A Casa Cinco, um empreendimento residencial situado em São Paulo, foi concebido para espelhar e acompanhar as mudanças pessoais de suas moradoras. Localizada dentro de um condomínio no centro da cidade, a residência encontra-se em uma área onde a alta densidade urbana é amenizada por ruas arborizadas e um ritmo de vida mais calmo.
Intervenção e Conceito do Projeto
A estrutura original possuía características arquitetônicas bem definidas e contidas. A intervenção realizada pelo Memola Estúdio manteve a configuração arquitetônica existente, ao mesmo tempo em que incorporou elementos afetivos e materiais que foram acumulados pela família ao longo do tempo.
O projeto foi solicitado em um período crucial de redefinição de planos e expectativas pessoais da família. A intenção era criar um lar capaz de evoluir junto com o tempo, acomodar novas rotinas e crescer paralelamente à vida diária. O processo de contratação do estúdio coincidiu com a discussão sobre uma moradia permanente e com o nascimento da primeira filha do casal, intensificando a reflexão sobre a relação entre o espaço físico e a dinâmica familiar.
Distribuição Espacial e Camadas
Os 450 metros quadrados da residência estão distribuídos em quatro andares, organizados em torno de um núcleo de circulação vertical que desempenha um papel central na composição do conjunto. O acesso principal se dá pelo subsolo, partindo da garagem coletiva do condomínio, onde também estão situadas as áreas técnicas. Uma escada conecta todos os níveis de maneira contínua e visível a partir deste ponto.
No nível térreo, encontram-se os espaços de convivência e serviços, todos voltados para o jardim, que assegura a entrada de luz natural durante o dia. O primeiro andar superior abriga a sala de TV e dois quartos: um destinado à filha do casal e outro para hóspedes. Já o segundo pavimento contém a suíte principal e o escritório, este último adaptado de um antigo terraço parcialmente aberto.
Inspiração Arquitetônica e Sensorial
A organização do projeto baseou-se no conceito de camadas. Em colaboração com as moradoras, a equipe identificou uma ressonância com o pensamento do arquiteto austríaco Friedensreich Hundertwasser (1928–2000), para quem a casa representa uma das «peles» humanas, uma extensão da identidade corporal. Neste projeto, essa ideia é modernizada: a arquitetura inicial, criada pelo Studio MK27, permanece como camada externa preservada, enquanto os interiores focam em expressões pessoais, memória e uso cotidiano.
Adicionalmente, o projeto incorporou uma leitura inspirada no romantismo, entendida como uma abordagem histórica e sensorial que valoriza a atmosfera, a memória e os detalhes. Esta visão, resultado de uma pesquisa aprofundada sobre modos de habitar, manifesta-se em escolhas que promovem um ambiente acolhedor através do tratamento de texturas e superfícies, inspiradas em interiores de moradias tradicionais parisienses, mas adaptadas ao contexto brasileiro. Elementos como pisos com padrões gráficos, molduras elaboradas e detalhes arquitetônicos remetem à sofisticação desses locais históricos.
Detalhes Estruturais e Acabamentos
A abordagem se manifesta primeiramente no núcleo de circulação vertical. A escada, elemento estrutural chave, foi redesenhada para ganhar destaque. Os guarda-corpos receberam um novo desenho em ferraria, desenvolvido especificamente pelo estúdio, complementado por corrimãos de madeira. Este componente passou por estudos, protótipos e testes no canteiro de obras, exigindo compreensão da paginação, dos pontos de encontro entre peças metálicas e da definição de suas curvas. O piso de madeira em padrão espinha de peixe se estende pelos pavimentos, circulações e salas superiores, garantindo continuidade visual. As paredes do núcleo são revestidas com painéis de madeira e molduras na mesma matéria-prima, ecoando os boiseries das casas parisienses, reinterpretados em linguagem contemporânea. As portas de acesso ao lavabo, à louçaria e à cozinha foram integradas ao conjunto.
