Pesquisadores alertam que a introdução da injeção de Lenacapavir, um medicamento de ação prolongada para a prevenção do HIV, na África do Sul tem o potencial de mudar radicalmente a abordagem à prevenção do HIV, mas o sucesso desse processo dependerá de garantir acesso igualitário e fortalecer o sistema de saúde no nível comunitário.
Barreiras para o Sucesso
Segundo pesquisadores e especialistas em saúde pública abordados durante o webinar Rural Health Advocacy Project (RHAP) na quarta-feira, a implementação bem-sucedida da primeira injeção mundial para prevenção do HIV pode não corresponder às expectativas se os obstáculos antigos no acesso aos serviços de saúde não forem resolvidos.
Apesar de a introdução da profilaxia pré-exposição injetável de longa duração (PrEP), conhecida como Lenacapavir, ter sido um avanço significativo na luta contra o HIV, as barreiras sistêmicas existentes no país continuam a impedir que muitos grupos vulneráveis utilizem este medicamento.
Início do Programa e Prioridades
A África do Sul iniciou oficialmente o lançamento do Lenacapavir em 5 de junho, tornando-se um dos primeiros países do mundo a implementar este medicamento injetável para prevenção do HIV através de seu programa de saúde governamental.
A implementação começou na província do Cabo Ocidental em certas instituições médicas. A fase inicial abrange adolescentes e jovens mulheres, trabalhadores do sexo, homens que fazem sexo com homens e pessoas transgênero.
Apelos por Mudança no Modelo de Entrega
Jaclyn Pina, psicóloga e especialista em saúde pública que apoia a implementação do Lenacapavir pelo Departamento Nacional de Saúde, observou que os ensaios clínicos confirmaram a alta eficácia do medicamento. No entanto, em sua opinião, o foco do país deve mudar para garantir um acesso justo.
Pina enfatizou que a questão principal para a África do Sul não é a eficácia da injeção, mas sim a capacidade de alcançar as pessoas necessitadas. Ela questionou se adolescentes, jovens mulheres, homens que fazem sexo com homens, pessoas transgênero e trabalhadoras do sexo, que frequentemente evitam instituições devido ao estigma, discriminação e humilhação, estão sendo alcançados.
Ela afirmou que a abordagem atual, baseada na visita a clínicas, corre o risco de excluir exatamente as comunidades para as quais este lançamento se destina. Pina sugeriu tornar o Lenacapavir acessível através de organizações comunitárias, grupos móveis de apoio, farmácias e serviços voltados para jovens, argumentando que a prevenção do HIV deve ser entregue onde as pessoas vivem, estudam e trabalham, e não exigir que cidadãos saudáveis viajem até clínicas.
Prevenindo Erros do Passado
Pina também alertou contra a repetição de erros cometidos na implementação da PrEP oral, observando que campanhas informativas limitadas e mensagens direcionadas a grupos específicos contribuíram para o aumento do estigma. Ela citou o exemplo de que a comunidade pode erroneamente considerar uma pessoa que toma PrEP como promíscua, pois isso está associado a trabalhadoras do sexo.
Em vez de criar um programa separado de combate ao HIV, Pina insistiu na integração do medicamento injetável nos serviços de saúde sexual e reprodutiva, juntamente com contracepção, rastreamento de ISTs e serviços de planejamento familiar. Ela concluiu que a inovação reside não apenas na injeção em si, mas também na forma como ela é fornecida, e o maior risco é que o medicamento seja implementado com sucesso, mas o sistema de saúde não se transforme.
Riscos para Grupos Vulneráveis
Dra. Zoe Dubi, pesquisadora sênior do Conselho Sul-Africano de Pesquisa Médica e pesquisadora visitante da Universidade do Cabo, indicou que adolescentes e jovens mulheres permanecem entre os grupos populacionais mais suscetíveis à infecção pelo HIV, e mulheres grávidas e lactantes também enfrentam um risco aumentado de infecção.
Dubi acredita que o sucesso do Lenacapavir dependerá do quão mais aceitáveis e acessíveis os serviços se tornarem para esses grupos. Ela observou que julgamentos, fofocas, rumores, medo de exposição e inconveniência dos serviços em clínicas podem afetar o uso contínuo da prevenção por parte das jovens mulheres. Assim, não é apenas o produto clinicamente eficaz que é importante, mas também o modelo de entrega que garanta acessibilidade e aceitabilidade.
Ela acrescentou que o sucesso do programa deve ser avaliado não apenas pelo número de injeções administradas, mas também se as pessoas continuam a receber suas doses semestrais regularmente e permanecem protegidas nos períodos de maior vulnerabilidade ao HIV.
Considerando as Necessidades Rurais
O professor associado da Universidade do Cabo Ocidental, Sakumzi Mkhize-Kaane, afirmou que, durante o lançamento, é necessário levar em conta as realidades das comunidades rurais, onde dificuldades de transporte, normas culturais e acesso limitado à saúde continuam a afetar a participação dos homens em programas de prevenção do HIV. Ele enfatizou a necessidade de encontrar os homens onde eles estão, e não apenas os homens, mas comunidades inteiras, pois programas desenvolvidos sem considerar o contexto local dificilmente alcançarão um efeito completo.