Há aproximadamente 3.200 anos, ocorreram o colapso súbito de várias civilizações no Mediterrâneo, um evento que alguns atribuem a invasores enigmáticos.
Referência Histórica e Literária
O novo filme A Odisseia, dirigido por Christopher Nolan e baseado na obra de Homero, frequentemente menciona os temidos «povos do mar». Na narrativa cinematográfica, estes invasores são apresentados como uma ameaça misteriosa que chega por via marítima, capaz de devastar cidades na região do Mediterrâneo, incluindo Ítaca, lar de Odisseu. Os «povos do mar» constituem um elemento central na mensagem final da adaptação de Nolan, promovendo uma reflexão sobre os impactos das guerras na sociedade.
O filme também faz alusão à noção de uma «civilização em colapso», embora esta descrição possa soar excessivamente forçada ou anacrônica. Isto ocorre porque o longa faz clara referência a um acontecimento histórico real ocorrido por volta do século XII a.C., coincidindo com o «apocalipse da Idade do Bronze». Embora a Guerra de Troia não seja confirmada historicamente, é plausível que ela tenha se inspirado em conflitos reais daquela época, cujas narrativas foram preservadas na tradição oral e posteriormente registradas nos poemas de Homero, A Odisseia e A Ilíada, no século VIII a.C.
O Declínio do Mediterrâneo Antigo
Após o suposto conflito, a área do Mediterrâneo, que antes abrigava sociedades complexas, poderosas e altamente interligadas, mergulhou num intenso processo de declínio. Observou-se a destruição ou abandono de cidades, uma forte redução populacional, a queda ou cessação da produção artística e literária em diversos locais, e o desaparecimento das redes comerciais. Em poucas décadas, o modo de vida conhecido por essas populações chegou ao fim.
Um dos fatores possíveis apontados é a ação dos «povos do mar», atacantes misteriosos vindos do oceano, que poderiam ter contribuído para a destruição de impérios através da violência. Contudo, a identidade exata desses navegadores permanece desconhecida até hoje. Apesar disso, historiadores têm contestado esta visão simplista na última década, sugerindo que o colapso foi o resultado de um processo multifatorial complexo, e que os «povos do mar» podem ter sido mais vítimas do que agressores.
Características da Idade do Bronze
A Idade do Bronze abrange o período histórico da Eurásia entre aproximadamente 3300 a.C. e 1200 a.C., caracterizada pelo uso do bronze, uma liga composta por cobre e estanho, na confecção de ferramentas e armamentos. Durante este período, o Mediterrâneo e o Oriente Próximo eram palco de grandes civilizações. O Egito destacava-se como uma das maiores potências regionais, com o seu Império Novo representando um auge de poder faraônico.
No centro-leste da atual Turquia, florescia o Império Hitita, uma potência militar e econômica. Na Grécia contemporânea, existiam os micênicos, considerados «proto-gregos», organizados em reinos independentes como Ítaca, Micenas e Tebas, civilização retratada em A Odisseia. Na ilha de Creta, a sociedade minoica detinha domínio, enquanto na Mesopotâmia (atual Iraque), Babilônia e Assíria eram os principais poderes. Também havia os cananeus na região do Levante e os cipriotas na ilha de Chipre.
Destaca-se que estas civilizações mantinham um contato direto, funcionando como uma espécie de «mini-globalização», sustentada por extensas redes de comércio, relações diplomáticas e políticas, alianças militares e casamentos entre famílias reais. No entanto, no século XII a.C., esta estrutura sofreu uma alteração drástica. Civilizações importantes, como o Império Hitita e os reinos micênicos, desapareceram, enquanto outras entraram em declínio, com cidades desocupadas e a adoção de estilos de vida mais modestos por longos períodos. A interconexão econômica e política dessas sociedades foi amplamente desmantelada, marcando o colapso da Idade do Bronze.
A Questão dos Povos do Mar
Historicamente, os «povos do mar» foram culpados por este evento. Registros indicam que atacantes vindos do oceano invadiram vários reinos, resultando em massacres, saques e destruição urbana. O rasto de caos deixado por estes inimigos, cuja identidade nunca foi determinada com certeza, contribuiu para o colapso. Todavia, esta perspetiva tem sido posta em causa por especialistas na última década.
Os melhores registos sobre o tema provêm do Egito, onde os faraós documentaram ataques de inimigos marítimos, que foram eventualmente repelidos. É importante notar que os registos egípcios não utilizam o termo «povos do mar»; este conceito foi cunhado por estudiosos do século XIX. Os textos originais fornecem nomes específicos para estes invasores, como denyen, peleset, shekelesh e sherden.
Embora os nomes egípcios não resolvam completamente o mistério, há um consenso de que se tratava de povos distintos, originários de locais variados. O termo «Peleset» pode corresponder aos filisteus, mencionados na Bíblia como adversários dos israelitas, com a hipótese mais aceite de terem origem micênica ou cretense, migrando para a costa do Mediterrâneo onde hoje estão Israel e Palestina. Já «Sherden» pode referir-se à Sardenha (Itália) e «Shekelesh» à Sicília (Itália).
Parece que o Egito foi invadido por grupos oriundos de regiões periféricas dos grandes impérios da Idade do Bronze. Os faraós conseguiram afastar a ameaça, mas estes mesmos povos aparentemente causaram danos noutras sociedades mediterrânicas, como na Grécia, Turquia e Levante, podendo até levar ao fim de algumas delas.
Visão Arqueológica Moderna
Atualmente, a maioria dos especialistas concorda que o colapso foi um fenómeno multifatorial, e que os «povos do mar» representaram mais uma consequência do que a causa primária. O historiador Eric Cline, professor da Universidade George Washington (EUA) e autor de «1177 a.C.: O ano em que a civilização entrou em colapso», apoia esta tese.
Investigações arqueológicas revelaram evidências de uma severa seca, que pode ter perdurado por anos ou décadas, levando a uma drástica diminuição da produção alimentar e à disseminação da fome, causando mortes em massa. Documentos de diferentes sociedades registam esta escassez, incluindo cartas enviadas a faraós egípcios por reis de outros impérios solicitando grãos para salvar seus súditos. O Egito, sendo a maior potência econômica, prestou assistência a outros poderes mediterrâneos.
O insucesso agrícola pode ter forçado populações de áreas severamente afetadas a migrar em busca de terras mais férteis, constituindo os «povos do mar» que chegavam em grandes contingentes marítimos. Nesta ótica, eles assemelham-se mais a «refugiados climáticos» do que a «invasores bárbaros», embora a sua chegada tenha sido recebida com conflito na maioria dos locais, contribuindo para a violência da época.
Contudo, estas incursões não são vistas como a única ou principal razão do colapso. Esta interpretação considera a chegada destes povos como um sintoma de um quadro complexo. Além da seca, fome e invasões, epidemias e eventos naturais, como sismos, também podem ter contribuído para este «tempestade perfeita» de fatores, segundo Eric Cline. Apesar do colapso, a humanidade não desapareceu; houve uma profunda reorganização. No vácuo de poder subsequente, a civilização fenícia prosperou como uma potência comercial e navegadora proeminente na região durante séculos.