Durante os 'Diálogos sobre o Mar Profundo', as pesquisadoras Diva Amon e Anna Metaxas, que participaram por videoconferência a bordo do navio de pesquisa R/V Falkor do Schmidt Ocean Institute, discutiram as lacunas de conhecimento sobre as profundezas oceânicas necessárias para avaliar as consequências da mineração de recursos minerais.
Contexto dos debates sobre mineração marinha
Estes debates ocorreram durante a 31ª sessão do Órgão Internacional dos Fundos Marinhos (ISA), realizada em Kingston. O evento foi organizado pelo Blue Ocean Fund, pela União Internacional para a Conservação da Natureza e pelo Fundo Donna Bertarelli. Cientistas, analistas financeiros e juristas participaram das discussões para debater o estado atual do conhecimento e as áreas que necessitam de estudo no contexto da mineração em águas profundas.
Descobertas da expedição e riscos ambientais
Diva Amon, pesquisadora do Laboratório de Ciências Oceânicas Benioff na Universidade da Califórnia, compartilhou sua experiência, observando que cada mergulho traz a expectativa de encontrar espécies desconhecidas. Ela é uma das cientistas a bordo do R/V Falkor, que desde 29 de junho está realizando pesquisas sobre a biodiversidade, habitats e características geológicas das águas profundas de Trinidad e Tobago. Durante a expedição Deep Wonders of Trinidad and Tobago and the High Seas, que durou quase um mês, o veículo SuBastian atingiu o fundo do Mar do Caribe dezenas de vezes, e quase cada viagem resultou em descobertas, algumas feitas a mais de 4000 metros de profundidade.
Ao compartilhar algumas espécies descobertas, Diva Amon enfatizou que os resultados da expedição provam que o fundo do mar permanece um território inexplorado com uma vasta área para estudos futuros. Na opinião dela, essa situação torna impossível uma avaliação completa dos riscos ambientais. A pesquisadora questionou: 'Se sabemos tão pouco, como podemos avaliar o impacto da mineração em águas profundas nas espécies que ainda não conhecemos?'
Regulamentação e dados científicos
A regulamentação da mineração em águas profundas é o tema de discussão na segunda parte da 31ª sessão do ISA, que continua até sexta-feira em Kingston, Jamaica. Após a primeira rodada de negociações, realizada em março na primeira parte da sessão, o ISA continua trabalhando para alcançar o chamado 'Código de Mineração' (Mining Code). Este código definirá as condições, prazos e possibilidade de exploração comercial de minerais nos fundos marinhos internacionais.
Diva Amon afirmou que os países estão começando a reconhecer o valor econômico do oceano, mas devem ser lembrados de que as decisões relativas ao uso sustentável devem ser baseadas em dados científicos. Ela destacou a necessidade de aumentar os investimentos no estudo do fundo do mar. Como exemplo, citou os pequenos estados insulares do Caribe, onde cerca de 80% do território marinho pertence às águas profundas, mas eles não possuem navios para realizar tais pesquisas. Portanto, segundo ela, esses países 'não podem tomar decisões informadas sobre a gestão dos oceanos profundos porque não possuem o conhecimento'.
Mudanças climáticas e poluição
Respondendo a perguntas sobre o impacto das mudanças climáticas no mar profundo, ambas as pesquisadoras confirmaram que a temperatura da água do mar está aumentando mesmo nas zonas mais profundas. Anna Metaxas observou que, provavelmente, não se trata de um aumento brusco, mas um aumento de 1 ou 2 graus Celsius pode ter consequências muito significativas para essas espécies. Ela acrescentou que muitos dados existentes são baseados em modelos, e há necessidade de intensificar a coleta de dados de referência sobre temperatura da água e correntes.
Por sua vez, Diva Amon insistiu que as mudanças causadas pelas alterações climáticas nos oceanos afetam 'todas as partes do planeta' e não podem ser subestimadas. Ela também alertou que a poluição já é observada em áreas remotas do mar profundo. 'A maioria dos mergulhos ocorre em áreas ainda inexploradas, e em quase todas encontramos evidências de poluição', relatou ela.