Uma revisão sistemática que analisou dados de 2,8 milhões de crianças em 40 países identificou os principais elementos ligados ao surgimento de alergias alimentares nos primeiros anos de vida. Publicado na revista JAMA Pediatrics, o estudo sugere que essa condição é resultado da interação entre predisposição genética, modificações na barreira cutânea, exposição precoce a antibióticos e influências ambientais.
Mecanismo da Alergia Alimentar
A alergia alimentar manifesta-se quando o sistema imunológico responde de maneira inadequada a certas proteínas encontradas em alimentos como leite, ovo, amendoim, castanhas ou peixes. Em vez de considerar essas proteínas inofensivas, o corpo as percebe como uma ameaça, podendo gerar desde sintomas leves até reações severas, como a anafilaxia. Segundo a alergista pediátrica Renata Rodrigues Cocco, o sistema imunológico infantil ainda está em fase de desenvolvimento, o que permite que ele identifique proteínas alimentares como algo estranho, provocando a reação alérgica.
Fatores Associados ao Desenvolvimento
Os pesquisadores examinaram 190 estudos e avaliaram 342 potenciais fatores. A conclusão principal aponta para a relevância da dermatite atópica (eczema) no primeiro ano de vida, a introdução tardia de alimentos alergênicos (como ovo e amendoim), o uso de antibióticos nos primeiros meses e o histórico familiar de alergias. Embora tenham sido notadas correlações menores com parto cesáreo, sexo masculino e ser primogênito, estes aspectos tiveram menor impacto.
A Alergia como Doença Moderna
Renata Cocco comenta que hoje se entende que a alergia alimentar não possui uma causa única, sendo classificada como uma doença característica da vida contemporânea. Ela acrescenta que fatores como alterações no microbioma, dieta rica em ultraprocessados, poluição e outros elementos ambientais podem elevar a permeabilidade da mucosa, fazendo com que o sistema imune comece a tratar proteínas alimentares como perigosas.
Relação entre Dermatite e Introdução Alimentar
Um dos achados mais significativos da revisão é a ligação entre a dermatite atópica e o aparecimento de alergias alimentares. Bebês que apresentaram eczema no primeiro ano de vida demonstraram um risco três a quatro vezes maior de desenvolver alergias. Isso se deve ao papel protetor da pele. A especialista explica que a dermatite atópica é vista como um sinal de alerta, fazendo parte da chamada 'marcha atópica', uma sequência que pode progredir de eczema para alergias alimentares e, posteriormente, para rinite e asma.
Outro ponto crucial abordado pelo estudo é o momento da introdução alimentar. Foi constatado que oferecer amendoim apenas após os 12 meses de idade mais que dobra a chance de a criança desenvolver alergia ao alimento. Este dado corrobora as recentes diretrizes pediátricas, que desaconselham o adiamento de alimentos potencialmente alergênicos como medida preventiva.
Recomendações e Microbioma
Renata Cocco orienta que o aleitamento materno exclusivo deve ser mantido até os seis meses, iniciando a introdução alimentar gradualmente a partir desse período, incluindo todos os grupos alimentares, como ovo, peixe e amendoim, conforme o desenvolvimento infantil e sob orientação pediátrica. O estudo também estabeleceu uma conexão entre o uso de antibióticos, especialmente no primeiro mês de vida, e um risco elevado de alergias alimentares. A hipótese mais plausível para isso reside no efeito desses medicamentos sobre o microbioma, o conjunto de microrganismos essenciais para o desenvolvimento e fortalecimento do sistema imunológico da criança.
Adicionalmente, a predisposição genética é um fator relevante, visto que crianças cujos pais ou irmãos são alérgicos têm maior probabilidade de desenvolver a condição. No entanto, a médica ressalta que o componente genético não é o único responsável, sendo a combinação entre genética e fatores ambientais o que parece favorecer o desenvolvimento das alergias.
Outras Associações e Limitações
O trabalho também correlacionou alergias alimentares com baixo peso ao nascer, nascimento pós-termo, aleitamento materno parcial, dieta materna durante a gestação e estresse gestacional. Contudo, a especialista aconselha cautela na interpretação desses resultados, mencionando limitações metodológicas importantes relativas ao estresse e à alimentação durante a gravidez. Ela finaliza afirmando que já existem evidências mais sólidas de que restringir alimentos alergênicos durante a gestação não impede o surgimento de alergias na criança.