No térreo, as salas se abrem para o pátio ajardinado. Para aumentar a área utilizável e fortalecer a conexão entre interno e externo, os caixilhos da antiga varanda foram realocados até o limite do beiral, integrando este espaço ao living. O pé-direito foi mantido o máximo possível, com rebaixamento pontual do forro apenas para instalar o sistema de ar-condicionado de difusor linear.
A infraestrutura elétrica e a iluminação permaneceram visíveis, mas com um tratamento intencionalmente sofisticado. Os conduítes e tubulações foram expostos em relação à laje e às paredes, suspensos por finos cabos de aço a cerca de cinco centímetros das superfícies. Esse efeito confere uma sensação de leveza, como se a infraestrutura estivesse flutuando. Nas extremidades, esses elementos apresentam curvas meticulosamente estudadas e prototipadas, respeitando o desenho do rodateto criado pelo estúdio e prevenindo rupturas bruscas.
As paredes foram pintadas em tom areia, harmonizando com o forro de madeira pintado. Um barrado discreto, com textura e leve variação cromática, percorre as superfícies, repetindo uma paleta terrosa que unifica todo o projeto.
Mobiliário e Áreas Sociais
A sala de estar possui um layout aberto, com o sofá em ilha posicionado centralmente, delimitando as áreas de estar e home theater. Peças de design brasileiro moderno convivem com mobiliário contemporâneo e itens do acervo familiar. Poltronas MP-13 e PL61, de Percival Lafer, estão em camurça marrom, enquanto bancos como o Kork Fulget, do estudiobola, e o André, de Fernando Mendes, completam o arranjo. Uma mesa de centro é formada por um banco de madeira coberto por pastilhas de vidro.
Na área de televisão, a poltrona Vivi, de Sergio Rodrigues, é combinada com mesas empilháveis MONO, do F.Studio, em acabamento vermelho. O móvel de apoio à TV se apoia em uma base de alvenaria construída com tijolos assentados verticalmente, fazendo referência direta à materialidade da parede de fundo. Sobre esta base, há uma lareira tipo salamandra. Uma prateleira de concreto aparente, posicionada na metade da altura, exibe equipamentos e objetos decorativos, enquanto as paredes exibem obras de arte particulares.
A sala de jantar integra-se ao ambiente. A mesa Litoral, de Jacqueline Terpins, é acompanhada por cadeiras Tião, de Sergio Rodrigues, estofadas em couro caramelo, e, nas cabeceiras, cadeiras Sênior, de Jorge Zalszupin, personalizadas com tecido estampado floral. Pendentes PH5, de Louis Poulsen, fornecem luz difusa sobre o conjunto. Ao fundo, uma estante modular desenhada pelo Memola Estúdio ocupa toda a parede, servindo como aparador, louceiro, bar, biblioteca e arquivo afetivo. Esta peça combina estrutura em ferraria, portas em marcenaria, bases e tampos em inox, nichos em chapa de aço e outros inclinados em latão para discos de vinil.
Área Externa e Serviços
O pátio ajardinado funciona como uma extensão natural das zonas sociais. Suas paredes possuem pintura texturizada em tom terracota, fornecida pela Terracor Revestimentos, e o piso é composto por placas irregulares de pedra, assentadas no estilo «caco». Um canteiro vertical abriga diversas espécies, criando variações de altura e densidade folhagem, enquanto uma árvore grande oferece sombra e privacidade aos dormitórios. Uma parede lateral exibe um painel de azulejos personalizado por um artista mineiro, com desenhos que retratam aspectos do cotidiano e da história das moradoras, em branco com detalhes em vermelho bordô. Este desenho se estende até a bancada de apoio da churrasqueira. Do lado oposto, a piscina completa o espaço, sendo ideal para dias quentes.
