A história de Maha começou ao nascer com dois irmãos. Seus pais, um cristão sírio e outro muçulmano sírio, mudaram-se para o Líbano logo após se conhecerem para manter o amor que as diferenças religiosas proibiam em seu país natal.
Problemas de Cidadania no Líbano
Maha Mamo contou à agência Lusa que no Líbano, onde uma mulher não pode transmitir cidadania aos filhos, existe apenas o conceito de que uma pessoa é libanesa se seu pai for libanês. Eles não tinham pátria, certidões de nascimento, documentos de identidade, passaportes ou quaisquer documentos que comprovassem sua existência legal, embora isso não tenha afetado sua infância.
Busca por Reconhecimento e Educação
Maha sentiu-se diferente quando adolescente e foi convidada para um time profissional de basquete, mas não conseguiu entrar. Inicialmente, ela pensou que a razão era sua origem síria, mas quando um grupo de estudantes foi em uma missão voluntária na Jordânia e Maha ficou para trás, ela percebeu que não era isso. A verdadeira razão ficou clara quando ela tentou ingressar na universidade.
Ela queria estudar medicina, mas a universidade recusou sua matrícula, alegando que, como não era libanesa, não poderia estudar, apesar das notas suficientes, pois eram necessários documentos. Até os inúmeros serviços que sempre a ajudavam no Líbano não foram suficientes. No final, ela ingressou em uma universidade particular, que não tinha curso de medicina, mas que lhe permitiu obter um diploma em seu nome, ainda que formalmente inválido. Ela escolheu sistemas de informação.
Solicitações de Asilo
A partir dos dezesseis anos, quando a internet se tornou amplamente disponível, Maha começou a enviar pedidos de asilo às embaixadas de todos os países, continuando essa tarefa por dez anos, recebendo apenas recusas. Somente em 2014 ela encontrou esperança. Durante a crise dos refugiados sírios, o Brasil introduziu um visto humanitário especial para essa nacionalidade, que era a nacionalidade de seus pais.
Maha Mamo recorda que alguém leu sua história e sugeriu que poderia haver um 'jeito brasileiro' de ajudá-la. Como muitos refugiados tinham documentos queimados devido à guerra, a embaixada do Brasil decidiu que os três irmãos poderiam se mudar para este país, onde poderiam obter novos documentos. Embora nenhum deles falasse português, não conhecesse ninguém no Brasil nem nada sobre o país, eles foram para lá, considerando isso sua última esperança.
Mudança e Início de uma Nova Vida
Os pais permaneceram no Líbano, onde o pai operava um pequeno caminhão e podia lhes enviar dinheiro. Assim, o único contato que eles tinham no novo país foi com uma família de Minas Gerais, onde uma amiga estudante foi uma vez. Maha lembra-se da despedida dos pais no último dia no Líbano e da incerteza de começar tudo de novo, sem ter nada para se agarrar.
Ela disse que levou oito malas, embalando coisas sobre as quais hoje nem sequer pensaria. Ela nunca havia voado em avião nem viajado, não sabia o que levar e não imaginava como seria o clima no Brasil. O último item que colocou no bolso foi a chave de casa, sabendo que nunca voltaria. Esse dia foi uma mistura de felicidade e infelicidade: era tudo o que ela sonhou durante 26 anos, mas estava deixando para trás tudo: sua comunidade, amigos, família, para ir para um lugar onde não sabia se havia farmácia ou supermercado.
Luta por Direitos e Apoio
Ela imediatamente começou a procurar maneiras de obter a cidadania brasileira e, nesse processo, encontrou uma campanha lançada pela ONU chamada '#Ibelong'. Isso mostrou-lhe que existem milhões de pessoas como ela em todo o mundo, embora ela pensasse que estava sozinha. No caminho, ela conheceu Bella, que agora é sua esposa, e ela disse a ela que o único caminho era se tornar refugiada.
Bella, sendo voluntária em uma ONG que ajuda haitianos no Brasil, informou-lhe: 'Há uma boa notícia e uma má notícia'. A boa notícia era que solicitar asilo dava acesso a itens básicos, como saúde e carteira de motorista, que era seu sonho, e também permitia trabalhar legalmente. A má notícia era que a naturalização poderia levar 20 anos devido à falta de leis para apátridas. Maha admitiu que ficou desapontada, mas viu a luz no fim do túnel.
Seis meses depois, Bella entrou em contato com ela sobre a participação em um documentário de televisão, e Maha concordou. Isso deu início a uma série de conferências e palestras destinadas a chamar a atenção para o problema das pessoas apátridas, que ela apoia até hoje. Quando estava no Brasil há um ano e meio, ela recebeu o status de refugiada. Ela expressou alegria, observando: 'É triste falar sobre quem sonha em ser refugiado? Mas pela primeira vez tínhamos um documento.'
Tragédia e Ativismo
No entanto, a revolução não parou por aí. Um mês depois, seu irmão mais novo morreu em um assalto. Maha lamentou sua morte, ele não tendo obtido a cidadania, e observou que, como sua existência estava registrada, sua morte também era inexistente. Ela declarou: 'O que acontece quando você morre sem cidadania? Nada. Você não é enterrado'. O irmão conseguiu obter um atestado de óbito como refugiado, e as duas irmãs decidiram levar o corpo para o Líbano para que os pais pudessem se despedir.
Foi no momento da perda do irmão que Maha se reencontrou. Ela parou de trabalhar e de fazer tudo o mais, concentrando-se na advocacia. Ela começou a participar de entrevistas de TV e jornais, contando sua história. A ONU começou a convidá-la para eventos. Em 2018, ela e sua irmã se tornaram as primeiras apátridas na história do Brasil a obterem a cidadania. Desde então, dedicou sua vida a essa causa e contribuiu para mudanças legislativas em 13 países.
Metas Futuras e Ajuda
Atualmente, seu objetivo é ajudar as pessoas apátridas em Portugal, onde moram sua irmã e mãe. Ela proferiu palestras, reuniu-se com juízes, contou sua história no parlamento e deseja muito ver a ratificação do novo estatuto de apátridas aprovado pelo Presidente da República no início deste mês. Por isso, em agosto, ela vai para Portugal para comemorar os 40 anos de sua irmã e tentar conversar com António Jesus Seguro.
Ao retornar ao Líbano para uma palestra em sua antiga escola, ela encontrou um menino apátrida, filho de um relacionamento extraconjugal. Este menino, que mais tarde se tornou órfão, foi criado pela tia, colega de escola de Maha. Essa tia acompanhava-a nas redes sociais e entrou em contato com ela. Elas criaram um grupo e começaram a arrecadar fundos para realizar um teste de DNA do menino. Na semana passada, receberam a confirmação de que seu avô era libanês. Ele ainda não sabe disso. Estão esperando a chegada dos documentos para informar a ele que ele é libanês e tem cidadania.
Maha reconheceu que há muito mais pessoas precisando de ajuda no Líbano e em muitos outros lugares do mundo, pois esse problema reflete uma 'forte ausência de maturidade e humanidade'. Ela concluiu: 'Não escolhemos onde nascer, não escolhemos quem serão nossos pais, mas ninguém deve viver sem a possibilidade de existir.'
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