As discussões sobre mudanças climáticas na África do Sul frequentemente se concentram na agricultura, pois é onde os efeitos das perturbações ambientais são mais evidentes. A atenção principal é dada às secas, inundações, diminuição da produtividade e estresse térmico que afeta a pecuária. Isso ocorre porque o setor agrícola está diretamente exposto aos eventos climáticos extremos.
O Papel do Complexo Agroindustrial
No entanto, os sistemas alimentares incluem muito mais do que apenas a produção agrícola. Entre os agricultores e os consumidores, há o setor de processamento agroindustrial. Ele consiste em empresas que transformam matérias-primas agrícolas em produtos alimentícios prontos por meio de processos como limpeza, moagem, conservação, embalagem, armazenamento e fabricação.
Este setor conecta a produção agrícola aos mercados, varejistas e domicílios. Na África do Sul, o processamento agroindustrial representa cerca de 25% do volume nacional de produção e emprega mais de 300.000 empregos diretos.
Vulnerabilidade aos Riscos Climáticos
O setor de processamento agroindustrial é particularmente sensível aos riscos climáticos, pois suas operações dependem de um fornecimento estável de matérias-primas agrícolas (colheitas e gado). Isso o torna extremamente vulnerável a interrupções causadas por secas, inundações, ondas de calor e outros eventos climáticos extremos.
Pesquisadores conduziram um estudo no centro industrial sul-africano de Gauteng para descobrir como as empresas deste setor gerenciam os riscos climáticos e quais medidas estão tomando para se adaptar. Este centro provincial foi escolhido devido à sua importância para o processamento de alimentos, logística e distribuição no país. As interrupções no processamento agroindustrial afetam não apenas a província, mas também a disponibilidade de alimentos, a confiabilidade do fornecimento, o emprego e os preços dos alimentos em toda a África do Sul.
Barreiras para a Adaptação Empresarial
No âmbito do estudo, foram realizadas entrevistas com 113 empresas de processamento agroindustrial. Os participantes foram questionados sobre se estavam cientes dos riscos climáticos, o que poderiam fazer para se adaptar e o que lhes impedia de fazê-lo.
Os principais achados mostraram que a educação formal é um fator forte que determina a adaptação às mudanças climáticas. Foi observado que as empresas de processamento agroindustrial cujos proprietários possuem formação universitária tomam decisões mais ponderadas e implementam práticas que levam em conta o clima. No entanto, a maioria dos treinamentos disponíveis mostrou-se pouco eficaz, pois estavam focados na produção e nos negócios, e não na compreensão dos riscos climáticos ou nas formas de resposta a eles.
Os pesquisadores concluíram que a simples participação no processamento agroindustrial não é suficiente para promover a adaptação às mudanças climáticas; a educação desempenha um papel crucial aqui. Outros fatores, como idade, gênero, educação e experiência empresarial, tiveram um impacto limitado na tomada de decisões de adaptação pelos proprietários (por exemplo, conservação de água, uso de tecnologias energeticamente eficientes, melhoria dos métodos de armazenamento ou diversificação de fornecedores de matéria-prima).
Impacto nos Negócios Alimentares
O estudo incluiu empresas envolvidas em moagem de grãos, processamento de carne, produção de laticínios, processamento de frutas e vegetais, bem como avicultura, padarias e fabricantes de alimentos. Foi estabelecido que essas empresas sofrem muito com interrupções relacionadas ao clima, pois dependem de colheitas, gado e outras matérias-primas agrícolas, bem como de água e energia.
Os proprietários dessas empresas relataram que problemas sérios incluem escassez de água, aumento da temperatura, fornecimento irregular de recursos agrícolas e aumento dos custos de produção. Algumas empresas tomaram medidas para combater as mudanças climáticas, como começar a economizar água. Elas também expandiram sua linha de produtos, incluindo mais produtos processados de longa duração. A adaptação das operações incluiu a alteração dos horários de trabalho durante o calor intenso, a melhoria da ventilação e refrigeração, bem como o uso mais eficiente da água.
No entanto, muitos tiveram dificuldades em dar passos adiante devido à falta de fundos, suporte técnico e acesso a informações confiáveis sobre ameaças climáticas.
Suporte Necessário para Processadores Agroindustriais
Os resultados do estudo indicam que as empresas de processamento agroindustrial em Gauteng precisam de maior apoio para entender as mudanças climáticas e se preparar para suas consequências. Esse apoio deve incluir melhor acesso a informações e programas de treinamento práticos. Isso ajudará os negócios a responder aos crescentes riscos climáticos.
A ajuda às empresas na adaptação não deve ser realizada apenas por esforços individuais. A adaptação às mudanças climáticas deve ser integrada aos programas de apoio existentes, como treinamento, educação e consultoria, e não vista como uma opção adicional. Tal ajuda é geralmente fornecida por serviços de extensão governamentais, grupos setoriais e programas de apoio a pequenas empresas.
Qualquer planejamento para a indústria e o setor de produção de alimentos deve incluir esse tipo de treinamento, especialmente à medida que as interrupções climáticas se tornam mais frequentes e caras.
Importância da Educação e Financiamento
O acesso à educação orientada para o clima, treinamento prático e assistência técnica será fundamental. Muitos proprietários de empresas reconhecem o risco que as mudanças climáticas representam, mas saber o problema nem sempre significa saber como reagir. Guias práticos, ferramentas de planejamento e aconselhamento especializado podem ajudar as empresas a passar de medidas de curto prazo para preparação de longo prazo.
O acesso a financiamento também é crítico, pois a adaptação às mudanças climáticas exige investimento financeiro. Esses fundos podem ser direcionados para novos equipamentos, infraestrutura ou tecnologias que ajudem a lidar com condições em mudança, como ondas de calor e inundações. Ao mesmo tempo, é necessário melhorar os serviços públicos básicos: fornecimento de eletricidade confiável, abastecimento de água estável e serviços municipais funcionais são vitais para as empresas de processamento agroindustrial em Gauteng. Quando esses sistemas são não confiáveis, é muito mais difícil para as empresas se prepararem e responderem às mudanças climáticas.
O estudo também mostrou que há necessidade de maior apoio para empresas lideradas por mulheres, pois as mulheres enfrentam maiores dificuldades em obter financiamento, tecnologia, acesso a mercados e informações climáticas. Preparar as empresas de processamento agroindustrial para as mudanças climáticas não é apenas uma questão ambiental, mas também uma tarefa de proteção de estoques alimentares, apoio ao emprego e fortalecimento da economia.