A vacina contra a dengue Qdenga recebeu aprovação na Índia. No entanto, permanece em aberto a questão sobre os prazos para o início da vacinação em massa, o mecanismo de ação do medicamento e a conveniência de seu uso. Esses aspectos foram analisados detalhadamente pelo especialista em política de saúde, Dr. Chandrakant Lahriya.
Evolução da Ameaça da Dengue
Anteriormente, quando as doenças transmitidas por mosquitos causavam maior medo, as pessoas temiam a malária, e a dengue era considerada uma doença menos perigosa. No entanto, nas últimas duas décadas, a situação mudou drasticamente: a dengue está se espalhando ativamente não apenas na Índia, mas também em muitos outros países do mundo.
Na Índia, os casos dessa doença são frequentemente registrados durante e após a estação das monções, levando à hospitalização de um grande número de pacientes e, em alguns casos, a óbitos. O principal problema é a ausência de medicamentos antivirais especializados para tratar a dengue. É por isso que o desenvolvimento de uma vacina sempre foi um desafio complexo para os cientistas. Embora várias vacinas tenham surgido anteriormente, cada uma delas tinha limitações específicas relacionadas a dados científicos, segurança ou área de aplicação.
Importância da Aprovação da Qdenga
Neste contexto, a obtenção da permissão de uso da vacina Qdenga pelo Diretor Geral de Controle de Medicamentos da Índia (DCGI) é um passo significativo adiante. O Dr. Chandrakant observa que, para um país como a Índia, esta vacina pode se tornar uma nova ferramenta no combate à dengue, já que a doença deixou de estar restrita a uma única estação e agora se espalha rapidamente nas cidades, retornando repetidamente.
No entanto, o especialista enfatiza que a aprovação regulatória da vacina e sua implementação bem-sucedida no sistema de saúde pública são dois processos diferentes. Mesmo que a vacina se mostre eficaz, seu impacto será limitado se for muito cara, não alcançar os grupos populacionais corretos ou permanecer inacessível para amplas camadas da sociedade. Atualmente, a Qdenga está autorizada para venda, mas espera-se que não chegue ao mercado nos próximos seis meses; o primeiro lote está previsto para o início de 2027.
Escopo do Problema na Índia
Segundo o Dr. Chandrakant, a Índia está entre os países que suportam o maior fardo de incidência de dengue no mundo. Estima-se que a Índia seja responsável por cerca de um terço de todos os casos mundiais de dengue. Nas últimas duas décadas, o número de casos de dengue no país aumentou mais de onze vezes.
De acordo com dados oficiais, em 2025, foram registrados cerca de 120 mil casos e 131 mortes no país. O histórico de vacinação nesta região demonstra a necessidade de extrema cautela. A vacina Dengvaxia, da empresa francesa Sanofi, foi inicialmente vista como um grande avanço, mas mais tarde descobriu-se que em pessoas que nunca haviam tido dengue, o risco de desenvolver formas graves da doença após uma infecção subsequente poderia aumentar. Esse fenômeno é chamado de amplificação dependente de anticorpos. Devido a isso, tornou-se necessário realizar testes de infecção prévia antes da vacinação, o que complicou sua aplicação em larga escala.
O escândalo ocorrido nas Filipinas também afetou a confiança pública. Essa experiência ensinou uma lição: em vez de rejeitar as vacinas contra a dengue, é preciso entender profundamente a natureza complexa do vírus da dengue e do sistema imunológico. Portanto, não se deve demonstrar entusiasmo excessivo antes de obter provas científicas.
Vantagens da Vacina Qdenga
O Dr. Chandrakant aponta que a vacina Qdenga difere de outros medicamentos. É uma vacina viva, mas atenuada, que oferece proteção contra todos os quatro tipos do vírus da dengue. Sua base é o vírus DENV-2 atenuado, ao qual foi adicionada informação genética dos outros três tipos de vírus da dengue. Na Índia, ela foi aprovada para pessoas de 4 a 60 anos e é administrada em duas doses com intervalo de três meses.
