Embora as frutas sul-africanas tenham recebido altas avaliações de um viajante americano, o debate sobre frutos sem sementes vai além da simples preferência de sabor. A essência da disputa reside em saber se os alimentos mantêm a capacidade de permitir que as comunidades os reproduzam autonomamente.
Agricultura Corporativa e Dependência
Os habitantes da África do Sul estão sujeitos a uma ilusão perigosa de que os frutos sem sementes são apenas uma questão de conveniência: mais fáceis de consumir, embalar e vender. No entanto, num país onde milhões lutam por sustento, é necessário fazer uma pergunta mais séria: quem ganha quando as pessoas comuns deixam de ter a capacidade de produzir o que comem?
Para as comunidades pobres, a semente nunca foi um problema; sempre foi um ativo valioso. Em aldeias rurais, assentamentos e bairros informais, as famílias tradicionalmente usavam os alimentos de forma mais racional do que apenas uma refeição. Por exemplo, a abóbora não era usada apenas como jantar, mas suas sementes podiam ser plantadas, os tomates poderiam ser replantados e os grãos de milho poderiam se tornar a colheita da próxima estação.
Poder Económico e Controlo
A capacidade de guardar e replantar alimentos era uma das poucas formas de poder económico acessível a pessoas com recursos financeiros limitados. Portanto, o crescente controlo corporativo sobre as sementes causa séria preocupação. Um pequeno número de empresas agroindustriais transnacionais domina agora grandes partes do mercado mundial de sementes comerciais. Graças a patentes, acordos de licenciamento e genética patenteada, elas definem cada vez mais o que pode ser plantado e como os agricultores obtêm sementes.
Quando os agricultores são forçados a comprar novas sementes a cada estação em vez de guardar as antigas, isso leva a uma dependência descontrolada das corporações. Este processo não é uma teoria da conspiração, mas uma mudança documentada na agricultura global que afeta profundamente a sociedade moderna.
Experiência Internacional e Sistemas Locais
É dado o exemplo do México, terra natal do milho, onde comunidades indígenas lutaram durante anos para proteger as variedades tradicionais de milho contra a contaminação genética por culturas comerciais de OGMs. Eles entendem que o enfraquecimento dos sistemas locais de sementes leva à perda não só de biodiversidade, mas também de controlo sobre a segurança alimentar. A África enfrenta problemas semelhantes. Em todo o continente, os agricultores confiaram durante gerações em redes informais de troca de sementes que sustentam variedades locais adaptadas às condições. Estas sementes são frequentemente mais resistentes às condições locais do que as variedades comerciais importadas.
No entanto, estes sistemas enfrentam uma pressão crescente dos mercados de sementes comerciais, que favorecem a propriedade corporativa em detrimento do controlo comunitário. É importante notar que nem todos os frutos sem sementes são geneticamente modificados; muitas variedades são obtidas através de melhoramento tradicional e podem ser propagadas por estaquia ou enxertia, e os agricultores cultivaram algumas destas culturas com sucesso durante décadas. No entanto, isso não significa que a tendência geral seja inofensiva.
Consequências para a África do Sul
À medida que os consumidores se habituam a produtos que não podem simplesmente ser replantados do que foi comprado, a cultura de conservação de sementes começa a desaparecer. Assim que as comunidades perdem o hábito de guardar, partilhar e preservar sementes, tornam-se mais dependentes dos fornecedores comerciais. Num país rico, isto pode causar inconvenientes, mas na África do Sul pode resultar numa crise. O país já enfrenta elevado desemprego, aumento dos preços dos alimentos e profunda pobreza rural. A última coisa que deve acontecer é a transição para um sistema alimentar em que os agregados familiares mais pobres têm menos capacidade de produzir seus próprios alimentos.
A soberania alimentar é de suma importância. As comunidades devem ter o direito de guardar, trocar e plantar sementes sem estarem permanentemente ligadas a grandes corporações. Isto exige a proteção das variedades de sementes locais, o apoio aos pequenos agricultores e o fortalecimento dos bancos de sementes locais antes que desapareçam.
Inovação vs. Controlo
A África do Sul precisa de inovações agrícolas, pois as alterações climáticas e a seca exigem melhores tecnologias agrícolas. No entanto, as inovações não devem se tornar um caminho para o reforço do domínio corporativo sobre o sistema alimentar. A história mostrou que a dependência raramente é acidental. O colonialismo não começou com a questão do que os africanos querem comer; ele destruiu os sistemas agrícolas locais, substituiu as culturas locais diversificadas pela agricultura de exportação e convenceu gerações da superioridade dos métodos importados. Hoje, embora os métodos tenham mudado, as consequências são surpreendentemente familiares: o conhecimento local está a desaparecer enquanto a agricultura comercial se torna cada vez mais dominante.
O debate sobre frutos sem sementes resume-se, em última análise, não a gostar ou não de uvas sem sementes, mas se o alimento permanece aquilo que as comunidades podem reproduzir por si mesmas, ou se transforma em algo que tem de ser comprado constantemente a empresas que controlam cada vez mais a genética do que cultivamos. Não se pode continuar a medir a segurança alimentar pela quantidade de produtos nas prateleiras dos supermercados — este é um erro perigoso. O supermercado não é soberania alimentar; é uma cadeia de abastecimento, e cadeias de abastecimento falham.
O governo deve tratar a soberania das sementes com o mesmo rigor que trata a segurança energética. É necessário investir em bancos de sementes locais, apoiar pequenos agricultores, proteger as variedades de património e expandir os hortas escolares, preservando o conhecimento agrícola que sustentou as comunidades africanas durante séculos. Estas não são ideias nostálgicas, mas uma necessidade económica num país que luta contra a fome, o desemprego e a incerteza climática. A maior ameaça para a África do Sul não é apenas que as pessoas estejam com fome hoje, mas que estamos a perder gradualmente a capacidade de garantir que amanhã não passaremos fome. Numa nação onde a pobreza já priva milhões de pessoas do poder económico, permitir que as corporações obtenham ainda mais controlo sobre os meios de produção de alimentos deve preocupar cada residente da África do Sul, porque assim que as pessoas perdem o controlo sobre a semente, acabam por perder o controlo sobre a colheita.