Cientistas da China desenvolveram uma célula solar de três camadas que combina perovskita e silício, demonstrando uma tensão recorde de 3,15 volts. O principal avanço foi a capacidade de estabilizar a camada superior de perovskita, que é a mais vulnerável, utilizando um sal orgânico.
Princípio de funcionamento dos elementos tandem
As células solares tandem (bicamadas) oferecem maior eficiência em comparação com as células de silício padrão devido ao uso mais eficaz da luz solar. No entanto, a estrutura não se limita a duas camadas; é possível adicionar uma terceira, quarta ou até quinta camada fotoativa. Para alcançar a máxima eficiência geral, a banda proibida das camadas superiores deve ser mais larga, pois os fótons devem ser distribuídos entre as camadas em ordem decrescente de energia.
Problemas dos análogos de perovskita
Ao contrário dos elementos de três camadas baseados em arsenieto de gálio e semicondutores III-V, que já são usados no espaço com eficiência superior a 40 por cento, os análogos baseados em perovskita e silício enfrentam dificuldades. A camada inferior é geralmente feita de silício com uma largura de banda proibida de 1,12 eletrôvolt, enquanto a segunda e a terceira são de perovskita. O maior desafio é obter e manter a estabilidade da terceira camada, que requer uma largura de banda proibida de 1,8 eletrôvolt ou mais.
Mecanismo de instabilidade
Para expandir a banda proibida da perovskita, parte dos íons de iodo na rede cristalina é substituída por bromo. Um teor excessivo de bromo provoca segregação de fase: os íons começam a migrar, levando à formação de regiões heterogêneas com composições diferentes — onde o bromo predomina e onde o iodo predomina.
Solução para o problema de estabilização
Cientistas chineses, sob a liderança de Hai Zhen Tang da Universidade de Nanquim, conseguiram criar um elemento perovskita de três camadas eficiente e estável. A estrutura utilizou uma célula heterojunção de silício com superfície texturizada como camada inferior. Acima dela, há uma perovskita com largura de banda proibida de 1,52 eletrôvolt, e a camada superior é uma perovskita ultra-wide band Cs0,25FA0,6MA0,15Pb(I0,43Br0,57)3 com uma banda proibida de 1,93 eletrôvolt, que era a principal fonte de problemas de estabilidade.
Papel dos aditivos orgânicos
Para prevenir a segregação de fase na perovskita, Tang e sua equipe incorporaram o sal orgânico 1,4-fenilenodiamina diidroiodeto (PEDAI). Este aditivo forma ligações fortes com a estrutura cristalina, aumentando a barreira de migração de íons e promovendo maior homogeneidade da camada. Adicionalmente, as moléculas de PEDAI ocupam vazios e ligam-se aos íons de chumbo, reduzindo o número de defeitos dentro da perovskita. A superfície da camada também foi tratada com outro sal orgânico — 3MTPAI, que ajudou a reduzir o número de defeitos de contorno e melhorou o processo de transferência de elétrons.
Resultados e perspectivas
Como resultado, foi obtido um dispositivo com eficiência de 26,18 por cento, confirmado por perícia independente, e uma tensão recorde de 3,15 volts. Embora essa eficiência ainda seja inferior à dos tandems bicamadas que atingiram 35,5 por cento neste mês, os autores esperam um rápido aumento da eficiência nos próximos anos. Em relação à estabilidade, os dispositivos apresentaram resultados dignos, mantendo 96 por cento da eficiência inicial após 1500 horas de operação contínua. Existe a hipótese de que os aditivos de sal propostos por Tang possam ser aplicados também para aumentar a estabilidade dos tandems bicamadas padrão.