cerca de 66 milhões de anos e que contribuiu para a extinção dos dinossauros na Terra.
Camadas como evidência de impactos
A repetição de diferentes tipos de rochas levou os pesquisadores à conclusão de que a região foi afetada por múltiplos impactos ao longo do tempo, e não por um único grande impacto. Cada impacto, presumivelmente, depositou uma nova camada de detritos sobre as anteriores, formando a espessa sequência observada. Alex Jones, do Imperial College London (Reino Unido), explicou: «As diferentes camadas de rocha são um registro de impactos de tamanhos variados que ocorreram em diferentes distâncias do local de acumulação desta sequência de rochas. Alguns impactos grandes ocorreram muito longe, alguns impactos menores foram próximos. Todos os seus detritos caíram aqui, construindo esta espessa camada de rocha».
Os pesquisadores também identificaram sinais de que algumas camadas podem ter se formado através de fluxos rápidos de detritos movendo-se perto da superfície. Na Terra, fenômenos semelhantes podem ocorrer quando material extremamente quente entra em contato com água ou gelo, produzindo rapidamente uma grande quantidade de vapor. Isso levanta a possibilidade de participação de água ou gelo na formação dessas rochas em Marte.
Dois grandes impactos formaram a região
Outro aspecto que chamou a atenção da equipe é a inclinação das camadas de rocha. Algumas delas possuem ângulos superiores a 80 graus e estão quase verticais hoje. Os pesquisadores concluíram que o impacto responsável pela formação da cratera Jezero, com cerca de 45 quilômetros de diâmetro, não pode explicar essa deformação. A hipótese proposta é que a região foi formada por dois grandes impactos ocorridos em momentos diferentes.
O primeiro impacto provavelmente criou a gigantesca bacia Isis, uma estrutura com cerca de 1930 quilômetros de diâmetro, cujo impacto provavelmente inclinou e deformou as camadas originalmente horizontais. Mais tarde, outro asteroide atingiu a área, formando a cratera Jezero e fragmentando as rochas já inclinadas, levando à formação das estruturas observadas.
Amostras ajudarão a restaurar a cronologia
Para determinar quando esses eventos ocorreram, a equipe do Perseverance coletou duas amostras de testemunho de rocha, nomeadas Bell Island e Main River. Se uma futura missão conseguir trazer este material para a Terra, os pesquisadores poderão usar equipamentos de laboratório para determinar a idade exata das rochas. Essas análises também ajudarão a avaliar a frequência de quedas de asteroides tanto em Marte quanto na Terra primitiva.
Enquanto grande parte desta crônica desapareceu de nosso planeta devido à constante reciclagem da crosta terrestre pelas placas tectônicas, Marte preservou essas evidências graças à sua superfície muito mais antiga e menos alterada. Alex Jones observou: «Durante esta era turbulenta, o que caía do céu não era chuva nem neve, mas quase um bombardeio constante de gotas de rocha derretida e poeira triturada ejetada por impactos de asteroides. Se pudermos determinar a idade dessas camadas, será como ler um relatório meteorológico espacial de 4 bilhões de anos atrás».