Uma pesquisa demonstrou que a presença de cães afeta o comportamento das onças-pardas em zonas de preservação localizadas no interior de São Paulo, levando os felinos a modificarem seus padrões de deslocamento e a evitarem certas áreas.
Contexto da Pesquisa
Cães e seres humanos possuem uma das relações mais antigas da história da domesticação, sendo descendentes dos lobos, processo iniciado há 15 mil a 50 mil anos. Atualmente, a população global de cães excede um bilhão de indivíduos, distribuídos em quase todos os locais habitados por humanos. Embora muitos vivam em ambientes urbanos, existem cães rurais livres, que possuem tutores e alimento, mas transitam por fazendas, estradas e vegetação nativa, chegando a interagir com a fauna silvestre em Unidades de Conservação.
Resultados Surpreendentes
Essa interação motivou um estudo realizado por pesquisadores da Unesp, cujo artigo foi publicado na revista Biological Conservation. A investigação focou em como a presença canina impacta o comportamento da onça-parda, o principal predador terrestre restante em grande parte do estado de São Paulo. Os resultados foram inesperados: ao invés de temerem os cães, as onças alteram seu comportamento para fugir dos locais por onde os cães passaram.
Usando armadilhas fotográficas em duas unidades de conservação no interior paulista, os cientistas observaram que, após a passagem de um cão, a onça-parda leva, em média, 74 horas para retornar ao mesmo ponto, retomando o uso rotineiro da área somente cerca de cinco ou seis dias depois. Este padrão sugere uma estratégia clara de evitar o contato com os cães, mesmo sem haver confrontos diretos.
Impactos Ambientais e Científicos
A presença de cães em ambientes humanos gera impactos ambientais; alguns estudos ligam-nos à extinção de pelo menos 11 espécies de vertebrados e representam ameaça a outras 188, embora a maioria desses estudos se concentre em aves e pequenos animais. Rita Bianchi, bióloga da Unesp, iniciou a análise de grandes felinos devido ao aumento de registros de cães em áreas protegidas monitoradas pelo grupo de pesquisa, o que despertou preocupação sobre as consequências para a fauna nativa.
A onça-parda foi selecionada por ser adaptável a diversos habitats e possuir uma dieta generalista. Os dados das armadilhas fotográficas mostram que cães e onças podem usar os mesmos locais, mas em momentos distintos. A onça não abandona totalmente o ambiente, mas sim reorganiza seu uso espacial ao longo do tempo para diminuir as chances de encontrar cães.
Rodolpho Gonçalves da Silva, primeiro autor do estudo, expressou surpresa, pois esperava que a onça impusesse respeito. Ele destacou que o estudo revelou um impacto sutil: as onças demoram a voltar a áreas após a passagem dos cães.
Paisagem do Medo
A equipe analisou registros de 67 armadilhas fotográficas na Estação Ecológica de Santa Bárbara e na Floresta Estadual de Águas de Santa Bárbara, no interior paulista, durante quase um ano (2014 a 2015). Foram registrados 300 eventos com cães domésticos e 194 registros de onças-pardas. Em 23 pontos, ambas as espécies compartilharam os mesmos locais, permitindo comparação de seus hábitos. Os cães são predominantemente diurnos e ativos em horários de maior circulação humana, enquanto as onças mantêm um padrão crepuscular e noturno, tornando os encontros raros.
Rodolpho enfatizou que este resultado marca um impacto frequentemente ignorado: o animal sofre consequências mesmo sem ser ferido. Ao deixar de usar uma área de boa qualidade, o animal gasta mais energia buscando alimento ou utiliza um ambiente inferior, o que diminui sua qualidade de vida. Ele introduziu o conceito de «paisagem do medo», onde a mera possibilidade de risco altera rotas, horários e áreas de alimentação, mesmo sem conflito direto.
Fatores de Evitação e Causas
Embora os motivos exatos não sejam certos, os pesquisadores suspeitam que a associação dos cães com humanos é um fator. As onças tendem a evitar locais com forte influência humana (fazendas, estradas, lavouras), podendo interpretar os cães como um sinal de presença humana. Rodolpho também cogita confusão por parte das onças, visto que os cães não desenvolveram medo delas. Estatisticamente, foi comprovado que a onça evitava retornar após a passagem dos cães, diferentemente do padrão observado com os cães após a passagem da onça.
Bianchi acrescenta que, embora um cão isolado não represente grande risco, os animais costumam formar matilhas, aumentando o perigo para o felino. Os cães observados não residem nas unidades de conservação, mas vêm de propriedades rurais vizinhas, circulando sem supervisão. Além de competição por alimento e ataques, esses cães podem transmitir doenças e atuar como vetores para a fauna nativa, e vice-versa.
Implicações para a Conservação
Os impactos observados fazem parte de mudanças maiores causadas pela ocupação humana, incluindo agricultura, estradas e fragmentação vegetal. Rita Bianchi alerta que, no interior paulista, os remanescentes de Cerrado e Mata Atlântica estão cada vez mais isolados. Embora a caça tenha diminuído, a crescente presença de pessoas, cães, rodovias e a perda de vegetação representam uma nova pressão sobre as onças-pardas.
Os autores esclarecem que os cães não são os «vilões»; o problema reside na gestão humana. Portanto, defendem políticas públicas articuladas, como castração, identificação eletrônica, vacinação e educação ambiental, em vez de focar apenas na remoção dos animais das áreas protegidas. Rodolpho conclui que a educação é fundamental, devendo-se trabalhar com produtores rurais para conscientizar sobre os riscos de soltar animais.