No lavabo, os acabamentos seguem a linguagem do projeto. O piso utiliza ladrilhos vermelhos e rosados em padrão xadrez. As paredes são divididas entre azulejos rosados na metade inferior e pintura texturizada bege na parte superior, separados por um filete bordô. O lavatório com coluna é acompanhado por um espelho redondo com moldura de madeira e um móvel sob medida de baixa profundidade. A tubulação fica aparente, e a iluminação é provida por arandelas em latão dourado e vidro em formato de concha.
A cozinha mescla referências de cozinhas rurais com soluções modernas. Sobre o piso de cerâmica marrom, os armários em madeira escura com portas molduradas e vidro texturizado, dispostos na lateral direita, são complementados por bancadas em mármore avermelhado. A marcenaria foi projetada elevada do chão e sem tocar o teto, conferindo leveza. Ao lado, um canto alemão reúne peças selecionadas, adicionando personalidade e memória. Na lateral esquerda, o armário principal se destaca por portas feitas com tábuas de madeira rústica pintadas e bancada em ardósia. Prateleiras apoiadas por mãos francesas acima armazenam livros de receitas e utensílios diários.
Pavimentos Superiores e Finalização
No andar superior, a atmosfera tranquila guia as escolhas. No quarto da filha, o berço de madeira torneada com palhinha dialoga com o mosquiteiro suspenso. A paleta neutra serve de base para que cores apareçam em acessórios, obras de arte e enxoval. Um armário desenhado pelo estúdio, com cantos suavemente arredondados, suaviza o ambiente. O banheiro segue os mesmos acabamentos da suíte principal.
A sala de TV familiar mantém o clima acolhedor, utilizando estofados volumosos em tons terracota, madeira no piso e na marcenaria, e iluminação indireta que percorre o espaço. A cor também aparece nas obras de arte e nos estampados dos tecidos.
No último andar, a suíte máster mantém a paleta de tons terrosos. As paredes são pintadas em tons areia, enquanto a guarnição da porta de entrada recebe peças cerâmicas alternadas em vermelho bordô e bege, criando um padrão listrado que se estende em barrado na parede principal. Este detalhe diminui visualmente a altura, tornando o espaço mais aconchegante. A cabeceira estofada, com desenho curvo e tecido salmão, contrasta com as linhas retas da arquitetura. O jogo de cama, também desenvolvido pelo estúdio, introduz padrões gráficos nos tecidos que conversam com os elementos arquitetônicos.
A varanda conserva partes da arquitetura original, como paredes de tijolos pintados de branco e forro em biribas. O piso é de cerâmica terracota, e jardineiras sinuosas acompanham o guarda-corpo treliçado. Poltronas de madeira preenchem o espaço, voltado para a copa das árvores do paisagismo.
O banheiro da suíte é dividido em dois ambientes conectados. O piso de pedra irregular no padrão caco e os azulejos amarelo-canário nas paredes oferecem uma releitura moderna de banheiros antigos. A bancada ampla em mármore comporta duas cubas, enquanto o gabinete em madeira une frentes ripadas e lisas. Um espelho tripartido, com laterais articuladas, é acompanhado por arandelas de vidro leitoso que geram luz difusa. A área de banho, separada por uma mureta de alvenaria baixa e vidro transparente na segunda metade, abriga chuveiro e banheira, funcionando quase como um banheiro separado, protegido pela vegetação da varanda.
O antigo solário foi transformado em escritório. A retirada do caixilho original deu lugar a uma grande claraboia de vidro, otimizando a área útil e permitindo grande entrada de luz natural. Tijolos brancos permanecem visíveis, e o mobiliário vintage em jacarandá ancora o espaço, apresentando-se como um local de foco e descanso sob o céu.
A Casa Cinco se estabelece, portanto, como um projeto construído a partir do tempo e de decisões arquitetônicas e espaciais precisas, unindo arquitetura, interiores e a vida diária de seus moradores.