A África do Sul não pode mais considerar os eventos climáticos extremos como meros contratempos na agricultura. O problema tornou-se central para garantir a segurança alimentar, sustentar meios de subsistência e o desenvolvimento económico, o que deve orientar o desenvolvimento de programas agrícolas, o apoio aos agricultores e os investimentos nas comunidades rurais.
O impacto do clima nas explorações agrícolas
Para as comunidades agrícolas, o clima vai muito além das previsões diárias; ele determina a sobrevivência das colheitas, o acesso ao gado, a colocação dos produtos no mercado e o rendimento das famílias. As recentes chuvas fortes, inundações e condições frias no Cabo Oriental demonstraram vividamente esta realidade: estradas foram danificadas, campos alagaram e muitos agricultores tiveram dificuldade em chegar ao gado, às colheitas e aos mercados.
Embora as chuvas tenham aliviado a situação em algumas áreas que sofreram longas secas, a sua intensidade mostrou que o excesso de precipitação pode ser tão destrutivo quanto a sua falta. As consequências vão além das fazendas individuais. Uma avaliação preliminar das tempestades de maio de 2026 pela Hortgro estimou danos potenciais e perdas de produção de 6,3 mil milhões de rand na indústria de maçãs e frutas de caroço no Cabo Oriental e Oeste, colocando em risco mais de 6700 empregos agrícolas diretos. Jardins, terras aráveis, barragens, infraestrutura hídrica, oficinas de embalagem, unidades de refrigeração, estradas e redes elétricas foram afetados.
A necessidade de testar inovações em condições reais
Estes eventos sublinham uma dura verdade: os agricultores esperam cada vez mais não apenas produzir alimentos, mas fazê-lo adaptando-se constantemente a condições ambientais imprevisíveis e frequentemente extremas. Na Inmed África do Sul, a equipa enfrentou problemas semelhantes durante os testes de açafrão no Cabo Oriental. O açafrão é uma cultura de alto valor, capaz de ajudar pequenos agricultores a diversificar os seus rendimentos e participar em novos mercados, mas o seu sucesso depende de condições de crescimento rigorosamente controladas.
O excesso de chuva e a saturação prolongada podem afetar negativamente a saúde do solo, retardar os trabalhos de campo e causar stress às plantas jovens. As condições recentes dificultaram o acesso das equipas de projeto aos locais de teste, atrasaram as visitas de monitorização e interromperam as atividades de campo planeadas. Embora isto possa ser simplesmente chamado de um fracasso, as inovações agrícolas raramente seguem um caminho previsível ou ininterrupto. Os testes devem ser realizados nas condições que os agricultores realmente enfrentam, e não apenas em circunstâncias ideais. Compreender como o açafrão se comporta com o excesso de chuva é tão importante quanto medir o seu progresso em condições favoráveis.
A importância da experiência e resiliência
Cada estação difícil traz conhecimento, fornecendo mais informações sobre preparação do solo, drenagem, gestão de culturas, seleção de locais e apoio que os agricultores podem precisar para cultivar novas culturas com sucesso. Assim, o valor de um teste agrícola é determinado não apenas se a cultura cumpre o plano, mas também pelo que nos ensina sobre riscos, adaptação e a realidade da implementação de novas oportunidades de subsistência em comunidades vulneráveis ao clima.
A resposta dos agricultores do Cabo Oriental demonstrou novamente a determinação e a engenhosidade inerentes às comunidades agrícolas sul-africanas. Os agricultores moveram o gado para locais mais seguros, protegeram a infraestrutura sempre que possível, superaram estradas danificadas e apoiaram-se mutuamente durante inundações, isolamentos e geadas. No entanto, não se pode depender apenas da resiliência dos agricultores; é necessário resolver os problemas sistémicos que os tornam vulneráveis. Os agricultores resilientes também necessitam de infraestrutura fiável, formação prática, informação credível, tecnologias adequadas e acesso a apoio financeiro e técnico.
Responsabilidade coletiva pela sustentabilidade climática
A sustentabilidade climática deve ser integrada em todas as fases do desenvolvimento agrícola. Isto inclui a escolha de culturas e variedades adequadas às condições locais, a melhoria da gestão do solo e da água, o reforço dos sistemas de drenagem e a promoção de métodos de produção eficientes em termos de água. Também é importante ajudar os agricultores a diversificar as suas culturas e fontes de rendimento, para que um único evento extremo não destrua toda a fonte de subsistência. A infraestrutura desempenha um papel igual: uma quinta produtiva não conseguirá contribuir para a segurança alimentar ou para o desenvolvimento económico local se estradas danificadas impedirem a entrega de produtos aos mercados.
Transição da reação para a preparação
Os eventos climáticos extremos continuarão a testar os sistemas alimentares da África do Sul. A questão é se continuaremos a reagir após um desastre ou se investiremos em ajudar os agricultores a preparar-se, adaptar-se e recuperar de forma mais eficaz. Os programas de apoio a pequenos e novos agricultores devem incluir o planeamento de riscos climáticos desde o início. Os agricultores precisam de recomendações práticas sobre mudanças climáticas, escolha de culturas, gestão do solo, eficiência hídrica e preparação para desastres naturais, bem como acesso a métodos de agricultura climaticamente informada que reduzam a dependência de condições de cultivo imprevisíveis.
O trabalho da Inmed em agricultura adaptativa inclui abordagens como aquaponia, produção alimentar eficiente em termos de água, testes de culturas de alto valor, desenvolvimento de competências e apoio a empresas a nível comunitário. Estes modelos não são soluções únicas para um problema complexo, mas sim parte de esforços mais amplos para fornecer aos agricultores mais ferramentas, conhecimentos e opções de subsistência. O teste de açafrão no Cabo Oriental contribui para este aprendizado. O clima recente testou o programa, mas também aprofundou a compreensão do que será necessário para apoiar futuros produtores. Ao combinar a experiência das comunidades agrícolas com pesquisas, práticas climaticamente informadas, infraestrutura fiável e parcerias de longo prazo, é possível construir sistemas agrícolas capazes não só de sobreviver a temporadas difíceis, mas também de continuar a produzir alimentos, rendimento e oportunidades.