A Via Láctea, teoricamente, deveria ser um local repleto de vida, contudo, apesar de inúmeras investigações, nenhuma outra civilização foi encontrada. Este cenário levanta o Paradoxo de Fermi, um enigma que fascina astrônomos há décadas.
A Via Láctea, teoricamente, deveria ser um local repleto de vida, contudo, apesar de inúmeras investigações, nenhuma outra civilização foi encontrada. Este cenário levanta o Paradoxo de Fermi, um enigma que fascina astrônomos há décadas.
Em 1950, o físico ítalo-americano Enrico Fermi estava almoçando em Los Alamos, no Novo México (EUA), um centro de pesquisa estabelecido anteriormente como parte do Projeto Manhattan, responsável pela criação da bomba atômica. Durante o encontro, o grupo discutiu uma charge da revista New Yorker que satirizava o desaparecimento de lixeiras em Nova York, mostrando alienígenas verdes levando lixeiras para uma nave espacial.
Inspirados, os cientistas começaram a ponderar sobre a possibilidade de visitas de seres extraterrestres reais. Eles fizeram estimativas informais sobre a probabilidade de vida alienígena avançada. Minutos depois, Fermi teria proferido a célebre indagação: “Cadê todo mundo?”. Para o laureado com o Prêmio Nobel de Física, a lógica sugeria que civilizações com tecnologia razoável deveriam existir, o que gerou o Paradoxo de Fermi, um questionamento que persiste há mais de 70 anos.
O paradoxo fundamenta-se na vastidão do cosmos, cuja imensidão desafia a compreensão humana. Estima-se que existam pelo menos 200 bilhões de galáxias no Universo observável, podendo chegar a dois trilhões. Cada uma dessas galáxias contém milhões ou bilhões de estrelas, e o número de sóis no espaço possui 24 zeros, sendo provável que cada um possua planetas em órbita. Carl Sagan ressaltou que há mais mundos do que grãos de areia na Terra, alertando que seria um grande desperdício de espaço se apenas a Terra existisse.
Existe uma aparente contradição entre a enorme quantidade de mundos habitáveis potenciais e a ausência de qualquer sinal de vida externa. Uma visão simplificada sugere que é apenas uma questão de tempo até que sejamos encontrados ou encontremos outra civilização inteligente.
Embora a ideia de ETs seja antiga, remontando a sátiras gregas do século 2 d.C., o estudo científico é recente. É crucial diferenciar a ufologia da astrobiologia. A ufologia concentra-se nos relatos midiáticos de OVNIs (objetos voadores não identificados) e fenômenos aéreos misteriosos, sendo majoritariamente conduzida por entusiastas amadores e classificada como pseudociência por não seguir metodologia científica.
Em contrapartida, a astrobiologia é o ramo da astronomia dedicado a investigar a viabilidade de vida fora da Terra. Este campo foca em formas de vida simples, como bactérias e seres extremófilos, capazes de sobreviver em ambientes hostis, como temperaturas extremas ou toxinas. Astrobiólogos analisam regiões próximas, como Marte e Vênus, e luas de Saturno, como Titã e Encélado, buscando bioassinaturas — moléculas ou fenômenos produzidos por vida.
A área que estuda civilizações avançadas capazes de comunicação é denominada SETI (Search for Extraterrestrial Intelligence). Ela se concentra na detecção de tecnoassinaturas, ou seja, sinais de tecnologia detectáveis da Terra, como ondas de rádio. A SETI apoia-se no princípio copernicano, que postula que vivemos em um sistema estelar comum, e não em um planeta privilegiado.
Embora galáxias distantes sejam inatingíveis, a Via Láctea é vasta, contendo entre 100 e 400 bilhões de estrelas. Inicialmente, não se sabia se planetas eram comuns, mas hoje se sabe que eles são a regra. Desde a descoberta do primeiro exoplaneta em 1992, mais de 6.300 foram encontrados, em grande parte graças à missão Kepler da Nasa, lançada em 2009.
Estimativas atuais baseadas nos dados do Kepler indicam a existência de pelo menos 300 milhões de planetas potencialmente habitáveis na galáxia. Estes são definidos como rochosos, com clima ameno, permitindo a água líquida na superfície, essencial para a vida conhecida.
A busca por tecnoassinaturas começou após a pergunta de Fermi. Em 1959, Giuseppe Cocconi e Philip Morrison publicaram um artigo na revista Nature, sugerindo que ondas eletromagnéticas seriam o melhor meio para comunicação interestelar devido à sua alta velocidade e simplicidade. O desafio reside em identificar uma mensagem alienígena no vasto espectro eletromagnético.
