O uso de medicamentos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro exige uma abordagem de acompanhamento diferenciada, conforme proposto por um novo consenso internacional. Este documento estabelece que o êxito do tratamento deve ser avaliado por critérios que ultrapassam meramente o número registrado na balança.
Orientações do Consenso Internacional
Publicado na revista The Lancet Diabetes & Endocrinology, o material reúne diretrizes abrangentes que cobrem aspectos como dosagens adequadas, hábitos alimentares, prática de exercícios físicos e monitoramento da saúde mental. Além disso, ele especifica os momentos apropriados para diminuir ou suspender o uso dessas medicações.
Individualização do Tratamento
Este consenso, elaborado por três entidades europeias, não modifica as indicações originais dos fármacos, mas enfatiza a necessidade de analisar cada paciente de maneira singular. As decisões devem ser guiadas pela resposta individual ao tratamento, pela existência de condições médicas associadas e pela tolerância aos efeitos colaterais.
Fernando Valente, que coordena o Departamento de Educação em Diabetes da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) e dirige o Departamento de Diabetes da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), destacou esta mudança de foco. Ele afirmou ao G1 que a relevância primordial deste primeiro consenso reside em demonstrar que o tratamento não se limita apenas à administração da injeção e à redução de peso.
Embora doses mais elevadas permaneçam necessárias em certos casos, especialmente para indivíduos com acúmulo significativo de peso, resultados satisfatórios podem ser obtidos com doses menores. Isso é particularmente verdadeiro quando o objetivo principal é gerenciar doenças metabólicas, tais como diabetes, hipertensão, esteatose hepática ou apneia do sono.
Quando Reavaliar o Tratamento
O consenso esclarece que, sob certas condições, a redução da dose, uma pausa ou a interrupção do medicamento podem constituir a melhor estratégia. Essa escolha deve ser sempre tomada em colaboração entre o profissional de saúde e o próprio paciente.
Os especialistas alertam para sinais específicos que demandam atenção, incluindo náuseas e episódios de vômito persistentes, dificuldade em manter uma hidratação adequada, perda de peso excessivamente rápida, baixa absorção de nutrientes e quaisquer indicadores de desnutrição.
Rodrigo Lamounier, diretor da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso) e membro da SBEM, ressalta que parar a medicação não implica necessariamente um insucesso terapêutico. Ele explicou ao G1 que, embora sejam medicamentos cruciais, eles requerem cautela e personalização conforme a evolução e o contexto clínico de cada indivíduo.
Importância da Nutrição e Exercício
O documento também sublinha que a perda de peso acelerada pode acarretar a diminuição indesejada da massa muscular. Para mitigar esse risco, a recomendação é integrar uma dieta rica em proteínas com exercícios de resistência, como musculação.
A orientação nutricional sugere a ingestão diária de aproximadamente 1 a 1,5 grama de proteína por quilo de peso ajustado, mantendo um mínimo de 60 gramas distribuídos ao longo das refeições. Caso essa meta alimentar não seja atingida, suplementos podem ser considerados após uma avaliação individualizada.
Considerando a Saúde Mental
Um ponto de destaque adicional é o conceito de «ruído alimentar» (food noise), definido como pensamentos contínuos sobre alimentos. Esses pensamentos tendem a diminuir com a ação dos medicamentos nas regiões de recompensa do cérebro.
Fernando Valente reiterou ao G1 que o consenso também aponta para a necessidade de monitorar eventuais alterações emocionais durante o processo de tratamento. A proposta final enfatiza que a preservação da massa muscular, da qualidade de vida e do bem-estar deve ter a mesma importância que a perda de peso, confirmando que o manejo da obesidade transcende a simples medição na balança.