Uma nova pesquisa, que aplicou métodos forenses modernos aos restos mortais de três crianças sacrificadas em um ritual do Império Inca há 500 anos, mostrou que suas mortes não ocorreram como se supunha anteriormente. Esses corpos foram encontrados no Chile e preservados graças à mumificação natural em condições de baixas temperaturas e clima árido dos Andes.
Revisão das hipóteses de morte
Arqueólogos reexaminaram os casos de um menino encontrado na montanha Cerro El Plomo em 1954 e de duas meninas descobertas em Cerro Esmeralda em 1976. Por muito tempo, acreditou-se que o menino havia morrido de hipotermia no cume, e as meninas, por asfixia. No entanto, novas análises, publicadas na revista Science Advances, refutam essas suposições.
De acordo com as novas conclusões, o menino foi morto por trauma craniano causado por um objeto contundente. Quanto às meninas de Cerro Esmeralda, a situação é mais complexa: a equipe de pesquisa afirma que os supostos sinais de asfixia foram, na verdade, causados pelas roupas após a morte. Isso é confirmado pelo fato de que os ossos de seus pescoços não apresentavam sinais de fraturas ou deslocamentos característicos da maioria dos casos de estrangulamento. Atualmente, a causa da morte das meninas é considerada 'indeterminada'.
O Ritual Capacocha e a Cultura Inca
Esses casos são exemplos conhecidos do antigo ritual incaico conhecido como capacocha. Essa prática envolvia longas peregrinações a picos de montanhas sagradas e santuários remotos, onde eram realizados sacrifícios humanos. Como preparação, as pessoas escolhidas para a cerimônia percorriam milhares de quilômetros por meses através de comunidades incas sagradas antes de morrer.
Veronica Silva-Pinto, arqueóloga do Museu Nacional de História Natural do Chile e autora do artigo, enfatiza que o estudo das múmias deve levar em conta as crenças dos povos andinos, que não viam a morte como o fim da existência. O sacrifício pelos Incas não se limitava apenas a crianças; jovens homens e mulheres eram escolhidos para apaziguar os deuses e espíritos sagrados das montanhas. Ser escolhido era considerado uma grande honra tanto para as vítimas quanto para suas famílias. Silva-Pinto observou que 'os indivíduos propostos adquiriam um novo status ritual e podiam se tornar intermediários entre as comunidades, as montanhas, os deuses e o estado.'
Análise Isotópica e Deslocamento
Os resultados do estudo ecoam dados de outro artigo publicado no início de 2026, que também estudou múmias de crianças incas e chegou à conclusão de que suas mortes foram violentas. O menino de El Plomo, conhecido como 'Niño de El Plomo', foi sacrificado por volta de 1480, quando tinha cerca de 8 ou 9 anos, perto do cume do Cerro El Plomo, no centro do Chile. As duas meninas, uma com cerca de 9 anos e outra com 18, foram sacrificadas aproximadamente 30 anos antes, perto do cume do atual Cerro Esmeralda, no deserto de Atacama, no norte do Chile.
Os arqueólogos chegaram a essas conclusões por meio da análise isotópica de cabelos, dentes e ossos. Os isótopos, sendo variações de um mesmo átomo, contêm informações sobre a dieta humana. As proporções de diferentes isótopos fornecem pistas sobre os locais onde essas crianças viveram. Assim, os especialistas conseguiram reconstruir os deslocamentos das vítimas nos meses que antecederam o sacrifício. Os isótopos mostraram que as crianças se deslocaram grandes distâncias entre 'regiões ecologicamente distintas'. Estima-se que Niño de El Plomo percorreu de 2600 a 2800 quilômetros nos últimos nove meses, provavelmente partindo de Cusco, a capital inca. As meninas de Cerro Esmeralda, presumivelmente, percorreram de 900 a 1200 km nos últimos três meses.
Silva-Pinto explica que 'ao longo das rotas, as comunidades locais recebiam os peregrinos e participavam de cerimônias relacionadas à troca de alimentos e bebidas'. No entanto, a bioarqueóloga Dagmar Socha, da Universidade de Varsóvia, Polônia, que não participou da pesquisa, adverte contra conclusões precipitadas. Ela observa que 'a análise isotópica por si só não permite reconstruir com precisão a rota potencial da viagem'. Segundo ela, muitas vezes as variações isotópicas não são estatisticamente significativas e podem refletir apenas mudanças sazonais na dieta.