O autor afirma que o Diálogo Nacional, iniciado por Ramaphosa, revelou-se um fracasso político, especialmente no contexto da escalada da crise da afrofobia. Foi observado que, se o diálogo tivesse sido verdadeiramente aberto, o problema da migração poderia ter sido resolvido de outra forma.
Problemas da Crise Migratória
Durante as marchas realizadas nas ruas da África do Sul, as pessoas levantaram questões relacionadas à imigração ilegal. Em um cenário de profunda instabilidade econômica, estagnação do crescimento e diminuição da confiança nas estruturas governamentais, a migração frequentemente se torna um objeto de expressão de um descontentamento mais amplo.
O Diálogo Nacional foi anunciado em junho de 2025 e teve seu início oficial na primeira Conferência Nacional em Tshwane, de 15 a 16 de agosto de 2025. Ele foi concebido como uma intervenção chave para resolver problemas ao nível local, incluindo pobreza, desemprego e desigualdade social. O diálogo prometia seguir o espírito da Carta da Liberdade e restaurar uma governança orientada para as pessoas, além de melhorar as relações entre a sociedade e o Estado.
Planejamento e Implementação do Diálogo
Esperava-se que o Diálogo Nacional ocorresse através de uma série de consultas públicas em diversas comunidades e setores da África do Sul durante vários meses após a conferência inaugural, continuando até o início de 2026. O orçamento inicial era de 700 milhões de randes, que foi reduzido para 485 milhões de randes, com cerca de 348 milhões de randes destinados aos diálogos em nível distrital.
No entanto, quando o diálogo é mais necessário, o processo parece notavelmente ausente. Em vez disso, observam-se duas respostas inadequadas: por um lado, movimentos de protesto que reduzem crises estruturais complexas à existência de imigrantes ilegais; por outro, o Estado, que parece preferir gerenciar o descontentamento político através da polícia e operações de segurança, em vez de meio de interação política substantiva.
Causas da Crise e Reação do Estado
Atribuir o desemprego, os problemas municipais ou a violência exclusivamente à migração é confundir sintomas com causas. A crise socioeconômica sul-africana existia muito antes do recente aumento dos debates sobre migração. Décadas de desenvolvimento desigual, desindustrialização, enfraquecimento do Estado e políticas econômicas neoliberais criaram as condições em que o desapontamento se acumulou. A migração tornou-se a linguagem pela qual esse desapontamento agora é expresso, mas ela não gerou essas condições.
Da mesma forma, o Estado não pode resolver a crise de legitimidade apenas com força. Relatórios sobre a alocação de cerca de 600 milhões de randes para operações de segurança durante a marcha de 30 de junho e os protestos relacionados demonstram um padrão recorrente: diante de crescentes tensões sociais, o Estado investe na manutenção da ordem, enquanto os processos políticos capazes de eliminar as causas dos distúrbios permanecem inativos.
Consequências da Repressão e Fracasso do Diálogo
Além disso, o uso da repressão como principal ferramenta de gestão tem um efeito destrutivo no próprio Estado. Isso desvia recursos de serviços vitais, normaliza o uso da força contra os cidadãos e gera resistência adicional. A repressão não resolve contradições; ela apenas as suprime temporariamente, permitindo que se acumulem e reapareçam em formas mais agressivas.
Este reconhecimento de que o Estado não possui uma estratégia para conquistar corações e mentes, mas apenas uma estratégia de controle de corpos, é um sinal de falência ideológica. Um Estado que não consegue convencer seus cidadãos a aceitar um projeto nacional comum perde sua autoridade moral. Ele se transforma em uma casca vazia, capaz apenas de coerção, e não de liderança genuína.
É por isso que o Diálogo Nacional era importante. Seu objetivo nunca foi apenas organizar conferências ou encontros públicos. Deveria criar mecanismos pelos quais interesses concorrentes, experiências diversas e visões políticas divergentes pudessem interagir antes que as diferenças se solidificassem em antagonismos permanentes. O diálogo deveria promover a coesão social e desmantelar a divisão entre 'insiders' e 'outsiders'. Em vez disso, observa-se um aumento nos sentimentos de afrofobia, culminando em protestos de grupos como March e March.
Se o Diálogo Nacional tivesse sido realmente e notavelmente conduzido, o problema da migração poderia ter sido abordado de maneira diferente. Poderia ter sido um fórum para discussão racional da pressão migratória, para distinguir preocupações legítimas com o controle de fronteiras da hostilidade irracional contra estrangeiros. Poderia ter criado um espaço onde as questões de gestão de fronteiras e insegurança econômica fossem discutidas abertamente, impedindo que se transformassem em caos e violência.
Processo Paralelo e Inação
Em vez disso, o Diálogo Nacional mostrou-se impotente. Tornou-se um processo paralelo, existindo no vácuo enquanto os reais conflitos sociais se desenrolam nas ruas. Seu silêncio neste momento crítico é uma abdicação de responsabilidade. A infraestrutura está pronta, o secretariado foi contratado, mas o motor da interação social parou. Falta ação visível direcionada a afastar a conversa nacional do abismo do chauvinismo étnico.
Em última análise, a situação é uma clara ilustração de um fracasso político fundamental. O Diálogo Nacional, concebido como um projeto de renovação nacional, tornou-se um símbolo da paralisia estatal. Representa a vitória da forma sobre o conteúdo, do processo burocrático sobre a participação autêntica do povo. Os recursos gastos no diálogo e na segurança poderiam ter sido combinados para criar um programa transformador de participação democrática, investimento social e restauração institucional. Isso poderia ajudar a resolver as condições materiais que alimentam o descontentamento público, ao mesmo tempo que restaura a confiança entre cidadãos e Estado.
Em vez disso, a África do Sul ficou com o pior dos dois mundos: uma onda de manifestantes buscando criar instabilidade e respostas de segurança que não conseguem resolver a crise fundamental. O caminho a seguir não reside no aumento das medidas de segurança ou em mais marchas, mas sim em uma reorientação fundamental das prioridades do Estado para o empoderamento material e ideológico do povo. Quanto mais tempo o Diálogo Nacional permanecer impotente, maior a probabilidade de que o descontentamento público e a repressão estatal se tornem a norma. Nenhum desses caminhos leva à estabilidade de longo prazo; ambos apenas aprofundam as condições a partir das quais surgirá um futuro conflito. A África do Sul sofre não por falta de reivindicações, mas por falta de espaços políticos confiáveis onde essas reivindicações possam ser compreendidas coletivamente e resolvidas de forma construtiva. É isso que o Diálogo Nacional prometeu fornecer. Seu silêncio teve consequências políticas, minando o próprio propósito de sua instituição.