A principal vantagem da Qdenga é que não requer verificação prévia de infecção anterior da dengue para sua administração. Os ensaios clínicos mostraram resultados encorajadores: após um ano, a vacina foi eficaz contra casos confirmados de dengue em cerca de 80%. Alguns estudos demonstraram eficácia superior a 90% na redução do risco de hospitalização. Cerca de quatro anos e meio depois, sua eficácia na prevenção de hospitalizações permaneceu em cerca de 84%, e a proteção contra infecção geral por dengue em cerca de 61%. Esses dados geram esperança, mas exigem uma abordagem ponderada.
O especialista acredita que esta vacina oferece uma proteção mais eficaz contra formas graves da doença e hospitalização do que a prevenção total da infecção, o que por si só é um grande sucesso. Após sua implementação na Índia, o monitoramento contínuo, a relatoria transparente e a realização de estudos locais em diferentes estados, grupos etários e tipos de vírus são cruciais.
Reconhecimento Internacional e Produção
A Qdenga recebeu qualificação preliminar da Organização Mundial da Saúde (OMS) e foi aprovada em mais de 40 países. A empresa Takeda planeja produzir esta vacina na Índia em parceria com a empresa indiana Biological E, de Hyderabad. Isso permitirá a produção anual de cerca de cinquenta milhões de doses, e até 2030, o objetivo é atingir uma produção global de 100 milhões de doses por ano, o que pode fazer da Índia um grande centro de produção de vacinas contra a dengue.
Estratégia de Implementação da Vacinação
A Índia precisa decidir como exatamente utilizar esta vacina. O início de um programa de vacinação universal em todo o país não será nem economicamente simples nem cientificamente justificado, pois o risco de dengue é distribuído de forma desigual pelo território. É muito mais apropriado iniciar a introdução gradual da vacina nas regiões onde a carga de morbidade é mais alta.
O governo deve considerar a compra governamental para grupos de risco, estabelecer preços diferentes para os setores público e privado e garantir a acessibilidade através da produção local. Paralelamente à vacinação, é necessário fortalecer o sistema de vigilância: coletar dados precisos em nível distrital, garantir relatórios completos de hospitais e laboratórios privados e determinar qual cepa do vírus da dengue circula em cada região. Sem esses dados científicos, o programa de vacinação não poderá ser eficaz. Priorizar um número limitado de vacinas nas áreas mais afetadas será muito mais útil do que a distribuição uniforme por todo o país.
Necessidade de Combate aos Mosquitos
É importante lembrar que o surgimento da vacina não significa o fim da necessidade de controle de mosquitos. A maneira mais eficaz de proteção contra a dengue continua sendo a eliminação dos locais de reprodução dos mosquitos. É preciso prevenir o acúmulo de água em casas e ao redor delas, melhorar os sistemas de drenagem, aplicar larvicidas quando necessário e realizar fumigação com base científica. As pessoas também devem continuar usando repelentes, telas mosquiteiras, redes em janelas e roupas que cubram todo o corpo, e o diagnóstico oportuno, a ingestão adequada de líquidos e o tratamento correto podem prevenir muitas mortes por dengue grave.
A responsabilidade também recai sobre o nível pessoal. Quando a vacina estiver disponível para pessoas de 4 a 60 anos e seus custos e outras informações necessárias estiverem claros, elas podem considerar a vacinação após consultar um médico qualificado. Aqueles que podem pagar pela vacina privadamente não são obrigados a esperar pelo início do programa nacional, mas é importante entender que a vacina é apenas um nível adicional de proteção. Não é motivo para ignorar a água acumulada em barris, coolers, vasos ou ralos.
Atualmente, a temporada de dengue começou no Norte da Índia. A Qdenga é inegavelmente um feito importante, mas seu sucesso real dependerá de quão acessível ela será, como será implementada, quem a receberá e quão forte será o controle de seu uso. A Índia ganhou uma arma nova e eficaz no combate à dengue, mas se ela se tornará uma proteção real para milhões de pessoas dependerá não do momento da aprovação, mas das ações subsequentes.