A crescente valorização de modelos clássicos é vista como uma evidência de que os carros modernos estão perdendo sua identidade devido às regulamentações de segurança e emissões. Anteriormente, essa valorização começava por volta dos 25 anos, mas com a transição para a eletrificação nos últimos dez anos, veículos com apenas 15 ou 20 anos já são considerados potenciais clássicos, o que é confirmado por leilões no Brasil e no exterior.
Investimento das Montadoras em Clássicos
Neste mesmo período, as próprias montadoras começaram a investir em departamentos dedicados a clássicos. Inicialmente, foram as marcas conhecidas por seus carros de pista e estrada, como Ferrari, Porsche e Mercedes, impulsionadas pela alta valorização de seus veículos. Posteriormente, fabricantes de grande volume, incluindo Volkswagen, Nissan e Toyota, também criaram seus próprios programas de clássicos. No Brasil, duas montadoras possuem iniciativas distintas para entusiastas de carros antigos.
O Valor da Certificação Oficial
Quase todos os departamentos de clássicos das fabricantes mantêm vastos arquivos de documentos de todas as épocas, como manuais, catálogos e cadernos técnicos produzidos pela própria empresa, além de fornecerem mão de obra especializada e peças idênticas às originais. Embora seja possível obter esses itens por outros meios, as fabricantes oferecem algo exclusivo: a certificação de autenticidade do veículo.
Esta certificação é crucial porque, quando um carro antigo se torna um ativo financeiro, frequentemente surgem narrativas fictícias sobre sua procedência. Certificados emitidos por clubes podem não ser confiáveis, como exemplificado pelos certificados de originalidade feitos apenas para fins comerciais no Brasil, ressaltando a importância da validação oficial da fábrica.
Exemplos de Centros de Restauração
Um dos centros de restauração oficiais mais notórios é o Ferrari Classiche. Inaugurado por Luca di Montezemolo em julho de 2006 na antiga fundição da Ferrari, este espaço de 950 m² reúne escritórios, acervos, documentação e oficinas. Devido ao alto valor das Ferraris clássicas, que datam do final dos anos 1970 e ainda são usadas em corridas históricas, os serviços principais do Ferrari Classiche incluem a manutenção e a certificação de autenticidade, além da restauração, especialmente para carros danificados.
É raro uma Ferrari especial sofrer perda total, o que geralmente ocorre em casos de incêndios graves. Modelos mais antigos, como F40 e F50, que aparecem acidentados em vídeos, são enviados ao Ferrari Classiche para serem restaurados ao seu estado original. Tanto carros acidentados quanto aqueles necessitando apenas de restauração utilizam peças fabricadas conforme as especificações técnicas da época, muitas vezes empregando processos industriais ou de manufatura utilizados durante a construção do veículo. O processo começa com a avaliação da equipe Ferrari Classiche para distinguir peças originais de não originais, permitindo que o proprietário decida se deseja retornar ao padrão original.
Certificação e Critérios da Ferrari
O Certificado de Autenticidade é emitido para carros de rua com mais de 20 anos ou carros de corrida de qualquer período. Um certificado oficial da Ferrari pode elevar o valor do carro em milhões de dólares e habilita-o para eventos oficiais da Ferrari globalmente. O processo envolve uma inspeção minuciosa realizada por uma comissão de peritos chamada COCER, presidida por Piero Ferrari, que avalia chassi, motor, câmbio, transmissão, suspensão, freios, rodas, carroceria e interior.
Para receber a certificação, o veículo deve atender a um dos critérios básicos: ter participado de competições nacionais ou internacionais na configuração avaliada, ou possuir uma configuração resultante de modificações feitas por estúdios de design ou carroceiros renomados até dez anos após a fabricação, além de ter participado de algum Concours d’Elegance ou Salão do Automóvel. Exemplos recentes de certificação incluem a Ferrari 225S Vignale Spyder 1952, com chassi 0180ET, no Brasil, e a Ferrari F50 do Museu Carde.
Mercedes-Benz e Porsche
A divisão clássica mais antiga é o Mercedes-Benz Classic Service and Parts, uma evolução de uma divisão histórica criada pela Daimler-Benz AG em 1936. O objetivo inicial era preservar pelo menos um exemplar de cada modelo, muitos dos quais são marcos históricos, como o Patent Motorwagen ou o Blitzen Benz. Com o tempo, a Mercedes transformou essa divisão no Mercedes-Benz Museum e no Classic Service and Parts.
