A Bultaco, uma fabricante espanhola, tornou-se um ícone do motociclismo mundial, destacando-se pela sua tradição em motores de dois tempos, apesar de ter tido uma trajetória relativamente breve.
História Automotiva Espanhola
Embora o foco seja o motociclismo, a história automotiva espanhola possui raízes profundas. A SEAT, por exemplo, foi conhecida no Brasil por modelos como Córdoba e Ibiza, lançados em 1995, embora a marca tenha deixado o mercado brasileiro em 2002. Antes da influência da Volkswagen, a Hispano-Suiza elevava a engenharia espanhola ao patamar de luxo, competindo com marcas como Rolls-Royce e Bugatti. Mais tarde, a Pegaso surgiu com supercarros exóticos, como o lendário Pegaso Z-102.
Ascensão da Bultaco
A verdadeira paixão competitiva espanhola, impulsionada pela cultura de corridas e motores de dois tempos, encontrou sua expressão máxima na Bultaco. Esta marca colocou a Espanha no mapa global do motociclismo e redefiniu categorias esportivas. A Bultaco existiu por 25 anos, de 1958 a 1983, e seu sucesso está ligado à dedicação de Francisco Xavier Bultó Marqués, conhecido como Paco Bultó.
A Trajetória de Paco Bultó
Paco Bultó nasceu em Barcelona em 17 de maio de 1912. Desde cedo demonstrou fascínio por velocidade, assinando a revista britânica The Motorcycle em 1926, aos 14 anos. Ele começou a explorar a mecânica desmontando um motor DKW. Aos 17 anos, após ver o Grande Prêmio da Europa de Motociclismo, decidiu pilotar, inicialmente usando nomes falsos como “Francisco Roig” e “Patek”. Em 1935, ele conquistou o título de Campeão Amador da Espanha em uma Velocette 90 Plus.
Contudo, sua vocação se voltou para a engenharia. Formou-se em Engenharia Industrial e fundou a Barella y Bultó, especializada na fabricação de pistões e anéis. Esta empresa evoluiu para a FISA (Fundiciones Industriales), fornecedora principal da indústria automobilística espanhola, e estabeleceu uma parceria com a Mahle.
Nascimento da Montesa e a Virada
Em 1944, Paco Bultó uniu-se ao empresário Pere Permanyer para criar veículos de duas rodas. Durante a crise pós-guerra, eles utilizaram um motor Motobécane B1V2 francês, que Bultó havia emprestado, para montar o conjunto de motor e câmbio. Assim, em junho de 1945, nasceu a Montesa, com um motor de 98cc, que rapidamente participou de competições.
A Montesa prosperou por mais de uma década, mas em 1958, uma crise financeira e uma recessão na Espanha levaram a diretoria a encerrar o departamento de corridas. Bultó contestou essa decisão, afirmando que “El mercado sigue la bandera de cuadros”. Em protesto, ele pediu demissão. Poucos dias depois, antigos colaboradores da divisão de competição o convidaram para fundar uma nova empresa, resultando na Bultaco, batizada com seu sobrenome e apelido.
Lançamento e Sucesso Inicial
O pacto para a nova fábrica foi selado na Masía San Antonio, em Cunit. A Bultaco adotou o icônico emblema de “joinha”, inspirado em gestos de pilotos britânicos. Em quatro meses, a equipe desenvolveu a primeira moto, a Tralla 101, uma monocilíndrica de 125cc e dois tempos. Este modelo, lançado em 1959, era tecnicamente avançado, oferecendo 12 cv e atingindo 114 km/h. As vendas foram imediatas, ultrapassando 1.100 unidades no primeiro ano.
O teste decisivo ocorreu em maio de 1959, no GP da Espanha, onde John Grace pilotou uma Bultaco em segundo lugar. Um evento mais marcante aconteceu em Zaragoza, onde as Tralla 101 foram desclassificadas da categoria original e colocadas na classe de topo. Na pista molhada, a leveza das Bultacos permitiu que Marcello Cama vencesse, superando gigantes como a MV Agusta e a Ducati, catapultando o prestígio da marca.
Impulsionado por esse sucesso, Paco Bultó expandiu a linha em 1960, lançando a 155 para turismo e a Sherpa N para off-road. A estratégia de sucesso resultou em um salto de produção de mil para mais de 7.000 motos vendidas em 1961.
Expansão Internacional
Reconhecendo que o mercado espanhol era insuficiente para o crescimento, Paco Bultó buscou o cenário internacional. Em outubro de 1960, a Bultaco participou do autódromo de Montlhéry, na França, com um protótipo aerodinâmico de 175cc. Mantendo sua filosofia de engenharia, Bultó optou pelo sistema tradicional de janelas no cilindro, recusando tecnologias como válvulas rotativas, e o pequeno monocilíndrico alcançou mais de 172 km/h na pista francesa.