O vice-primeiro-ministro do Líbano, Tarek Mitri, informou ao Middle East Eye que a estrutura existente das relações entre Israel e Líbano é inadequada em sua forma atual e não pode se tornar um acordo juridicamente vinculativo sem a aprovação do governo libanês.
Papéis Constitucionais e Status do Acordo
Mitri enfatizou a distinção entre a função constitucional do presidente do Líbano de negociar em nome do país e o dever do Conselho de Ministros de aprovar qualquer tratado final. Ele caracterizou essa estrutura como uma fase inicial do processo.
De acordo com a constituição do Líbano, o presidente tem o direito de negociar, mas qualquer acordo proposto deve ser apresentado ao gabinete de ministros. Segundo Mitri, isso ainda não aconteceu, o que significa que o documento não é legalmente consolidado nem aprovado pelo governo.
Em uma entrevista em seu escritório em Beirute, Mitri observou: 'A palavra acordo não aparece em nenhum lugar deste texto'. A estrutura, acordada com mediação dos EUA e destinada a cessar os combates entre Israel e Hezbollah, foi assinada pelo Líbano e por Israel em Washington em 26 de junho.
Reação das Partes e Exigências
Após a assinatura, o acordo gerou ampla oposição no Líbano, levantando questões sobre soberania, responsabilidade e disposições que colocam as obrigações do Líbano acima das obrigações de Israel. O Hezbollah condenou esta estrutura, afirmando que ela não garante a retirada total das tropas israelenses do território libanês, onde ele continua a ocupar cerca de seis por cento, nem assegura o retorno de centenas de milhares de deslocados para o sul.
Mitri reconheceu que a proposta não atende a todos os requisitos do Líbano, mas a classificou como um começo, e não uma resolução final. Ele acrescentou que a estrutura 'não é um acordo definitivo, bem estruturado e juridicamente vinculativo'. Ele também concordou que 'muitos estão divididos sobre isso', sugerindo que ainda há muito trabalho político a ser feito antes de alcançar um amplo apoio dentro do Líbano.
Mitri destacou as declarações de Israel feitas logo após a divulgação da estrutura como prova de suas deficiências e um reconhecimento de que Israel não se considera vinculado a ela. Ele citou a declaração do Ministro das Relações Exteriores e Ministro da Defesa Netanyahu, feita vinte e quatro horas após a publicação da estrutura trilateral: 'Permanecemos no sul do Líbano. Não recuamos.'
Natureza do Conflito e Situação Humanitária
Mitri descreveu o conflito como 'uma guerra que o Líbano não queria nem procurou', afirmando que se transformou em uma guerra contra todo o Líbano, e não apenas contra o Hezbollah. Ele mencionou que o Hezbollah lançou foguetes contra Israel em 2 de março após o assassinato do líder supremo iraniano Ali Khamenei com participação dos EUA e Israel.
Na opinião de muitos libaneses, as ações do Hezbollah deram a Israel um motivo para iniciar uma campanha militar. O grupo insiste que agiu para proteger o Líbano, prevenindo um ataque israelense inevitável. Mitri observou que esses narrativas contraditórias devem ser resolvidas através de diálogo nas instituições estatais do Líbano após o estabelecimento de um cessar-fogo.
De acordo com as autoridades libanesas, desde o início da guerra em 2 de março, Israel causou mais de 4300 vítimas. O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento relatou que Israel destruiu completamente mais de 11.000 edifícios no sul do Líbano, e mais de 2200 edifícios sofreram danos parciais. Mitri concluiu: 'Quando a guerra começou no Líbano, parecia um campo de batalha entre Israel e Hezbollah. Mas Israel travou uma guerra contra o Líbano.'
Aspectos Legais e Desarmamento
A disposição que suspende as ações legais e políticas entre as partes durante as negociações causou preocupação entre especialistas em direitos humanos e advogados libaneses, que temem que isso possa isentar Israel de responsabilidade. Mitri, que lidera a Comissão Nacional do Líbano sobre Direito Internacional Humanitário, declarou que o trabalho do Estado na documentação de crimes de guerra continua e 'não pode ser interrompido' de acordo com o Artigo 13.
Ele acrescentou que o Líbano nunca processou Israel no tribunal internacional 'por várias razões', observando que nenhum dos países é signatário do Estatuto de Roma. No entanto, ele informou que a documentação da comissão pode ser usada pelos cidadãos libaneses para apresentar ações contra Israel em tribunais com jurisdição universal no exterior. Mitri também garantiu que o governo foi informado de que o Artigo 13 não encerra permanentemente as ações legais contra Israel, pois a pausa nos processos judiciais durante as negociações é uma prática comum em outros processos de paz, incluindo África do Sul e Argélia.
Questão do Desarmamento do Hezbollah
Os esforços do estado libanês para estabelecer controle sobre as armas e a questão do desarmamento do Hezbollah tornaram-se um dos problemas centrais mais sensíveis para o governo. Pouco depois de o Hezbollah abrir fogo contra Israel pela primeira vez em março, o governo proibiu o grupo de realizar qualquer atividade militar. No ano passado, o governo do Líbano incumbiu o exército de desenvolver planos para desarmar o grupo, o que gerou receios de guerra civil, apesar de funcionários, incluindo o presidente e o primeiro-ministro, afirmarem que não pretendem um confronto militar com o Hezbollah.
