O financiamento islâmico representa um setor financeiro completo com um volume global superior a 3 trilhões de dólares, operando em dezenas de países, incluindo Malásia, Emirados Árabes Unidos, Reino Unido e Alemanha. É importante entender que ele não é nem dinheiro religioso nem caridade.
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Filosofia de Ganhos no Bancário Islâmico
A principal diferença entre um banco islâmico e um tradicional reside na metodologia de geração de receita. Um banco convencional lucra com o dinheiro, utilizando a diferença entre as taxas de depósito e empréstimo, fazendo da circulação monetária em si um produto. O banco islâmico, por outro lado, obtém receita de transações reais: ele se envolve na compra e revenda de bens, aluguel de propriedades, investimento no negócio do cliente e divisão de lucros e perdas.
Neste sistema, o dinheiro serve apenas como instrumento, e o rendimento está sempre ligado a um ativo real — seja um carro, um apartamento, equipamento ou um negócio em funcionamento. Todo o sistema se baseia em três proibições: Riba (proibição de obter renda de empréstimos, ou juros, pois o dinheiro não deve crescer por si só), Gharar (proibição de incerteza excessiva, como vender um bem inexistente) e Maysir (proibição de jogos de azar).
Além disso, existe um filtro ético: o banco islâmico não financia a produção de álcool ou tabaco, nem jogos de azar ou quaisquer outras atividades classificadas como proibidas (haram) pela Sharia. O princípio fundamental do financiamento islâmico é o compartilhamento mútuo de riscos e a base em ativos reais.
Comparação de Modelos Bancários
Considere o exemplo da compra de um carro no valor de 300 milhões de som. No cenário do banco convencional, o banco concede um empréstimo, e o cliente paga a dívida ao longo de cinco anos com juros. Com a alteração da taxa de juros, o pagamento também muda, e as multas por atraso se tornam receita do banco. No cenário do banco islâmico (Murabaha), o banco primeiro compra o carro ao revendedor e depois o vende ao cliente em parcelas com uma margem de lucro previamente acordada, por exemplo, por 360 milhões de som ao longo de cinco anos. Este valor é fixo e não aumenta. O banco atua aqui como vendedor, e não como credor, e assume os riscos relacionados ao bem até o momento da entrega ao comprador. De acordo com as regras, as multas por atraso não podem ficar com o banco, mas devem ser destinadas à caridade. No entanto, deve-se notar que os pagamentos no banco islâmico não são gratuitos, pois há uma margem de lucro, e o custo total pode ser comparável à taxa de juros de um empréstimo, mas a diferença chave reside na natureza da transação e na distribuição de riscos, além do fato de o cliente saber o valor final desde o início.
Instrumentos de Financiamento Islâmico
A legislação do Uzbequistão permite que os bancos utilizem seis tipos de operações islâmicas. Entre elas:
Murabaha: Venda parcelada, onde o banco adquire bens e os revende ao cliente com uma margem de lucro fixa, utilizada para carros, eletrodomésticos, moradia e bens comerciais.
Ijara: Aluguel ou leasing, no qual o banco compra um bem e o aluga ao cliente, frequentemente com a opção de compra posterior.
Mudaraba: Parceria de gestão fiduciária, onde uma parte fornece os fundos e a outra fornece o trabalho; o lucro é dividido por acordo, e o investidor assume as perdas.
Musharaka: Empreendimento conjunto, no qual o banco e o cliente investem conjuntamente em um projeto e dividem lucros e perdas proporcionalmente às suas participações.
Salam: Pagamento antecipado por bens, onde o banco paga pelo bem antecipadamente, por exemplo, a um agricultor pelo colheita futura.
Wakalah: Contrato de agência, segundo o qual o cliente designa o banco para gerenciar fundos mediante uma comissão.
Existem também Sukuk — análogo islâmico de títulos, permitindo que o investidor financie um projeto específico e receba uma parte do rendimento, e Takaful — seguro islâmico baseado na ajuda mútua através de um fundo comum dos participantes.
Desmistificando o Bancário Islâmico
Existem vários equívocos sobre este sistema. Primeiro, o banco islâmico é uma organização comercial que gera lucro, apenas usando um método diferente. O vice-presidente do Banco Central, Sanjar Nosirov, enfatizou que muitos erroneamente consideram o financiamento islâmico algo totalmente gratuito, confundindo-o com assistência social; na verdade, a margem de lucro na Murabaha ou a taxa de aluguel na Ijara representam o custo real do financiamento.
Em segundo lugar, o cliente de um banco islâmico pode pertencer a qualquer fé ou não ter nenhuma fé. Em Londres, um dos centros ocidentais do financiamento islâmico, muitos clientes desses bancos não são muçulmanos, atraídos pela transparência, pagamentos fixos e filtros éticos.
Em terceiro lugar, a lei criou um modelo duplo: os bancos tradicionais continuam operando como antes, e os serviços islâmicos tornaram-se um complemento, implementado seja por bancos islâmicos separados ou por 'janelas islâmicas' dentro das instituições existentes. A experiência mundial mostra a coexistência e concorrência desses dois sistemas ao longo de décadas.
Base Legal e Novas Estruturas
A Lei ZRU-1126 foi aprovada em 27 de março de 2026 e assinada pelo Presidente Shavkat Mirziyoyev. Ela introduz alterações em nove atos simultaneamente, incluindo os Códigos Civil e Tributário, bem como as leis sobre o 'Banco Central' e 'Bancos e Atividade Bancária', formando a base legal do novo setor.
