O analista político guineense Rui Landim expressou críticas severas à atuação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), afirmando que esta organização nunca demonstrou eficácia em seu país desde seus inícios.
Crise e Suspensão da Guiné-Bissau
Rui Landim relembrou que, embora a CPLP tenha sido estabelecida em 1996, a Guiné-Bissau já havia entrado em guerra civil em 1998 sem qualquer intervenção da organização. Atualmente, o país encontra-se suspenso da CPLP e de outros organismos pela primeira vez em sua história, em decorrência do golpe de Estado militar ocorrido em 26 de novembro de 2025, véspera da divulgação dos resultados eleitorais de 23 de novembro.
O ativista guineense levantou dúvidas sobre as consequências dessa suspensão, dado que a Guiné-Bissau enfrenta uma crise política há aproximadamente doze anos sem qualquer resposta da CPLP.
Situação de Domingos Simões Pereira
Adicionalmente, Domingos Simões Pereira, líder do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) e ex-secretário-executivo da CPLP entre 2008 e 2012, encontra-se detido, e a organização lusófona não parece ter tomado providências a respeito.
O professor moçambicano Elísio Macamo endossou essa visão, criticando que Domingos Simões Pereira, líder da oposição guineense e antigo secretário-executivo da CPLP, está preso há meses sem acusações, e que a CPLP não demonstra nenhuma ação sobre o caso.
Macamo questionou a razão de existir uma organização como essa em momentos como este.
Análise sobre Missões e Efeitos Práticos
O especialista brasileiro em História das Relações Internacionais, Adriano de Freixo, questionou o impacto real do envio de uma missão oficial ao país. Ele argumentou que tal missão serviria apenas para confirmar a deterioração da situação desde o golpe militar de 26 de novembro, a ausência de voz da oposição, as violações de direitos humanos e a repressão a manifestações contrárias ao governo militar.
Freixo concluiu que, mesmo com a confirmação desses fatos, a Guiné-Bissau permaneceria suspensa, e o efeito prático disso seria nulo. Ele ressaltou que a suspensão da CPLP não significa nada para a Guiné-Bissau, sendo apenas algo simbólico, visto que a CPLP carece de mecanismos para fiscalizar os Estados-membros e garantir o cumprimento dos princípios fundadores.
Indiferença Internacional e Perspectivas
Liberato Moniz, presidente da Universidade Lusíada de São Tomé e Príncipe, lamentou a grande indiferença internacional diante dos acontecimentos na Guiné-Bissau, comparando-os a conflitos distantes vistos na televisão portuguesa e brasileira, enquanto o que ocorre localmente é ignorado.
Embora Moniz considere que a missão oficial à Guiné-Bissau faz sentido, ele enfatiza a necessidade de objetivos concretos para auxiliar na mudança da situação do país.
Divergências sobre o Estatuto do País
Em contraste, o politólogo angolano Almeida Henriques defendeu que a Guiné-Bissau não cumpre os requisitos para fazer parte da organização, citando a falta de verticalidade institucional, a profunda instabilidade política interna e a necessidade de aderir aos valores democráticos exigidos pela CPLP.
Fernando Jorge Cardoso, analista português, apontou que os problemas da Guiné-Bissau possuem raízes regionais que transcendem a esfera da CPLP. Ele explicou que o evento foi uma encenação de golpe, motivada pelo risco de Sissoco Emabaló perder as eleições, e mencionou que ele conta com apoio da Nigéria, o que impede qualquer país da CPLP de confrontar Lagos.
Cardoso acrescentou que é improvável que Portugal ou Brasil se envolvam nesse confronto.
Papel das Organizações Regionais
O professor da Universidade Autónoma de Lisboa sustentou que a omissão da CPLP deve-se ao fato de que as organizações regionais africanas, como a CEDEAO (Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental, sediada em Abuja, Nigéria), têm primazia territorial, e a CPLP não possui capacidade política ou militar para atuar de forma autônoma nesse cenário.
Para o sociólogo cabo-verdiano Redy Lima, equiparar a CPLP à CEDEAO é injusto, pois a CEDEAO possui maior peso e presença. Segundo Lima, a Guiné-Bissau serve como um claro exemplo da inexistência de peso político da CPLP.
Lima também observou que o passado colonial frequentemente mancha a imagem da CPLP, um argumento que foi utilizado por Sissoco Emabaló.
Futuro da Participação na CPLP
Referindo-se ao anúncio de 23 de junho sobre a possível saída da Guiné-Bissau da CPLP após as eleições de dezembro, Fernando Jorge Cardoso avaliou que uma ruptura ou saída formal é improvável, dada a dependência do regime atual em relação ao financiamento de Portugal, da União Europeia e de outros doadores internacionais, conforme defendido pela diplomacia portuguesa.
A CPLP, que celebra 30 anos em 17 de julho, é composta por Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste, e detém a presidência rotativa temporária desde a suspensão de Bissau.