Apesar do progresso democrático alcançado pela África do Sul nas últimas três décadas, o país continua a enfrentar sérios problemas, como corrupção, desigualdade, violência e intolerância, o que sombreia o legado de Nelson Mandela.
Apelos à atividade cívica
Representantes do Fundo Nelson Mandela, Fundo Ahmed Katrad e Movimento de Cidadãos Ativos emitiram declarações antes do Dia Internacional de Nelson Mandela. Eles enfatizaram que o Dia da Mandela deve estimular a participação cívica contínua, e não se limitar a atos pontuais de ajuda.
O governo, através do seu site www.gov.za, apelou aos cidadãos para dedicarem seu tempo e esforços ao combate à pobreza e à desigualdade, seguindo o tema deste ano: 'Ainda está em nossas mãos combater a pobreza e a desigualdade'. Este tema reflete a convicção de Mandela de que cada pessoa é capaz de contribuir significativamente para a sociedade, resolvendo os problemas de injustiça e desigualdade.
Importância da celebração anual
A celebração anual eterniza a vida e o legado de Mandela, incentivando as pessoas a dedicar 67 minutos a prestar serviços, simbolizando os 67 anos que ele dedicou à atividade pública.
Gaopalele Phalaesile, diretora atual de comunicação e marketing do Fundo Nelson Mandela, observou que o foco deve ser direcionado para promover os valores constitucionais sul-africanos que definiram a transição democrática do país. Esses valores incluem dignidade humana, igualdade, liberdade, responsabilidade, não-racialismo e justiça social, na qual Madiba acreditava.
Phalaesile reconheceu que, embora os avanços democráticos sejam importantes, ainda existem obstáculos significativos. Ela declarou: 'A realidade é ambígua. A África do Sul alcançou sucessos democráticos importantes, mas problemas como corrupção, desigualdade, violência, intolerância e a diminuição da confiança nas instituições nos lembram que o trabalho de construir uma sociedade justa e inclusiva não está completo'. Ela também salientou que o legado de Mandela não é um plano rígido, mas sim um convite para refletir criticamente sobre os desafios modernos e contribuir para a criação de uma sociedade mais democrática, justa e humana.
Preocupações com a democracia
Neeshan Bolton, diretor executivo do Fundo Ahmed Katrad, afirmou que o Dia da Mandela deve incitar a reflexão honesta sobre se a África do Sul está cumprindo os princípios da democracia constitucional. Ele observou que o país está se afastando dos valores fundamentais defendidos por Nelson Mandela e seus colegas.
Bolton apontou que a corrupção sistêmica mina as instituições democráticas e a confiança pública, privando as pessoas de serviços básicos e enfraquecendo as estruturas estatais. Além disso, expressou preocupação com o crescente sentimento anti-imigração e xenofobia, classificando isso como um sério desvio do compromisso de Mandela com a solidariedade internacional e os direitos humanos.
Apesar dessas preocupações, Bolton destacou a resiliência da sociedade civil e do sistema judicial independente. Ele insistiu que seguir o legado de Mandela é uma luta ativa e contínua, exigindo a transição de 67 minutos de ativismo simbólico para ações diárias constantes contra a corrupção e em prol da construção de uma economia inclusiva.
Direitos das crianças e migrantes
Membros do comitê executivo do Movimento de Cidadãos Ativos, Yashika Padia e Dra. Nora Saneka, afirmaram que Mandela sempre se opôs a culpar estrangeiros pelos problemas do país, defendendo a dignidade humana e o Estado de Direito. Eles lembraram que Mandela disse em 1995 que a África do Sul não pode culpar estrangeiros por seus males, pois a política histórica do apartheid desestabilizou o desenvolvimento econômico dos países vizinhos.
Padia e Saneka expressaram preocupação com as condições desumanas em que os imigrantes se encontram na África do Sul, considerando isso contrário aos ideais de Mandela. Eles também levantaram a questão das crianças cujas famílias foram forçadas a deixar as comunidades devido à violência. Eles enfatizaram que o princípio do melhor interesse da criança deve permanecer central na tomada de decisões governamentais, citando que Mandela assinou a Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança.
Além disso, relataram barreiras enfrentadas pelas famílias ao obter assistência médica em instituições públicas. Foram apresentados exemplos em que recém-nascidos e crianças pequenas que fugiam da África do Sul foram negados o direito à saúde em hospitais devido à exigência de documentação, o que, em sua opinião, demonstra a falta de autoridade moral e legal do governo.