As obras «Odisseia» e «Ilíada» representam apenas dois segmentos de um ciclo épico maior, composto por oito narrativas distintas relativas à Guerra de Troia. Grande parte do material original foi perdida ao longo do tempo, e eventos cruciais, como a morte de Aquiles ou o assassinato de Odisseu por seu próprio filho, só existem através de fragmentos remanescentes.
Contexto do Ciclo Épico
Muitos leitores estão familiarizados com a Guerra de Troia, especialmente após adaptações cinematográficas recentes, como a de Christopher Nolan. Contudo, é importante notar que nem a «Ilíada» nem a «Odisseia», os poemas homéricos considerados pilares da literatura ocidental, detalham todos esses acontecimentos. Por exemplo, o engenhoso truque do cavalo de Troia é mencionado apenas superficialmente por Homero.
Esses episódios centrais pertencem a outras obras literárias criadas em períodos subsequentes aos poemas homéricos. A «Ilíada» e a «Odisseia» são apenas partes de uma saga vasta que cobre os preparativos para a guerra, o desenrolar do conflito e o destino dos heróis após o término do combate. Estudiosos denominam este conjunto o «Ciclo Épico», que era tradicionalmente recitado pelos bardos na Grécia Antiga.
Perda e Atribuição das Obras
Seis das oito narrativas deste ciclo se perderam historicamente, restando apenas os dois poemas homéricos. O conhecimento sobre as obras perdidas advém de resumos feitos por autores antigos e de citações preservadas em outras criações literárias.
Dos oito poemas, apenas a «Ilíada» e a «Odisseia» são diretamente creditadas a Homero. Embora haja debate sobre a existência de um único autor, é aceito que Homero era visto como o maior poeta pelos gregos antigos, e suas obras eram essenciais na educação das elites, o que pode ter contribuído para sua preservação através de cópias em pergaminhos e livros.
Os outros seis poemas são de autores diversos e são, muito provavelmente, posteriores aos escritos de Homero. Eles parecem ter sido elaborados para construir uma cronologia coesa da Guerra de Troia, visto que a «Ilíada» foca em um trecho específico do conflito, e a «Odisseia» narra o regresso de Odisseu após o fim da guerra.
Análise Cronológica dos Poemas
A seguir, apresentamos os poemas do Ciclo Épico em ordem cronológica dos eventos que narram:
1 – Cypria
Atribuído a Estacino de Chipre, escrito por volta do século 7 a.C., este poema perdido descreve o início da Guerra de Troia. O príncipe Paris, de Troia, é escolhido para julgar uma competição entre as deusas Afrodite, Hera e Atena, decidindo que Afrodite é a mais bela. Como recompensa, Afrodite concede a Paris o amor de Helena, casada com o rei de Esparta, Menelau. Quando Paris leva Helena para Troia, os reis gregos declaram guerra, iniciando um conflito de dez anos. Antes de marchar, Agamenon, rei de Micenas e líder grego, sacrifica sua filha Ifigênia aos deuses. O texto narra a preparação, os primeiros combates e o cerco inicial. A maior parte do que se sabe sobre Cypria provém de um resumo feito por Proclo, e Aristóteles chegou a criticar a obra, achando-a inferior à qualidade de Homero.
2 – Ilíada
Escrito por Homero no século 8 a.C., este poema retrata parte do último ano da Guerra de Troia, concentrando-se no herói Aquiles. Após uma discussão com Agamenon, Aquiles decide deixar o combate. Seu amigo Patróclo é morto pelo príncipe troiano Heitor, forçando Aquiles a retornar à luta. Aquiles confronta e mata Heitor. O poema conclui com Príamo, rei de Troia, suplicando a Aquiles para que devolva o corpo de seu filho para sepultamento, pedido que é atendido. Esta obra está preservada integralmente.
3 – Etiópida
Atribuído a Arctino de Mileto, provavelmente no século 7 a.C., esta obra segue diretamente a «Ilíada». Ela relata a chegada de reforços a Troia contra os gregos. Primeiramente, chegam as amazonas, guerreiras lendárias, e sua rainha, Pentesileia, é morta por Aquiles. Em seguida, chega o exército liderado pelo rei etíope Mêmnon. Mêmnon mata o herói grego Antíloco, provocando a fúria de Aquiles, que o mata em vingança. O clímax é a morte de Aquiles, atingido por uma flecha disparada por Paris. O poema encerra com o funeral de Aquiles e uma disputa sobre quem herdará suas armas: Odisseu ou Ajax. Poucos versos originais sobreviveram, sendo a história conhecida por meio de um resumo de Proclo.