Os cientistas concluíram que a frequência de rádio de 1.420,4 MHz, correspondente ao comprimento de onda de 21 centímetros, é ideal, pois é a frequência emitida pelo hidrogênio, o elemento mais abundante do Universo. Esta frequência é amplamente conhecida por sociedades tecnológicas e funciona como um canal universal. Atualmente, esta faixa é reservada internacionalmente para a radioastronomia.
Em 1960, Frank Drake iniciou a primeira busca por sinais alienígenas, utilizando um radiotelescópio para observar as estrelas Tau Ceti e Epsilon Eridani, em um projeto chamado Ozma. Apesar do resultado negativo, Drake é considerado o “pai da SETI”. Um ano depois, em 1961, ele organizou a primeira conferência mundial sobre SETI, reunindo cientistas como Philip Morrison e Carl Sagan.
Para orientar o debate sobre a probabilidade de outras civilizações, Drake desenvolveu uma fórmula matemática. A Equação de Drake multiplica diversas probabilidades — como o número de estrelas, a proporção de planetas, a chance de serem habitáveis e a probabilidade de surgimento de vida — para calcular o número de sociedades alienígenas com as quais poderíamos entrar em contato na Via Láctea.
Um novo estudo, conduzido pelo pesquisador austríaco Sergey Ivliev, propõe uma explicação para o grande mistério da astronomia: por que a humanidade jamais detectou sinais de civilizações extraterrestres altamente desenvolvidas. Este trabalho foi publicado como pré-publicação na plataforma arXiv.
A tese central sugere que sociedades que atingem um alto nível de automação baseado em inteligência artificial deixariam de realizar grandes projetos espaciais visíveis. Em vez disso, elas adotariam métodos mais discretos para se expandir pelo cosmos.
Essa proposta visa reinterpretar o chamado Paradoxo de Fermi, uma questão levantada nos anos 1950 que contrasta a alta probabilidade de vida inteligente na galáxia com a falta de evidências concretas de sua existência.
O artigo introduz o conceito de “Filtro da Expansão Silenciosa”. De acordo com esta teoria, uma civilização que estabelece um sistema industrial e computacional autônomo fora de seu planeta deixaria de investir em empreendimentos grandiosos motivados por poder ou prestígio.
Nesse estágio, a prioridade mudaria para objetivos mais lógicos, como a preservação do conhecimento, o aumento das chances de sobrevivência da espécie e a garantia de redundância contra possíveis catástrofes.
Este estágio tecnológico é denominado Autonomous AI-Cosmoindustry (AICI). O estudo define AICI como a condição em que uma sociedade possui infraestrutura espacial capaz de projetar, construir, consertar e lançar equipamentos sem dependência contínua da intervenção biológica. Iniciativas atuais, como centros de dados espaciais, são vistas apenas como passos preliminares nesse sentido.
A argumentação é reforçada por reflexões do astrofísico Sergey Popov, que defende que uma inteligência artificial verdadeiramente racional não teria motivações humanas, como o desejo de conquista ou reconhecimento. Para essa IA, disseminar infraestrutura pelo universo seria meramente uma estratégia de mitigação de riscos.
Em vez de mover grandes populações em vastas naves interestelares, a proposta prevê o envio de pequenas sondas interestelares. O cálculo do estudo indica que uma cápsula de cerca de 10 quilos viajando a aproximadamente 1% da velocidade da luz consumiria uma fração mínima da energia disponível para uma civilização desse nível tecnológico.
Essas sondas atuariam como sistemas de contingência, transportando registros do saber acumulado pela civilização e, potencialmente, material biológico suficiente para que uma inteligência artificial pudesse reconstruir a sociedade após um desastre. Devido ao seu porte compacto e discreto, tais estruturas seriam muito mais difíceis de serem detectadas do que megaestruturas ou grandes frotas espaciais.
O pesquisador também ressalta que este modelo exigiria restrições na capacidade de autorreplicação das sondas, visando prevenir o cenário conhecido como “grey goo”, onde máquinas reprodutivas consumiriam recursos de forma incontrolável.
A hipótese também fornece uma explicação para a ausência de tecnossinais de civilizações extremamente avançadas. Sob essa ótica, o fato de telescópios não identificarem assinaturas térmicas compatíveis com sociedades Kardashev Tipo III não implicaria que a galáxia estivesse vazia; a razão seria que civilizações bem-sucedidas optariam por manter-se intencionalmente discretas.
Contudo, o estudo aponta uma possibilidade menos otimista. Se o envio dessas sondas for relativamente simples para sociedades suficientemente evoluídas, a falta de evidências próximas ao Sistema Solar poderia sugerir duas coisas: ou a humanidade está entre as primeiras civilizações a alcançar tal patamar tecnológico, ou há uma fase extremamente complexa entre o desenvolvimento industrial planetário e a consolidação de uma infraestrutura espacial autônoma.