O Classic Service and Parts realiza reparos em clássicos e fornece peças para modelos históricos, permitindo a compra de peças originais de qualquer época. As décadas de cuidado com o acervo histórico geraram um extenso arquivo técnico usado hoje para restaurações e reparos. O Classic Service da Mercedes também oferece certificações de programas “High Mileage” e comercializa clássicos certificados.
Em 1999, a Porsche deu passos semelhantes. A Porsche Classic não se restringe a peças, manutenção e restauração, mas também abrange a comercialização, identificação e localização de clássicos, organização de eventos, certificação de clubes e acessórios para fãs da marca.
Os serviços de manutenção oferecidos possuem oficinas exclusivas com preços fixos, sendo a hora técnica de 200 a 300 euros para serviços de mecânica, funilaria ou pintura. Estes valores aplicam-se também à restauração de qualquer modelo Porsche fabricado há mais de 10 anos. O procedimento segue o padrão dos centros de restauração de fábrica: o carro é enviado a uma autorizada Porsche Classic, desmontado para inspeção detalhada, e seu motor e transmissão são reconstruídos com peças originais, a carroceria restaurada com técnicas da época, pintura completa seguindo o método de fabricação, e finalmente, equipado com acessórios e acabamentos de série e opcionais presentes na documentação do chassi.
Outras Marcas e Iniciativas
Mais recentemente, em 2014, entrou em cena a Jaguar Land Rover com o Special Operations Group. Este grupo difere dos outros centros de restauração por também ser uma divisão dedicada ao desenvolvimento de novos modelos especiais, como o Range Rover Sport SVR ou o Jaguar Project 7 (criado pelo brasileiro César Pieri). Contudo, uma de suas funções é a restauração de clássicos da Jag e da Land Rover. A divisão histórica do Special Operations Group está localizada em um antigo prédio da Jaguar, em Browns Lane, sede da fabricante entre 1951 e 2001, onde a Heritage Vehicle Workshop armazena peças e concentra serviços de restauração e manufatura.
A operação começou em agosto de 2014 com a conclusão de uma série especial de seis cupês E-Type lightweight, interrompida nos anos 1960.
Entre os supercarros, a Lamborghini foi a última a ingressar no mercado, lançando o Polo Storico em abril de 2015. Esta divisão une os setores de arquivo histórico, reparos e estoque de peças da Lamborghini. A criação do Polo Storico ocorreu após o recorde de 1 bilhão de euros alcançado em leilões de clássicos em 2014, o que elevou o valor de modelos históricos, como quase todos os Lamborghini anteriores ao Diablo.
É possível solicitar um certificado de configuração original por um custo entre 7.000 e 10.000 euros, ou levar o carro a Sant’Agata Bolognese para inspeção no Polo Storico. Durante a inspeção, o carro é parcialmente desmontado para verificar a autenticidade das peças. O cliente pode optar por uma restauração total aos padrões originais ou mantê-lo como está. Apenas a inspeção custa 6.700 euros. Se for escolhida a restauração completa, o serviço utiliza peças de época guardadas ou peças novas fabricadas com a mesma técnica da época. Além disso, o Polo Storico vende peças sob demanda, como rodas para um Countach danificado.
Montadoras de Grande Volume
As marcas mais comuns também adotaram programas oficiais, capitalizando o sucesso do passado em um cenário onde os carros são padronizados por leis de segurança e emissões. Essas divisões surgiram após o fim da era dos modelos retrô. A Volkswagen foi a primeira dessas marcas de grande volume a criar uma divisão especial, tanto no exterior quanto no Brasil.
Na Europa, a iniciativa começou em 1995, quando o museu da Volkswagen adquiriu o inventário de peças de um importador, formando o primeiro estoque de reposição para modelos antigos. Dois anos depois, em 1º de outubro de 1997, foi estabelecido o Classic Parts Center, divisão do museu que fornece peças originais para os clássicos.
Embora não ofereça serviço de restauração de fábrica, esta divisão fornece a “Certidão de Nascimento” do carro, que detalha data de fabricação, cor original, acabamento interno, país de destino e opcionais de fábrica, com base no VIN. Também é possível solicitar a ficha técnica com dados como peso, dimensões e motor, útil para regularização ou emplacamento em vistorias de veículos históricos.
No Brasil, a Garagem Volkswagen, divisão local de modelos históricos, oferece um serviço similar. Inaugurada em 2019, inicialmente guardava mais de 100 modelos do acervo histórico, mas desde 2023 passou a emitir o Certificado de Veículos Clássicos para qualquer modelo com, no mínimo, 20 anos de idade. Para obter este certificado, é necessário enviar os dados do carro (código do chassi, número do motor, cor, ano e modelo), pagar uma taxa de R$ 500 e aguardar dez dias.