4 – Pequena Ilíada
Lesques, possivelmente no século 7 a.C., narra os eventos subsequentes à morte de Aquiles. É neste poema que o episódio do Cavalo de Troia é detalhado. Durante a disputa pela herança dos equipamentos de Aquiles entre Odisseu e Ajax, os gregos decidem que Odisseu é o mais merecedor, levando Ajax ao suicídio por vergonha. Paris é assassinado pelo herói grego Filoctetes. Os gregos recebem uma profecia de que Troia não cairia enquanto uma estátua de Atena permanecesse na cidade. Odisseu e Diomedes, outro herói grego, disfarçam-se de mendigos e entram na cidade, roubando a estátua de Atena para levá-la ao acampamento grego. Seguindo os conselhos de Atena, os gregos constroem o famoso cavalo e simulam a rendição, terminando com os troianos trazendo o cavalo para dentro da cidade. Vários versos originais sobreviveram por citações, e a narrativa completa foi resumida por Proclo.
5 – Iliupersis ou O Saque de Troia
Atribuído a Arctino de Mileto, provavelmente no século 7 a.C., este poema trata da destruição final de Troia. Inicialmente, os troianos debatem o que fazer com o cavalo grego; a opção de oferecê-lo à deusa Atena prevalece. Eles celebram a aparente vitória, mas à noite, o soldado grego Sinon alerta os gregos, que abrem os portões de Troia silenciosamente. A cidade é invadida, e o poema descreve o massacre de civis e a destruição de edifícios. O rei de Troia, Príamo, é morto por Neoptólemo em um altar de Zeus, um ato considerado profano. Menelau recupera Helena. Posteriormente, os gregos sacrificam a princesa troiana Polixena, filha de Príamo, no túmulo de Aquiles. A extrema violência grega leva até a deusa Atena a decidir puni-los em suas jornadas de regresso.
6 – Nostoi, ou Retornos
Este poema, de autoria incerta (possivelmente Eumelo) e datação incerta (século 8 ou 7 a.C.), narra o regresso de vários heróis gregos após a queda de Troia, tendo paralelos com a «Odisseia». Devido à ira dos deuses pelas atrocidades cometidas no saque, os heróis enfrentam desafios e maldições no caminho de volta. Menelau, rei de Esparta, fica aprisionado no Egito por anos devido a ventos desfavoráveis divinos. A história mais notória é a de Agamenon, rei de Micenas, que é assassinado por sua esposa, Clitemnestra, após dez anos de guerra, pois ela havia mantido um amante. Mais tarde, seu filho, Orestes, mata a mãe e o amante em retaliação. No final, todos os heróis gregos retornaram ou morreram, exceto Odisseu.
7 – A Odisseia
Atribuída a Homero e datada do século 8 a.C., esta é a história conhecida, que inclui o ciclope, a feiticeira Circe, os monstros Círcide e Cila, a ilha de Calipso e uma jornada de dez anos.
8 – Telegonia
Esta sequência direta da «Odisseia», de autoria incerta (possivelmente Eugamón), apresenta um cenário peculiar. Descobre-se que Odisseu teve um filho com a feiticeira Circe em sua ilha, chamado Telégono. Ao saber quem é seu pai, Telégono decide navegar em busca de Odisseu. O poema também detalha as aventuras de Odisseu após seu retorno a Ítaca, incluindo uma viagem à terra de Tesprócia, onde se casa com a rainha Calídice e tem um filho. Ele participa de uma guerra vizinha antes de retornar a Ítaca, deixando seu filho governar. Uma tempestade leva Telégono a uma ilha desconhecida, onde rouba gado e entra em conflito com o dono. Em combate, Telégono fere fatalmente o homem com uma lança mágica envenenada de Circe. Ele então percebe que a ilha é Ítaca e que o homem moribundo é seu pai, Odisseu. Os dois se reconhecem e lamentam a tragédia. Telégono decide levar o corpo de seu pai para ser enterrado na ilha de Circe, acompanhado por Penélope e Telêmaco. Lá, Circe concede imortalidade aos três. O desfecho bizarro envolve Penélope casando-se com Telégono e Telêmaco casando-se com Circe. Todo este conhecimento provém de Proclo.