No início de março, o Middle East Eye relatou tensões entre o primeiro-ministro Najib Salam e o chefe do exército Rudolf Aykal devido a desacordos sobre como lidar com o Hezbollah e implementar a proibição. Fontes indicaram que Najib estava considerando demitir Aykal por se recusar a confrontar o grupo em meio à guerra. Mitri insistiu que o desarmamento do Hezbollah é uma questão política, rejeitando a ideia de que o exército do Líbano deva ou deva confrontar o grupo pela força para estabelecer sua autoridade em todo o Líbano.
Ele enfatizou: 'O desarmamento do Hezbollah não é uma questão técnica. Não é uma questão de equilíbrio de poder militar entre o exército e a estrutura militar do Hezbollah — é antes de tudo uma questão política'. Mitri observou que houve pouca discussão sobre isso nos últimos meses, acrescentando que 'durante a guerra, o diálogo se torna difícil', embora tenha declarado que as negociações são inevitáveis, chamando isso de 'assunto libanês'.
Papel dos Mediadores e Cooperação Regional
O conflito atual é o terceiro grande confronto entre Israel e Hezbollah desde a guerra de 33 dias em 2006, que terminou em um cessar-fogo mediado pela ONU, que manteve a fronteira calma por quase duas décadas. Comparando as negociações atuais com aquelas que puseram fim à guerra de 2006, Mitri observou que o Líbano opera em um cenário diplomático completamente diferente, onde o Conselho de Segurança da ONU e a diplomacia multilateral foram 'colocados em segundo plano'.
Mitri afirmou que 'o único lado que pode mediar, ou pelo menos permitir a mediação sob seu patrocínio, são os Estados Unidos da América'. Ele reconheceu que as circunstâncias forçaram Beirute a interagir com Washington, apesar da longa desconfiança. Mitri observou que o Líbano sempre foi uma 'nota interessante' na política regional dos EUA, mas os funcionários acreditavam que havia uma 'janela de oportunidade' que queriam aproveitar.
Ele também mencionou que alguns veem os comentários recentes do vice-presidente dos EUA, J.D. Vance, sugerindo que o apoio de Washington a Israel não deve ser considerado garantido, como um sinal de uma potencial mudança em direção a relações menos incondicionais entre os EUA e Israel. Mitri explicou: 'A principal razão pela qual os libaneses olham para os Estados Unidos é que os EUA são o único país que tem alavancas de influência sobre Israel e pode ajudar a resolver as questões complexas atuais que enfrentamos.'
Mitri também argumentou que os objetivos de Israel se tornaram muito mais 'ambiciosos' em comparação com a guerra de 2006, citando declarações repetidas de líderes israelenses sobre nova doutrina militar e 'restauração da dissuasão' através da criação de zonas de segurança de amortecimento em Gaza, Líbano e Síria. Ele concluiu: 'Estamos em uma situação completamente diferente e mais complexa. Temos muito poucas opções.'
Futuro Interconectado dos Países
Além do conflito, Mitri sugeriu que existe um interesse regional na criação de uma arquitetura de coordenação e 'alinhamento estratégico' entre países como Síria, Arábia Saudita, Catar e Turquia, indo além de apenas medidas de segurança. Ele observou que Ancara também vê a segurança regional como interconectada, citando a opinião do presidente Recep Tayyip Erdoğan de que a segurança da Turquia está ligada à segurança da Síria, e a segurança da Síria está ligada à segurança do Líbano.
Mitri enfatizou que a Síria não é apenas uma vizinha e aliada, mas que o futuro do Líbano e da Síria 'está intrinsecamente ligado'. Em relação aos relatos de que o presidente dos EUA, Donald Trump, pediu ao presidente sírio que interviesse militarmente contra o Hezbollah, Mitri afirmou que a nova liderança síria não demonstrou interesse em reativar as intervenções de Damasco de dez anos na era do regime Assad. O presidente Ahmed al-Sharaa refutou que seu país pretendesse tomar quaisquer medidas contra este grupo.
'Sabemos que sob o atual governo sírio não há intenção hegemônica sobre o Líbano', disse Mitri, acrescentando que Damasco está disposto a apoiar o país de outras maneiras. Ele também negou qualquer objeção por parte do presidente Joseph Aoun em relação à nova liderança síria, apesar de nenhum dos presidentes ter visitado a capital do outro. Mitri observou: 'Não senti motivos sérios pelos quais as visitas... não ocorreram', acrescentando que a confiança ainda está sendo reconstruída após décadas de desconfiança mútua e domínio sírio sobre o Líbano. Ele concluiu: 'Tudo isso está mudando, e as pessoas de ambos os países precisam de tempo para perceber que estamos em uma situação completamente diferente.'
Riscos para a Unidade
Apesar de anos de colapso econômico, instabilidade política e guerras contínuas, Mitri não considerou que a unidade e a soberania do Líbano estivessem sob ameaça existencial imediata. No entanto, ele reconheceu que a lealdade sectária e as tensões sociais persistem, criando uma sensação de alienação. Alertando que o futuro do país depende da resolução da crise atual, ele não excluiu totalmente os riscos. Ele declarou: 'A unidade do Líbano está sempre em processo de formação', acrescentando que não vê fragmentação, 'se não conseguirmos lidar com a crise atual e dissipar os medos atuais.'
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