Na conferência de fundação da Universidade de Joanesburgo sobre inteligência artificial e direito, os participantes discutiram o impacto da IA na profissão jurídica e no sistema de justiça na África do Sul. A principal conclusão foi que, apesar do potencial da IA para transformar os tribunais, a decisão final deve permanecer nas mãos humanas.
Estado atual da digitalização da justiça
O evento de três dias, organizado pelo Instituto de IA e Direito da UJ, enfatizou que as tecnologias já fazem parte da jurisdição sul-africana. O gerenciamento digital de casos, o protocolo eletrônico de documentos judiciais e o uso de IA para pesquisas jurídicas já estão mudando os métodos de administração da justiça.
Os participantes reconheceram a capacidade da IA de aumentar a eficiência, reduzir atrasos e melhorar o acesso à justiça. No entanto, concordaram que a IA deve servir apenas como ferramenta de apoio, e não como substituta do julgamento humano, dos valores constitucionais e da independência do poder judiciário, nos quais se baseia o Estado de Direito.
Posição do Vice-Juiz-Chefe
Ao fazer seu discurso de boas-vindas, o vice-juiz-chefe Dantstan Mlambho observou que os tribunais sul-africanos já entraram na era digital, e o uso responsável da IA tornou-se uma das principais tarefas do sistema de justiça. Ele enfatizou que a discussão mudou da questão da implementação de tecnologias para garantir que elas fortaleçam, e não minem, a democracia constitucional.
Mlambho afirmou que a questão constitucional é se o uso de novas tecnologias preservará a dignidade humana, a igualdade, a transparência, a responsabilidade e, crucialmente, a liberdade de discrição humana. Ele também mencionou que plataformas como Court Online e CaseLines modernizam a administração da justiça, permitindo o processo eletrônico e melhorando o acesso aos serviços judiciais.
No entanto, ele alertou que o progresso tecnológico não deve ocorrer em detrimento dos direitos constitucionais, da independência dos tribunais ou da confiança pública. Embora a IA possa expandir o acesso à justiça, ele alertou sobre os riscos relacionados ao viés algorítmico, problemas de privacidade, desigualdade de acesso digital e dependência excessiva de sistemas automatizados.
Ele acrescentou que qualquer inovação tecnológica deve ser avaliada por um princípio simples: o tribunal deve ser não apenas justo, mas também claramente justo.
Opinião dos representantes da ONU
O Professor Tshilidzi Marwala, Vice-Secretário-Geral das Nações Unidas e reitor da Universidade da ONU, destacou o enorme potencial da IA para expandir o acesso à justiça através da automação de documentos e da gestão mais eficiente dos tribunais. No entanto, ele alertou que essas vantagens só se tornarão realidade se governos, indústrias e instituições jurídicas criarem estruturas de governança que resolvam os problemas de viés algorítmico, desigualdade de acesso digital, supervisão fraca e crescente lacuna digital.
Marwala também pediu aos participantes que distinguissem precisão técnica de verdade, alertando que os sistemas de IA podem gerar respostas incorretas com confiança.
Papel do ensino superior
Concluindo suas falas, o Professor Letlhokwa George Mpedi, reitor e presidente da UJ, enfatizou o dever crítico das universidades na formação de como a IA serve à sociedade. Ele observou que, à medida que economias, sistemas legais e instituições governamentais se transformam, o ensino superior deve reunir juristas, tecnólogos, políticos e representantes da indústria para garantir que as inovações contribuam para o desenvolvimento humano, permanecendo firmemente ancoradas nos valores constitucionais, na orientação ética e no bem público.