O fenômeno climático El Niño segue em fortalecimento e possui alta probabilidade de se configurar como um dos eventos mais potentes desde o início dos registros históricos. Essa projeção foi divulgada na quinta-feira (9) pelo Centro de Previsão Climática (CPC) dos Estados Unidos, que prevê que o pico de intensidade ocorrerá entre os meses de outubro e dezembro.
Características e Impactos Globais
O El Niño é definido pelo aquecimento das águas superficiais nas áreas central e leste do Oceano Pacífico equatorial. Este aquecimento desencadeia alterações nos padrões de pressão atmosférica e ventos, afetando a precipitação em várias partes do globo e contribuindo para o aumento das temperaturas médias mundiais.
Eventos climáticos significativos recentes foram ligados a este fenômeno. Um exemplo citado é a inundação de grande escala que atingiu o Rio Grande do Sul em maio de 2024, evento que foi atribuído tanto ao El Niño quanto às alterações climáticas.
Probabilidades de Intensidade Elevada
Em sua atualização mais recente, o CPC indicou que há uma chance de 81% de o El Niño atingir a classificação de “muito forte” durante o período de outubro a dezembro. De acordo com o órgão, um evento dessa magnitude estaria entre os maiores documentados desde 1950. A designação “muito forte” é aplicada quando a temperatura da superfície do mar excede o valor de referência em 2 °C ou mais.
Adicionalmente, o centro estadunidense estima em 97% a possibilidade de o fenômeno permanecer ativo até o começo da primavera de 2027 no Hemisfério Norte (entre março e junho). Esta previsão corrobora a análise realizada naquela semana por Tim Stockdale, especialista em El Niño do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo, que alertou que seria “uma enorme surpresa” se o evento não estabelecesse novos recordes.
Variação Regional dos Efeitos
Os efeitos do El Niño tendem a mudar dependendo da localização, podendo causar modificações notáveis nos regimes de temperatura e chuva em escala mundial. Entre os impactos mais conhecidos estão períodos de seca na Austrália e invernos mais úmidos no leste da África e no sul dos Estados Unidos.
A cientista climática Isla Simpson, ligada ao Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica dos Estados Unidos, comentou à AFP que existem provas de que o aquecimento global está intensificando tanto os episódios de El Niño quanto os de La Niña. Ela declarou: “Há muitas evidências em nossos modelos de que o aquecimento global aumenta a variabilidade do El Niño, então temos eventos de El Niño maiores e também eventos de La Niña maiores”. A La Niña representa a fase de resfriamento do ciclo conhecido como El Niño-Oscilação Sul.
Nos Estados Unidos, o fenômeno geralmente ameniza secas em certas áreas, como a Califórnia, mas também pode gerar condições mais secas em outras partes do país. Na Europa, segundo Simpson, as correlações entre o fenômeno e o clima são menos consistentes. Contudo, há indícios de que o El Niño possa elevar a chance de temperaturas mais baixas no final do inverno no norte do continente.
A pesquisadora ressaltou que os impactos seguem, em geral, os padrões climáticos já conhecidos, mas advertiu que outros fatores meteorológicos podem modificar esses resultados. Ela afirmou: “O mais provável é que vejamos as teleconexões canônicas do El Niño”, acrescentando que “em qualquer evento específico, as coisas podem desviar disso simplesmente porque temos todas essas incertezas aleatórias. Há fenômenos meteorológicos que ocorrem sobre esses sinais previsíveis de escala temporal mais longa.”
Progresso do Aquecimento no Pacífico
Conforme o Centro de Previsão Climática, as temperaturas da superfície do mar na área denominada Niño 3.4, situada no Pacífico equatorial, encontram-se atualmente 1,2 °C acima da média. O órgão informou que, somado ao aquecimento das águas subsuperficiais e às mudanças nos padrões de vento e pressão atmosférica, o sistema oceano-atmosfera começou a apresentar um El Niño em ascensão.
Embora o fenômeno tipicamente atinja seu auge entre novembro e fevereiro, seus reflexos sobre as temperaturas globais costumam se manifestar posteriormente. Quando combinado com as mudanças climáticas causadas pela ação humana, o episódio anterior do El Niño ajudou a tornar 2023 o segundo ano mais quente já registrado e 2024 o ano mais quente da história dos registros.