De acordo com um estudo publicado na revista Science Advances neste mês, as causas da morte de três crianças incas sacrificadas há cerca de quinhentos anos diferem do que a arqueologia havia sugerido.
Análise das múmias no Chile
Os pesquisadores realizaram exames médicos nas múmias preservadas no Chile e concluíram que traumas físicos e sinais surgidos após a morte colocam em dúvida as teorias existentes sobre esses rituais. As análises dos corpos, bem preservados graças ao frio e à secura dos Andes, refutam as antigas suposições de morte por hipotermia ou asfixia.
Detalhes dos rituais e deslocamentos
As tecnologias modernas permitiram desvendar os segredos dos cerimônias incas. No caso de um menino de oito anos encontrado em Cerro El Plomo, a hipótese de morte por hipotermia foi descartada. A tomografia computadorizada revelou fraturas cranianas causadas por um golpe de objeto pesado, o que confirma uma ação violenta direta antes do sepultamento nas montanhas.
Quanto às duas jovens encontradas em Cerro Esmeralda, a análise mostrou que elas não foram estranguladas, contrariando registros anteriores. Os exames dos ossos do pescoço não apresentaram fraturas ou deslocamentos. Em vez disso, os vestígios no pescoço foram considerados resultado de contato prolongado com roupas após a morte, deixando a causa exata da morte indefinida.
Métodos de pesquisa e migrações
Um conjunto de métodos forenses avançados, incluindo dermatoscopia e análise histológica da pele, foi utilizado para reavaliar os restos mortais. A aplicação dessas ferramentas permitiu estudar a estrutura interna dos corpos mumificados sem danificar os tecidos preservados.
A análise química de isótopos em amostras de cabelo, dentes e ossos ajudou a mapear a dieta e as rotas de viagem das vítimas. O menino percorreu uma distância de 2,6 a 2,8 mil quilômetros de Cusco ao longo de nove meses, enquanto as meninas percorreram até 1,2 mil quilômetros em três meses, participando de rituais com a população local no caminho.
Ritual Capacocha
Essas peregrinações faziam parte do Capacocha — uma cerimônia de expansão política e religiosa, no qual o Império Inca sacrificava vidas humanas aos picos sagrados. A investigação concluiu que essa prática transformava as pessoas escolhidas em entidades sagradas para mediar entre as comunidades, os deuses e o estado.