Para operar o bancário islâmico, é necessária uma licença especial do Banco Central, que é perpétua e intransferível. No país, podem operar tanto bancos islâmicos totalmente estabelecidos quanto 'janelas islâmicas' dentro de bancos tradicionais, e um banco licenciado pode operar ambas as linhas paralelamente. O vice-presidente do Banco Central, Sanjar Nosirov, chamou a entrada em vigor da lei de um evento histórico para o sistema financeiro do Uzbequistão.
Em 15 de julho de 2026, o Banco Central instituiu o Conselho de Financiamento Islâmico. Este órgão colegiado é responsável pela coordenação do desenvolvimento do financiamento islâmico, estabelecimento de padrões unificados para bancos, IFIs e outras organizações que operam sob princípios islâmicos. O Conselho é composto por cinco membros, liderados por Saidjamol Masaitov do Centro de Fatwas do Conselho Muçulmano do Uzbequistão. Os membros do conselho, incluindo Muhammadayibkhon Komidov, Hikmatill Toshmerov, Abdullatif Tursunov e Akhrorjon Saidullaev, desenvolvem padrões nacionais que atendem aos requisitos internacionais, consultam bancos e representam o Banco Central na AAOIFI.
A novidade legislativa — permitir que os bancos islâmicos realizem comércio, criem empresas e adquiram participações e ações — possibilita operações como Murabaha e Musharaka. Além disso, o Código Tributário possui um capítulo separado sobre operações islâmicas, garantindo neutralidade fiscal para que os produtos islâmicos não fiquem em desvantagem em relação aos empréstimos desde o início. As multas destinadas à caridade podem ser contabilizadas como despesas do banco.
Caminho Histórico de Desenvolvimento
O caminho para a implementação do financiamento islâmico levou cerca de vinte anos. Em 2003-2004, o Uzbequistão aderiu ao Banco Islâmico de Desenvolvimento (IsDB), que começou a fornecer os primeiros projetos para os bancos uzbequianos. Em 2018, houve uma tentativa de obter ajuda do ICD para lançar 'janelas islâmicas', mas a resolução do projeto não foi aprovada. Em 2020, um estudo do PNUD-IsDB mostrou que 61% dos empreendedores e 75% da população estavam dispostos a usar o financiamento islâmico.
Em abril de 2022, a lei sobre organizações de crédito não bancárias permitiu que as IFIs oferecessem financiamento islâmico. Em 2023, o desenvolvimento do financiamento islâmico foi declarado objetivo estatal no âmbito da estratégia 'Uzbequistão-2030'. Em 2024, o Banco Central aprovou as regras para IFIs islâmicas em operações de Murabaha, Ijara, Mudaraba, Musharaka e Salam. Em 2025, o projeto de lei foi submetido a discussões públicas, durante as quais as IFIs ofereceram serviços no valor de 21 bilhões de som, e um escritório de projetos do Banco Central foi criado. A Lei ZRU-1126 entrou em vigor em 29 de junho de 2026, abrindo oficialmente o bancário islâmico.
Planos até 2030
A reforma está se desenrolando em três fases, como observou o vice-presidente do Banco Central, Sanjar Nosirov, no TIIF-2026.
Com o objetivo de desenvolver o setor de finanças islâmicas e fortalecer suas bases legais e institucionais, foi estabelecido um Conselho de Finanças Islâmicas junto ao Banco Central.
Funções do Novo Conselho
Este conselho funcionará como um órgão colegiado, coordenando as atividades de bancos que prestam serviços bancários islâmicos, organizações de microfinanças que realizam financiamento islâmico, a Agência de Garantia de Depósitos, bem como outras instituições sob a supervisão do Banco Central.
Composição e Tarefas
O conselho é composto por cinco membros, incluindo especialistas com profundo conhecimento e experiência em direito islâmico e técnicos especializados. A nova estrutura visa promover o desenvolvimento do sistema financeiro islâmico com base em padrões internacionais, formar uma abordagem unificada nesta área e implementar eficazmente esses princípios na prática.
Principais Áreas de Trabalho
Entre as principais responsabilidades do Conselho está o desenvolvimento de projetos de padrões financeiros islâmicos, levando em consideração a experiência internacional, incluindo os padrões internacionais de finanças islâmicas, bem como os requisitos da legislação nacional. Além disso, o Conselho deve fornecer ao Banco Central pareceres e recomendações sobre questões de regulamentação e supervisão das atividades no setor de finanças islâmicas, participar da elaboração de projetos de atos normativos e jurídicos, e apresentar esclarecimentos e comentários sobre situações controversas nesta área.
Interação com Participantes do Mercado
Também é necessário aconselhar bancos e organizações de microfinanças sobre a organização de serviços financeiros islâmicos e realizar reuniões regulares com eles. O Conselho deve representar o Banco Central nas assembleias da AAOIFI (Associação de Contabilidade e Auditoria de Instituições Financeiras Islâmicas) e comunicar propostas e posições sobre os projetos de documentos desenvolvidos por esta organização quando necessário. Anualmente, o Conselho apresenta um relatório de suas atividades à direção do Banco Central.
Importância da Criação
A criação deste conselho é de grande importância para o desenvolvimento dos serviços financeiros islâmicos no país, em conformidade com os requisitos internacionais, fortalecendo a confiança dos investidores e expandindo a gama de serviços financeiros alternativos para a população e empreendedores.